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July 25, 2006

Neste caso, o que está de fora não é o mesmo que o que está de dentro.

[Arquivado em: Geral]

Depois de assistir às resposta-contra-resposta entre a Carla Bomba Inteligente e o HMBF Insónia sobre a resposta-contra-resposta entre Líbano e Israel, não resisto a pegar numa pontinha, e lançar um novo tema.
Diz a Carla que “Tenho de repensar esta história da defesa da liberdade de expressão…” a propósito de uns comentários anti-semitas que soaram num qualquer programa televisivo.
A Carla, não é a única que sente reservas relativamente à liberdade de expressão quando, note-se bem, esta a atinge. É que isto da liberdade de expressão tem muito que se lhe diga: obedece a regras que ninguém sabe muito bem quais são, uma vez que elas variam consoante aquele que exerce a liberdade de expressão e aquele que se sente ofendido. E, aquele que um dia condena o excesso de liberdade no que toca à expressão, pode ser o mesmo que no dia seguinte a defende cegamente caso o tema o não afecte ou com ele esteja de acordo. Todos somos absolutamente a favor da liberdade de expressão desde que as pessoas que se expressam pensem como nós, ou pelo menos não se excedam, dentro de determinados padrões de excesso: os nossos.

Sob este ponto de vista, e usando da minha própria liberdade de expressão (ainda por cima concordo em absoluto com o que vou dizer a seguir), gostaria apenas de refutar uma outra afirmação da Carla, desta feita sobre a guerra. Diz ela, no mesmo post que “A actos de guerra responde-se com actos de guerra. Por isso o conceito de desproporcionalidade é mera poeira hipócrita que anda por aí a circular.(…) A guerra é uma coisa horrível, em si desproporcionada, em que morrem civis.” 
Certamente, a Carla fica horrorizada porque nos atentados terrosistas morrem civis. Eu também. E acrescento que, a mim, me horroriza da mesmíssima forma a morte de todos os civis vítimas de qualquer conflito.  É uma questão de princípio.
É que a única diferença entre uma guerra oficial e uma guerra oficiosa, é a de que cada um luta com as armas que tem… porque civis, são sempre civis e não há mortes civis mais justificáveis que outras.
Opiniões.

E assim, as guerras e os sofrimentos vão acontecendo, lá bem longe, e todos nós, bem de longe, expressamos opiniões. Mas não passam disso mesmo, porque somente quando os que estão de fora souberem colocar-se no lugar dos que estão de dentro, deixarão de haver hesitações quanto ao uso da Liberdade de Expressão.

July 23, 2006

The end has no end ou lisboa soundz (s) 06 - hesitante no título

[Arquivado em: Corneta]

Este sábado Lisboa recebeu "a melhor banda de rock do mundo". Compreende-se que depois dos "filhos bastardos de Ian Curtis" e dos "enteados do Libertines" a Radar já tem poucos elogios para cada banda que actua em Portugal. Temos que expandir horizontes pessoal, a melhor banda da abóbada celeste, o trio mais poderoso do universo …

Os primeiros que ouvi actuar neste sábado no Lisboa Sounds(z) foram os she wants revenge (albúm, um original she wants revenge), bastardos de Ian Curtis, parecem bastardos do Interpol (que por sua vez já eram bastardos também do Ian Curtis, mais uma vez o universo e efeito do eterno retorno), daqui adiante passaram a ser denominados apenas por bastardos. Os bastardos até não se portaram mal, as músicas estão na fronteira do electro/rock/bastarda, pena serem tão parecidas umas com as outras. Claro que chegas  à única música que reconheces  (realmente estes singles tem a sua razão de ser, os únicos  de jeito até fazem a malta dançar) e os bastardos ficaram contentes e nós também.

Actuação seguinte: Dirty Pretty Things. Três guitarras a querer berrar mais que as outras, uns quantos yeah e muita reminiscência dos Libertines só chegam para criar uma amálgama de sons. Dos festivais que fui lembro-me de actuações como os The bravery ou dos  Hot Hot Heat  e aquilo não cola. Ao ouvir no rádio até consideras que pode ser promissor mas ao vivo são uma nódoa. Não se distinguem letras, instrumentos, apenas barulho e um single que lhes dá nome de bastardos de qualquer coisa.

Finalmente, meia noite e meia e chegamos a um outro campeonato (como disse a minha companhia). Strokes são uma boa banda, ainda que curiosamente tenham começado a sua promissora carreira também por serem acusados de estarem na onda do revivalismo de rock (como os White Stripes, mas foi um estigma bem ultrapassado) e em boa hora conquistaram o apreço de fãs e críticos. E deram um grande concerto: o baixo era um baixo, a guitarra guitarra (lindo, pleonasmos), boa bateria, boa voz e tudo muito bem treinadinho. A força do álbuns vêm de temas de três minutos, intensos, bem ritmados que ao vivo dão a impressão da precissão de um  relógio. Com isto quero dizer que os temas acabavam como se desligasse a corrente, todos os instrumentos no mesmo nano segundo. Ficava bem, digo-vos. E de excelentes singles ( Juicebox/ The End Has No End/ Red Light/ The Modern Age/ Heart in a Cage/ Electricityscape/ IsThis It/ The Ize Of The World/ Someday/ Hard To Explain/ You Only Live Once/ Last Nite/ Ask Me Anything/ Vision of Division/ Reptilia/ 12:51/ New York City Cops/ Take It Or Leave It - alinhamento retirado do sempre bem informado Forúm sons) faz-se um grande concerto. Parece simples mas não é. As duas primeiras actuações provaram bem isso,  a perfeição do single de três minutos só está mesmo ao alcance de uma das melhores bandas de rock actual (vá, entre as bandas que actuaram dia 22 de Julho em Lisboa na Doca Santos).

July 21, 2006

O seguro não morre necessariamente velho.

[Arquivado em: Geral, Sociedade]

Volta e meia, fala-se disto, com ares de problema: os portugueses poupam cada vez menos.
A mim, salta-me logo uma razão: os portugueses ganham cada vez menos, mas na verdade não é a razão da falta de poupança que me intriga, mas antes a ideia generalizada e inculcada de que poupar é indiscutivelmente uma coisa positiva.
Não é indiscutivelmente.
Primeiro, a ideia de que viveremos muitos e muitos anos e que daqui a muitos e muitos anos poderemos finalmente usufruir do sacrifício que andámos a fazer durante toda a vida, é perigosa. Devíamos saber que um milionésimo de segundo é quanto basta para que o nosso pé-de-meia se transforme em herança, e que, portanto, lá se vai o usufruto, embora o sacrifício já ninguém no-lo tire.
Segundo, quem é que meteu na cabeça das pessoas que um PPR é mais seguro do que a Segurança Social do Estado? Quem é que garantiu alguma vez que o banco que andou a jogar ao monopólio com o nosso dinheirinho e que o multiplicou para si muitas e muitas vezes, não vai, por exemplo, à falência?
Terceiro, qual é a teoria socio-politico-economica que diz que se um povo inteiro for muito poupadinho, o seu país pula e avança como uma bola colorida nas mãos de uma criança? Não estamos com isso simplesmente a encher os banqueiros?
Não seria mais positivo se o indivíduo, em vez de se deixar escravizar, escravizasse o dinheiro que ganha, usufruindo dele, e que os governos incentivassem os cidadãos a investir, gerando assim algum movimento?

Diferença de olhares

[Arquivado em: cinema]

Em Viagem em Itália (1954, Rosselini) no dia em que Katherine visita Nápoles vê por toda a parte mulheres grávidas e crianças a correrem pelas ruas. O marido, Alexander, tinha partido intempestivamente para a ilha de Capri depois de mais uma discussão conjugal. Katherine, que nunca tinha pensado em ter filhos, agora sozinha apercebe-se que isso pode não vir a acontecer.

Lembrei-me desta cena porque hoje passei o dia a ver pessoas de bengalas. Homens e mulheres:na gare do oriente, na estação dos correios, no jardim. Como se me lembrassem também do que pode vir a acontecer. Acho que preferia as mulheres grávidas. 

 

July 18, 2006

Um homem sem qualidades

[Arquivado em: Geral]

Este sábado a NS (revista que sai ao sábado com o Diário de Notícias) traçou um retrato, informal, de Paulo Teixeira Pinto, o actual presidente do BCP. A propósito da exposição do Museu de Arte Antiga cujo mecenas é o banco, "Grandes Mestres da pintura - colecção Rau" , a jornalista da NS tentou descobrir o homem comum responsável por um dos bancos que cobra das maiores taxas de serviços em empréstimos bancários na Europa (este e outros que fazem com que a banca portuguesa seja a 2ª mais cara da Europa).

Começou bem:  quadros favoritos, a revelação do escritor de gaveta que quer publicar alguma coisa para além de artigos científicos, livros ( Saramago … adoro!), mas eis que ficamos com pouca coisa. Das qualidades enunciadas a seguir vêm revelações extraordinárias como  o homem que escolhe a sua própria roupa (com predilecção por gravatas laranja berrante), que bebe café com cafeína (e não um, mas espantosos dois de manhã e dois à tarde), que bebe a sua cerveja…sustenham a respiração…com álcool. Bravo! Suponho que deve cortar o seu próprio bife e já vai sozinho à casa de banho.

 

July 17, 2006

O sentido democrático

[Arquivado em: Geral]

Israel, por ser um país democrático, pode bombardear o Líbano, que também é um país democrático. Pela mesma ordem de ideias, Israel também pode assassinar os ministros palestinianos que entender, uma vez que eles foram eleitos democraticamente e também pôde há muitos anos, invadir os territórios que lhe apeteceu.
Os restantes países democráticos do mundo, podem ficar calados, ou dizer assim sem muita convicção que repudiam as acções militares de Israel contra o Líbano, ou que, pronto está bem, Israel até pode defender-se mas está a exagerar. Parece que a ONU sussurrou qualquer coisa, mas que eu não consegui ouvir muito bem.
Os EUA, sendo o maior país democrático do mundo e no seu estilo apalhaçado do costume, podem limitar-se a dizer: a culpa é toda dos outros.
Os outros, parece que são nações inteiras de gente malvada e sem coração, que habitam lá para o Oriente, e que segundo muitos democratas por esse mundo fora, pertencem aquele grupo de seres humanos que não dão o menor valor à vida. Nós, os democratas prezamos a vida acima de qualquer coisa, e eles, os outros, não têm o mínimo respeito por ela.
Deve ser porque os libaneses (ou é o Hezbollah?) matam civis inocentes, que Israel resolveu bombardear o Líbano, matando civis inocentes.
Faz todo o sentido, não faz?

July 10, 2006

ex facto oritur jus

[Arquivado em: Geral, IC 19]

Não há mal que não acabe e, assim, com um alívio profundo, acabou o torneio de futebol que transformou o país num carnaval histérico. Toda a gente ficou feliz com o regresso dos heróis portugueses e com a sua partida para férias, de onde partirão novamente para os lugares civilizados onde jogam à bola.
Agora (quase) toda a gente continua feliz, mas por uma triste e invejosa razão: a França não ganhou a Taça. Isto porque a França teve o desplante de, jogando a passo, ser superior aos nossos “heróis” e ganhar à selecção de todos vós sempre na maior das calmas - coisa que a Itália não fez, mas apenas por falta de oportunidade. E ganhar aos nossos heróis não é coisa que se admita. Como é possível não reconhecer a humilde excelência da selecção portuguesa e… vencer-lhe um jogo?
Como se sabe, a histeria é uma neurose complexa, caracterizada pela instabilidade emocional (conversão, dissociação), com repercussões físicas (somáticas) nos seus portadores, que se manifestam em sintomas vários, como a cegueira, a surdez, a paralisia, etc. É possível, assim, perante os mesmos factos, não ver o que lá está e ser-se dominado pela romântica subjectividade emocional que tolhe o entendimento. O histérico, por ser muito sugestionável, idealiza sintomas de acordo com aquilo que representa de verdadeiro. Significa isto que a doença é simultaneamente involuntária e intencional.
Dos factos, conclui-se que a maravilhosa selecção nacional cumpriu os serviços mínimos na fase de grupos: ganhou às emergentes potências do futebol mundial (Angola e Irão) e a um colosso da América Latina (o México). Seguiu em frente, nos caminhos da glória anunciada.  
E mesmo se nenhum facto é tão puro que seja definitivo, como escreve Gonçalo M. Tavares, parece haver alguns dados mais ou menos objectivos, que um não-histérico pode comprovar. E, dos quatro jogos que “Portugal” fez depois da fase de grupos, apenas ganhou um, pela diferença mínima (à Holanda), empatou outro (Inglaterra) e perdeu os últimos dois (França e Alemanha).
Uma vitória, um empate e duas derrotas. Somos ou não somos campeões?

July 3, 2006

Prosequare

[Arquivado em: Livros]

 
No livro que estou a ler o mordomo chama-se Love e não matou ninguém. O Love serve dois remy reserve. O Love põe a mesa e abre a cama. O Love aparece subitamente a meio das frases, ocupado com tarefas domésticas. É um lugar como outro qualquer e o Love não parece tão deslocado como isso.

Também aparece neste livro  uma amante chinesa de nome He que se confunde com o real amante The King - o patrão do Love -  cujo  mote dá título ao post.

"He touched him. He touched He. He was hard. He was soft. He touched him and he touched He".

Amor, que lugar estranho.