ultra modum, sine causa
O capitalismo é um mundo mágico e onírico, cheio de poesia e de uma permanente e excitante diversão.
O capitalismo invade um país porque ele, digamos…, tem (e não podia ter) armas de destruição em massa – provas mostradas a toda a gente que as conseguiu ver (na ONU, por exemplo, viram-se uns camiões a rodar no deserto: está mais que provado) – e ameaça outro pela mesma razão (à falta de outras). Mas, com a mesma lógica dos astrólogos modernos que descobriram em Plutão um planeta extremamente influente no que toca às transformações mais profundas do ser e das sociedades, que é mesmo regente de um signo (escorpião), e de algumas partes sensíveis no corpo humano (o aparelho reprodutor, os órgãos sexuais, o ânus, e também os anticorpos e o sistema de defesa do organismo) e sempre ignoraram a “influência” de Xena (maior que Plutão) ou as luas de Saturno e Júpiter (muuuuuuuiito mais perto), também o capitalismo deixa em paz um outro país que já mostrou ter armamento nuclear. É que o respeitinho é muito bonito e não há petróleo na Coreia nem por lá passará nenhum oleoduto.
Claro que eu falo assim porque o capitalismo permite-me ler jornais, estar informado, comprar calças de ganga, ir ao cinema e comer sushi, coisa que os outros sistemas políticos não permitem. Não há mesmo relatos de, por exemplo, no sistema feudal, alguém ter sido feliz.
Outra razão que me permite arrevesar palavras contra a mão que me alimenta é que, conforme me confirmaram recentemente, eu sou regido pelo planeta HD 149026b, que está a 250 mil anos luz do sistema solar, e, portanto, posso manifestar dúvidas sobre as prosápias americana e inglesa (versão 2006) sobre os talibans (ex- mujahidin), o Iraque libertado e o Irão ameaçador.
Mas, do capitalismo, da versão santana lopes menino-guerreiro do capitalismo, guardo com saudade a histeria da gripe das aves do ano passado, em que nos foi impingido o pânico de um virus e de uma pandemia que «poderia matar 142,2 milhões de pessoas». Só em Portugal batiam a bota (ou mais adequadamente, esticavam o pernil) 13 mil compatriotas. Todos estes estudos eram apresentados como “independentes”, mas sem grandes referências concretas ao seu método e conclusões obtidas. A comunicação social mundial, como sempre, exerceu muito bem o seu papel de tradução, revisão de textos, tipografia e distribuição.
Bem, podia morrer muita gente mas, de gripe das aves não morreram mais de cinquenta pessoas em todo o mundo (como todos os anos, aliás). Felizmente, o capitalismo satisfaz instantaneamente as necessidades que ele próprio cria. A Roche comprou a patente de um medicamento salvador à Gilead (empresa do sr. Rumsfeld) e o Tamiflu foi apresentado como o milagre que todos precisavam. Os governos dos países pateto-capitalistas apressaram-se a encomendar milhões de comprimidos, para evitar que morrêssemos todos de gripe avícola. Mais tarde, depois de alguém se lembrar de perguntar se o Tamiflu era mesmo eficaz, a própria Roche veio dizer que, apesar de não ser totalmente eficaz era, o que apresentava melhores resultados…
Entretanto, alguns cientistas ingratos com a capitalismo que lhes paga o ordenado, regidos por planetas insignificantes, e certamente a soldo de interesses obscuros (nunca deixei de pensar que o Perú estava envolvido), decidem fazer os testes nos seus laboratórios, onde descobrem que o Tamiflu, não só não era eficaz contra o virus que devia combater, como tinha efeitos secundários aborrecidos.
A Roche, enriquecida (mas sem urânio) já nem faz qualquer referência ao Tamiflu e à gripe das aves no seu site. O Iraque não tem nem nunca teve armas de destruição em massa. O Santana Lopes já não é primeiro-ministro. E Plutão não é bem um planeta.
   
Brilhante! Vou dobrar o texto e metê-lo num sobrescrito para mandar ao governo: por causa dos planos de emergência contra a ‘pandemia’ catastrófica que decretou ser obrigatório as empresas terem…
Cumpts.
Comment by Bic Laranja — September 7, 2006 @ 10:27 pm
Lindo!Sem dúvida,um retrato fiel da nossa sociedade decrépita e amoral. Desesperante é constatar esta realidade e ter que viver nela, sem ter como travar esta engrenagem.
Comment by lhw — February 3, 2007 @ 10:30 pm