Outra vez a gripe das aves. Esse terrível flagelo ameaçador que, a existir, poderia infectar quatro milhões de portugueses. É o que diz um estudo do Observatório Nacional de Saúde que «procurou avaliar o efeito de uma epidemia em que o vírus afecte 40 pessoas em cada cem com as quais contacta». 40 em 100 dá 4 milhões em 10 milhões, certo? Quarenta por cento. Podiam ter-me perguntado. Um cientista do Observatório «estimou que numa primeira fase, mais branda, cerca de um milhão de portugueses pode vir a ser infectado pelo vírus, um valor que aumentaria para três milhões numa segunda onda pandémica». E até calcula o número de consultas que o Serviço Nacional de Saúde (actualmente alvo de uma fatwa do Governo) prestará (se ainda existir nessa altura): «será solicitado em 1,9 milhões de consultas na primeira ronda e que na segunda fase a procura vai subir para mais de três milhões». Também se estimou o grau de absentismo laboral que a pandemia poderia provocar, «tendo sido apresentado o exemplo de uma empresa com cerca de 400 trabalhadores, dos quais 81 por cento são mulheres». Aí, «é possível prever uma taxa de absentismo de 38 a 40 por cento». 40 por cento. Estão a ver? Isso num cenário hipotético em que o vírus afectasse 40 pessoas em cada cem. Quarenta por cento, portanto.
October 31, 2006
October 30, 2006
ultra modum, sine causa II
alterum non laedere
Afinal, os autores do blogue viver a sua vida, apesar de inteligentes, não são dotados de bom-senso. A prova é que me convidaram para escrever no blogue deles.
Estou exausto destas discussões em que facilmente se resvala para a palermice incontinente, para o arremesso de slogans definitivos, e principalmente onde, muitas vezes - dada a natureza do tema -, ambos os lados do dissenso partem de diferentes pressupostos e, portanto, falam de coisas diversas sem nunca se encontrarem. Como Gossage e Vardebadian, os mestres de xadrez do conto de Woody Allen. E estas coisas magoam, inevitável e inutilmente. No entanto, penso que desta vez devo participar no ruído. Estou numa posição minoritária dentro da minha minoria de catálogo: identifico-me como pessoa de Esquerda (tento ser: nunca votei à direita do PCP), sou (ainda, vejam lá o anacronismo) pela estatização dos meios de produção essenciais, sou a favor da limitação dos bens hereditáveis (coisa ainda mais absurda, não é?) e guardo outras ideias inúteis. Mas (mas? porquê o mas aqui?) oponho-me a que o Estado se abstenha de penalizar o que entendo ser um crime - o pôr fim a uma vida alheia. [Este já é campo de contenda. Há quem diga que esta vida não é humana até um indeterminado tempo de gestação. Ou que o feto só deve ser protegido depois da garantia da sua viabilidade fora do útero da mãe. E outras coisas. Embora a tecnologia e as descobertas científicas permitam ver que estas objecções são cada vez mais frágeis, nem dependo desta caução. A minha razão é outra]
Assim, aceitei o convite. Vou, com a minha maneira rude e tosca, dizer coisas desimportantes nesta pesada discussão sobre o aborto, o referendo, a vida, o universo e tudo o mais, para o outro blogue. Em nome da minha convicção que, também aqui, devo estar do campo que reconheço ser o da minha Esquerda: o lado dos mais fracos, dos desprotegidos, dos sem voz, dos que ainda não nasceram. Desculpem, mas é assim que vejo as coisas. Comecei com a repostagem de um texto publicado aqui na Baixa Autoridade e depois haverá música: Sex Pistols. Não percam.
Neste blogue continuo a debitar as minhas restantes opiniões banais, insignificantes e inconsequentes. Percam. 3-2, por exemplo.
October 29, 2006
Presente do passado

Sibylle Baier gravou este álbum no início dos anos 70 na Alemanha ainda que os ouvintes na altura tenham sido apenas amigos e família. Ficou enterrado até ao dia em que filho resolveu emprestar umas demos ao vocalista dos Dinosaur Jr. que hoje vem partilhá-lo com todos. É um trabalho acústico, folk semelhante ao que ouvimos numa Cat Power ou Nico e que não está datado. Celebração triste e pousada do quotidiano, parece-me bastante bom (mas já sabe, neste tema como em tantos outros sou uma Baixa Autoridade).
October 28, 2006
E por falar em desonestidade…
…e em jornal Sol, há um texto na mesma revista sobre o novo livro da jornalista Felícia Cabrita, por acaso repórter do semanário. A primeira parte do artigo, que está só assinado pela própria Felícia (embora a assinatura não seja bem evidente, porque aparece ao lado de uma fotografia da senhora, mas uma comparação com o grafismo das outras reportagens leva a concluir que sim, é ela mesma que faz tudo: escreve o artigo sobre o seu próprio livro e ainda há uma imagem dela a ilustrar tudo…) elogia o livro (grande surpresa!!!), numa escrita na terceira pessoa, algo no género: Felicia Cabrita, depois de um fantástico trabalho de investigação, desvenda um novo Salazar! E, de repente, sem pré-aviso nem sequer umas míseras aspas, começam a reproduzir-se bocados do livro. É a isto que eu chamo (sem grande criatividade, confesso, mas depois de ver uma coisa destas, só me ocorre mesmo isto) jornalismo de merda. Já agora, aproveito para dizer que o Sol está cheio dele.
Não suporto…
… as reportagens da revista do jornal Sol sob a temática "Famílias Numerosas" que, ao contrário do que imaginei inicialmente, é uma rubrica fixa da publicação. Ainda se tivesse sido uma reportagem sobre famílas numerosas de diversos níveis e origens socias… Mas agora todas as semans vermos um belo textinho a contar as inúmeras riquezas e alegrias de se ter 10 filhos, viver numa boa vivenda e colocar os meninos em escolas de música… O que eu gostava, já agora, era que me contassem também a história de uma família com uns quatro filhos, da verdadeira classe média (já nem peço baixa) a viver num subúrbio de Lisboa que não seja o centro de Cascais e cujos filhos frequentam a escola pública do bairro. Aí sim, gostava de saber que actividades extra-curriculares têm estes meninos e como é que os pais fazem para os levar ao cinema. Não suporto propagandas desonestas e ocultas.
October 27, 2006
Pausa

Isto é muito bom, um cartoon sobre galinhas (selvagens!). Obrigado ao Tiago pela dica.
http://www.savagechickens.com/blog/index.html
October 26, 2006
viver a sua vida
Já agora, outro blogue do não. Mas cuidado que este é um blogue inteligente (também os há): viver a sua vida. Contra a liberalização do aborto, citam Leonard Cohen (destroy another fetus now / we don’t like children anyhow / I’ve seen the future, baby: / it is murder), Pasolini e Sophia de Mello Breyner Andresen (As pessoas sensíveis não são capazes / De matar galinhas, / Porém são capazes / De comer galinhas). Mas também escrevem coisas do seu punho. As melhores, aliás.
Viver a sua vida, então. Porque, como não dizem os avisos do tabaco, abortar mata.
Pela Vida
A partir do blogue do não, cheguei ao blogue Pela Vida e encontrei este texto: http://antiaborto.blogspot.com/2006/10/outra-razo-para-dizer-no-ao-aborto.html, com o inacreditável título: "Outra Razão Para dizer não ao aborto - defender o não é defender o Sangue de Portugal". Como respeito os defensores do não, aconselho-os a não se meterem com esta gente e a dar-lhes voz… O texto foi escrito por um homem (aliás, neste blogue, entre os inúmeros autores só identifiquei uma mulher!) que diz, a determinada altura, entre variadíssimas barbaridades que não quero transcrever, o seguinte: "uma mulher portuguesa tem menos do que dois filhos", justificando a raíz do problema com esta frase. Ah! Então, afinal, o problema é feminino?! Por que é que este senhor não usa estatísticas que se refiram a toda a população? Ou os homens não têm responsabilidade nisso?
   
