Acontece-me com frequência ler um artigo inteirinho num jornal e ficar sem resposta para as questões essenciais abordadas no texto. É que há uma mania no jornalismo português de escrever milhares de caracteres sobre um tema sem nunca o chegar a explicar, a dizer objectivamente o que é que está em causa. Isto porque quem escreve (e depois quem edita e quem manda publicar…) parte do princípio de que todos os seus leitores são gente bem informada, que lê o seu jornal todos os dias, que segue as histórias que andam pelas suas páginas há vários dias… E, por isso, poupa logo uma data de linhas em explicações e contextualizações. Obviamente que isto acontece mais nos jornais vulgarmente apelidados de "referência", o que é compreensível, porque são, geralmente, publicações elitistas, feitas por pessoas que se consideram "superiores" de alguma forma à média e que têm a certezinha absoluta de que estão a conversar com outros da mesma estirpe. A média, obviamente, não lê. Ou lê outras coisitas de menor calibre…. Aconteceu-me hoje com o Público: duas páginas dedicadas às manifestações de imigrantes nos Estados Unidos contra um pacote laboral de que discordam por, aparentemente, tornar a vida ainda mais complicada aos ilegais. Sim, aparentemente, porque a jornalista não se deu ao trabalho de explicar que leis eram essas e contra quê exactamente se manifestaram milhões de pessoas. Aliás, é preciso chegar à segunda página de texto para saber que houve manifestações de imigrantes nos Estados Unidos e que é por isso que a primeira página foi ocupada com a história de uma imigrante portuguesa ilegal nos Estados Unidos (que, por sua vez, não era excepcional, servia só para ilustrar o caso de muitos outros, mas isso também não fica claro e por se tratar só disso também não valia a pena gastar uma página inteira com uma história vulgar, mesmo que seja excepcional do ponto de vista humano e pessoal… Ufa!) Mas continuando, porque isto ainda não acabou. A seguir há mais uma história pessoal, de um imigrante da América Latina. E números e explicações, nada! Finalmente, uma entrevista com um estudioso/perito na matéria. O senhor opina sobre as leis em causa, compara-as com outras… E o leitor, coitado, ainda sem conhecer o conteúdo das leis. Pelo menos, sempre é ele que nos diz quanta gente andou na rua, o que é que isso significa no universo de imigrantes nos EUA e quantos entram ou tentam entrar no país anualmente. Tudo coisas que a jornalista devia ter dito, até muito antes. Manias destas pagam-se caro: continuam a escrever para dois ou três iluminados e depois queixam-se… Ou será que aquilo de que as elites neste país gostam mesmo, lá no íntimo, de forma quase inconsciente, é de manter o povo ignorante e perpetuar esse sentimento diferenciador de ser e pertencer a uma elite? É que tudo aquilo de que acabo de me queixar faz parte das regras mais elementares no jornalismo. Não acredito que os jornalistas, editores e directores do Público as desconheçam (embora, por acaso, às vezes tenha as minhas desconfianças…)
P.S. O que acontece com o Público acontece com outros. É, por exemplo, vulgar que se fale em José Sócrates sem nunca explicar no texto que ele é o primeiro-ministro. É mais uma violação das regras básicas do bom jornalismo. Nem toda a gente sabe quem é José Sócrates, principalmente os que muitas vezes procuram nos jornais informação que os ajude a integrar-se no país, como os estrangeiros.