Ano após ano, Portugal é a vergonha dos países desenvolvidos. Segundo a OCDE, nos próximos anos, ficaremos ainda mais para trás, se é que se consegue conceber tal cenário.
Temos a produtividade mais baixa da Europa, fraca inovação e vitalidade empresariais, educação e formação profissional deficientes e um péssimo uso dos fundos públicos; a nossa força laboral, é menos apta e educada que a dos restantes países europeus, inclusive dos novos membros; gastamos mais com os ordenados dos funcionários públicos do que a maioria dos países europeus mas sem conseguir melhorar os resultados; somos quem tem mais professores por aluno, e no entanto não conseguimos competir em educação e formação profissional; somos o país com os salários dos administradores de empresas públicas mais altos; somos o país, onde os automóveis de luxo tiveram um acréscimo nas vendas de 36% e no Norte há mais Ferraris que em Itália; a nossa indústria têxtil, que já foi uma das mais avançadas, não se actualizou e por isso estancou, fechou, acabou, morreu; somos o país que permite que um profissional liberal, com duas casas e dois automóveis, declare ganhos mensais de 600 euros ano após ano, e ainda receba um subsídio estatal para ajudar a pagar a escola privada dos filhinhos.(*)
No tempo de Durão Barroso (a Europa o tenha), a desculpa foi a crise. Pensando bem, a desculpa quando se começa a falar muito destas coisas, é sempre uma crise qualquer. A nossa crise no tempo do Dr. Cherne, foi resultado da crise que se fazia sentir na Europa e, já agora, pelo mundo, o que dá uma desculpa muito maior. Nós coitadinhos, não tínhamos culpa nenhuma, só tínhamos que apertar o cinto e estava tudo resolvido. Afinal parece que não. Parece que a crise generalizada está a acabar, parece que os restantes países europeus recomeçaram a sua ascensão, e parece, que nós que apertámos o cinto, vamos continuar a afundar.
É que também somos o país onde em plena crise, os hotéis do Algarve esgotam nas épocas de férias e feriados; as viagens ao Brasil, República Dominicana e Cuba, também; somos o país onde os centros comerciais enchem ao fim de semana e as lojas do Chiado enchem também aos dias de semana; onde as empresas compram carros de 75.000 euros; somos o país, onde os deputados assinam o livro de ponto e se vão embora; somos o país onde uma empresa para ser moderna só tem que pagar o ginásio aos seus colaboradores; somos o país onde o crédito para comprar coisas está à distância de um telefonema ou mesmo dentro de uma cartinha que nos chega sem termos pedido nada; onde os comerciantes patologicamente se queixam de que isto está muito mal; em que se não chove os agricultores se queixam porque não choveu, e se chove se queixam porque choveu; onde a política não tem criatividade, não tem projectos de longo prazo, não cria terrenos férteis; em que a população se resigna e não tem sementes criativas e ambiciosas para plantar; em que cada um tenta sacar o mais possível para si, pagar o pior que puder aos empregados e o menos que puder ao Estado; e o país onde o jogo, o milagre de ficar rico repentinamente, é o espelho do desespero mas também da inércia.
Apesar disto tudo, estou muito curiosa por saber qual vai ser a desculpa oficial desta vez.
(*) informação resumida do relatório que se encontra no final deste artigo.