Ontem, na Casa Fernando Pessoa, Eduardo Prado Coelho, Vasco Santos (editor da Fenda), Maria Antónia Oliveira (biógrafa de Alexandre O’Neill) Fernanda Câncio e Pedro Mexia falaram sobre blogues e livros, cúmplices ou rivais tentaram descortinar.
Por um lado, os blogueiros de serviço argumentaram que não há substituição de blogues por livros, quanto muito algum contágio cultural (pela minha parte já li alguns livros que blogues que gostava mencionaram). Concordo também que os blogues são espaços de identificação geracional, com a habitual troca de galhardetes e insultos , onde alguém se faz mais interessante do que na realidade é (ninguém escreve que passou uma noite a papar alguma das novelas da TVI … ).
Pelo outro lado, e posso mesmo falar de outra geração, EPC e um senhor da audiência cujo nome me escapa contrapunham com o imediatismo da escrita no blogue: rápida, à flor do acontecimento (até refém do acontecimento), pouco profunda, sem pensar além de toda uma questão de gestão dos silêncios e de não-comunicação que ficou por concretizar (que não há nos blogues afirmou categoricamente EPC, mas na escrita das suas crónicas sim?). A escrita dos blogues, menor subentendia-se, tirava espaço à escrita mais nobre e de alguma forma obscura era acontecimento paralelo (senão causa efeito) de fenómenos como miúdos da licenciatura de português copiarem trabalhos de artigos encontrados no google, logo de serem preguiçosos, não pensarem, imediatos. Como os blogues, estão a ver esse grande Satã?
Se as características da Internet são exactamente imediatização da informação, personalização, efeito rede, quantificação do meio, engraçado que essas mesmas características acabem por se reflectir no tipo de escrita que encontramos nos blogues. Tem a ver com o meio. No entanto, mesmo tendo em conta isto (o que não impede que alguns blogues escapem ao determinismo do seu meio) não se pode falar de canibalização (jornais ou livros para blogues). Não deixei de ler livros, até li outros por sugestão como já referi, nem muitos desses miúdos dos exemplos do português da nossa desgraça lêem blogues ou são impulsionados para o copianço. Porque mais uma vez é uma questão geracional. Eu já estou perto dos 30, tenho licenciatura a caminho do mestrado, não sou do meio literário mas já li alguma coisa, identifico-me com grupos de música, situações, opiniões que encontro em grande parte da blogosfera, que pertence à minha geração. E mesmo na minha geração nem todos lêem blogues, logo há que acrescer que isto é para uma pequena (mas interessante!) minoria.
Tão forte é a questão geracional que o blogue mais mencionado pela facção "não apocalíptica mas preocupada" era o do Pacheco Pereira (curiosamente o blogue favorito do meu pai), que não apresentava alguns dos pecadilhos mencionados. Até era bem sacado. Era pensado!
O debate acabou com uma expressão linda por parte de EPC: "Se há pessoa que...". Se há pessoa que lê sempre sobre os últimos gadgets nos jornais sou eu, ou qualquer coisa do género, como se o facto de saber o que é um i-pod atribui certificado de compreensão de fenómenos on-line.