
Depois de um Sonic Nurse que não ouvi muito nem prestei grande atenção, Ratther Ripped tem passado em repitação pelo meu carro nestes dias sem qualquer tipo de esforço. Do you believe in Rapture? Certamente.
   Arquivos   
  
Contactos
Depois de um Sonic Nurse que não ouvi muito nem prestei grande atenção, Ratther Ripped tem passado em repitação pelo meu carro nestes dias sem qualquer tipo de esforço. Do you believe in Rapture? Certamente.
«O número de pessoas com vínculos à administração pública subiu quatro por cento nos últimos sete anos, passando de 708.159, em 1999, para 737.774.»
«Em termos percentuais, contudo, foram os órgãos de soberania (ministros, secretários de Estado e seus gabinetes, Presidência da República, Assembleia da República e tribunais) que mais engordaram, registando-se uma subida de 68 por cento.»
«O que se sabe é que do total de pessoas com vínculos à administração pública, uma percentagem cada vez mais importante tem ligações contratuais mais precárias, existindo 11.806 avençados e tarefeiros (6637, em 1999). Os números divulgados na BDAP revelam também 65.828 pessoas com contratos individuais de trabalho (eram 12.744 em 1999).»
«737.774 568.384 38.740 130.650»
Visto no on-line (obrigado ò alma caridosa que me deixa ler a edição electrónica) sucedem-se números e percentagens. Além da dor de cabeça evidente de repente, um número gigantesco - 737.774 568.384 38.740 130.650 - como se falassem da sucessão das casas decimais do Pi (que também é um número irracional). Eram quatro parcelas.
Facto é que o número de trabalhadores com vínculos à AP continua a aumentar (já não podemos falar em funcionários, porque as entradas são feitas via contrato individual de trabalho), o Governo quer diminuir 75 mil (como?) e ainda com promessas: "não estou a pensar proceder à diminuição da remuneração de ninguém nem estou a pensar proceder à estagnação da remuneração de ninguém" (diz o secretário de Estado da Administração Pública, citando de novo edição de hoje do Público).
Não se pode falar dessas coisas. Não se pode falar de razão quando se fala da fé nem se pode falar de dúvida quando se fala de ciência. De um lado e de outros, erguem-se os guardiões das verdades supremas que não gostam de perguntas. Do lado de lá, os notários do Alcorão fixam jurisprudência para sedimentar a evolução controlada dos modos certos de pensar e de viver, num frenesim positivista que envergonharia os burocratas do século XIX. Dos lados de cá, as testemunhas de oxalá (como lhes chama o lúcido Tiago Cavaco), esquecidos dos antigos dogmas científicos agora fora de moda, tentam evangelizar o universo com a absoluta certeza de hoje às 22:35 h. que o acaso original é tão-só um milagre da improbabilidade matemática.
Ora, sendo a fé que comungo feita de dúvidas, de ausências e de silêncios, não me posso dar ao luxo fundamentalista de prescindir da razão como meio de olhar o mundo e tentar compreendê-lo. Como escreveu Unamuno, «uma fé sem dúvidas é uma fé morta». E também não me restam muitas hipóteses. Podia contentar-me com o emotivismo dos sofridos adeptos das seitas universais ou com o conforto psicológico da burguesia ociosa da new-age, mas não vai com o meu feitio. Não me esqueço que sou descendente de Tomé e tento seguir Cristo («meu Deus, porque me abandonaste? – Mc. 15,34)». Mas não se pode falar disso, que ofende.
Do mesmo modo, uma ciência que se arroga à exclusividade do saber e do conhecimento sofre da irritante auto-estima adolescente, que acha que sabe tudo e não precisa de mais nada. Esquece o seu passado de erros, erros e erros, de incertezas, dúvidas e contradições, e da panóplia de certezas de ontem que, afinal, já não o são. O discurso científico tem isto de comum com a política e o futebol: o que é verdade hoje ou visto deste lado é mentira amanhã ou se visto do outro lado por ele próprio. Mas não se pode falar disso, que melindra as sucessivas e sempre perfeitas e definitivas "teorias da ciência".
Não se pode falar disso. Não se pode falar das verdades mesmo verdadeiras que, afinal, não são. São verdades relativas, afinal. Afinal o sol não está no centro do universo, afinal a terra não está parada, afinal o sol também não está parado, afinal o tamanho do cérebro não prova a superioridade da raça ou a índole criminosa do seu portador, afinal a lobotomia não é grande coisa, afinal os medicamentos fazem mal, afinal o átomo não é indivisível e até se pode cindir e assim matar pessoas aos magotes, afinal o universo expande-se, afinal a cerveja, o vinho e o café fazem bem, afinal não morreram 142.000.000 de pessoas no ano passado de gripe das aves (foram menos de 50), afinal Plutão é um planeta, afinal Plutão já não é um planeta, afinal não tenho glaucoma.Não se pode pensar nem ter dúvidas. Falar de razão na fé a um fanático religioso é o mesmo que falar da dúvida a um homem de ciência. Reagem ambos aos pulos. O que não se conhece é uma ameaça, seja sob a forma de blasfémia, seja sob a forma de… treta.


Facto constatado ainda neste Verão no Estoril Jazz, músico de corneta não larga o seu colete (preferencialmente étnico, branco e negro, com um padrão a lembrar os bonequinhos de Keith Harring).
Como me iria custar cerca de 125 Euros ver isto ao vivo … Keith Jarrett no CCB algures em Novembro. Em seu tempo, disse que nunca mais voltava a tocar em Portugal devido a uns ataques de tosse da plateia do Coliseu - isto no tempo em que se podia fumar em concertos - tudo esquecido graças a uma ligeira inflação de preços que faz dos mais arredados pianistas de jazz reconsiderar o seu asco à pátria lusa. Enfim, 125 Euros deve dar para comprar boa parte da discografia do afamado artista, mesmo tendo em conta os preços da ECM. Nota adicional: parece que ouvir repetidamente as gravações do concerto de Colónia fez com que a escritora Margarida Rebelo Pinto acelerasse o seu aparo para a literatura. Aconselha-se o caro leitor a afastar-se da folha em branco, não lhe vá dar um ataque semelhante. Para a nossa Guida Pinto, se for preciso envio uma cópia do dito, que o teu aparo tem estado muito parado.
Tenho que acabar este como. Como assisto ao debate (educado) sobre mortes e guerras (entre teorias de conspiração e aspectos sombrios), neste dia que anoiteceu às oito, que acordou cinzento, que anuncia o Outuno, dias de praia já vestidos, deixo um autumn leaves sempre perfeito. O mais que perfeito na versão de Julian "Cannonball" Adderley com Miles Davis em Somethin’ Else de 1958.
Que gozo isto do You Tube!
Tive um pesadelo. Que iam privatizar a Segurança Social, diziam. Acordei, belisquei-me, percebi que não, que era um sonho mau, terrível, inconcebível, que era uma invenção.
Afinal, caramba, que raio de mente podia inventar uma coisa dessas?
O capitalismo é um mundo mágico e onírico, cheio de poesia e de uma permanente e excitante diversão.
O capitalismo invade um país porque ele, digamos…, tem (e não podia ter) armas de destruição em massa – provas mostradas a toda a gente que as conseguiu ver (na ONU, por exemplo, viram-se uns camiões a rodar no deserto: está mais que provado) – e ameaça outro pela mesma razão (à falta de outras). Mas, com a mesma lógica dos astrólogos modernos que descobriram em Plutão um planeta extremamente influente no que toca às transformações mais profundas do ser e das sociedades, que é mesmo regente de um signo (escorpião), e de algumas partes sensíveis no corpo humano (o aparelho reprodutor, os órgãos sexuais, o ânus, e também os anticorpos e o sistema de defesa do organismo) e sempre ignoraram a “influência” de Xena (maior que Plutão) ou as luas de Saturno e Júpiter (muuuuuuuiito mais perto), também o capitalismo deixa em paz um outro país que já mostrou ter armamento nuclear. É que o respeitinho é muito bonito e não há petróleo na Coreia nem por lá passará nenhum oleoduto.
Claro que eu falo assim porque o capitalismo permite-me ler jornais, estar informado, comprar calças de ganga, ir ao cinema e comer sushi, coisa que os outros sistemas políticos não permitem. Não há mesmo relatos de, por exemplo, no sistema feudal, alguém ter sido feliz.
Outra razão que me permite arrevesar palavras contra a mão que me alimenta é que, conforme me confirmaram recentemente, eu sou regido pelo planeta HD 149026b, que está a 250 mil anos luz do sistema solar, e, portanto, posso manifestar dúvidas sobre as prosápias americana e inglesa (versão 2006) sobre os talibans (ex- mujahidin), o Iraque libertado e o Irão ameaçador.
Mas, do capitalismo, da versão santana lopes menino-guerreiro do capitalismo, guardo com saudade a histeria da gripe das aves do ano passado, em que nos foi impingido o pânico de um virus e de uma pandemia que «poderia matar 142,2 milhões de pessoas». Só em Portugal batiam a bota (ou mais adequadamente, esticavam o pernil) 13 mil compatriotas. Todos estes estudos eram apresentados como “independentes”, mas sem grandes referências concretas ao seu método e conclusões obtidas. A comunicação social mundial, como sempre, exerceu muito bem o seu papel de tradução, revisão de textos, tipografia e distribuição.
Bem, podia morrer muita gente mas, de gripe das aves não morreram mais de cinquenta pessoas em todo o mundo (como todos os anos, aliás). Felizmente, o capitalismo satisfaz instantaneamente as necessidades que ele próprio cria. A Roche comprou a patente de um medicamento salvador à Gilead (empresa do sr. Rumsfeld) e o Tamiflu foi apresentado como o milagre que todos precisavam. Os governos dos países pateto-capitalistas apressaram-se a encomendar milhões de comprimidos, para evitar que morrêssemos todos de gripe avícola. Mais tarde, depois de alguém se lembrar de perguntar se o Tamiflu era mesmo eficaz, a própria Roche veio dizer que, apesar de não ser totalmente eficaz era, o que apresentava melhores resultados…
Entretanto, alguns cientistas ingratos com a capitalismo que lhes paga o ordenado, regidos por planetas insignificantes, e certamente a soldo de interesses obscuros (nunca deixei de pensar que o Perú estava envolvido), decidem fazer os testes nos seus laboratórios, onde descobrem que o Tamiflu, não só não era eficaz contra o virus que devia combater, como tinha efeitos secundários aborrecidos.
A Roche, enriquecida (mas sem urânio) já nem faz qualquer referência ao Tamiflu e à gripe das aves no seu site. O Iraque não tem nem nunca teve armas de destruição em massa. O Santana Lopes já não é primeiro-ministro. E Plutão não é bem um planeta.