Arte e Design. Continuam a confundi-los? - I
Ontem, assisti a uma conferência de nome Branded Arts, cujo tema central era saber se há limites entre a Arte e o Design (englobe-se aqui a Publicidade).
Por incrível que me pareça, muitas coisas tenho a dizer sobre isto, mas por agora concentro-me na raiz: esta questão não existe.
Reconheço o óbvio: ambos são veículos de comunicação e ambos têm resultados visuais, em muito, semelhantes.
Mas porque se insiste em não ver as diferenças?
Eu, nos últimos quinze anos e como quem não quer a coisa, descobri estas:
1 - O designer tem uma mensagem pré-determinada a comunicar que não é sua. É pago por alguém que tem qualquer coisa para dizer e que não sabe como. É preciso corresponder às expectativas do pagador.
O artista comunica uma mensagem, uma opinião, uma impressão, o que for, que é exclusivamente sua, não tem nada de pré-determinado se ele assim o quiser, e não é preciso nada. Ou é preciso tudo.
2 - A mensagem pré-determinada que o designer tem que comunicar, tem um objectivo absolutamente pré-determinado: vender/divulgar um produto ou um serviço.
A mensagem do artista não tem o objectivo de comunicar nada a não ser se o autor o definir; ela é absolutamente subjectiva e tem eventualmente objectivos absolutamente subjectivos; ou pode até não ter objectivo nenhum; e até pode ter milhões de leituras diferentes, tantas quantas as mentes que com ela se confrontem.
3- O designer tem obrigatoriamente que encontrar uma forma de comunicar a mensagem pré-determinada a um público pré-determinado, e por isso, tem condicionantes pré-determinadas relativamente à forma como o vai fazer. O seu trabalho depende de quem o vai ler.
O artista não tem público pré-determinado se assim o desejar e arrisca-se a atingir todo e qualquer público do mundo. Depende de si.
4 - O designer tem obrigatoriamente que submeter a sua peça à apreciação e à aprovação daqueles que estão a pagar para comunicar a sua (deles) mensagem, 99% dos quais não quer ser confrontado com linguagens que nunca viu antes e que não sejam óbvias, imediatas, básicas, compreendidas na primeira leitura, não quer subjectividade, não quer fugir aos códigos de comunicação pré-estabelecidos, não quer correr o risco de que a sua mensagem não seja compreendida pelo seu público, não quer que a ”obra“ seja muito diferente daquilo que ele próprio já imaginou. Não quer Criatividade.
O artista merecerá o nome, tanto mais quanto mais criativo, inovador, provocador, original, diferenciador, único, for.
5 - A obra do designer só existe porque é reproduzida aos milhares, vista por milhares, compreendida por milhares, comprada por milhares.
A obra do artista só o é porque é única, rara, apreciada, possuída e compreendida por alguns.
É curioso que em mais de quinze anos que ouço este tema debatido em mesas de jantar e até, imagine-se, em conferências, nunca o vi ser levantado por artistas ou pessoas ligadas de alguma maneira ao mundo artístico.
Este parece ser um tema de e para designers ou teóricos do design.
A mim, parece-me que, a verdadeira questão está encapuçada por debaixo da que se insiste em debater: não existirá um certo complexo, uma certa ambição e frustração, um certo desejo de pertencer a uma elite verdadeira, o que é em si, contraditório com o conceito de design?
   
Absolutamente. Essa questão nem se põe. É como comparar um jingle com…..sei lá, a Llorona.
Comment by llorono — April 7, 2006 @ 7:22 pm
ou a diferença entre a “encomenda” e a “obra” …
Comment by hammer — April 8, 2006 @ 12:41 pm
Não percebo népias desses assuntos, mas cá para mim uma coisa tem pouco a ver com a outra. Nem percebo porque é que se entra em comparações. Quem compara, que se chegue à frente e justifique a sua resposta. Pode ser que se abra aqui uma discussão com estalada à mistura e tudo. Isso é que era bom.
Comment by Torpedo — April 10, 2006 @ 11:23 am