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October 3, 2006

vexata quaestio

[Arquivado em: Geral, IC 19]

Ninguém me perguntou nada, mas isto é um blogue. E um blogue, caramba!, serve para postarmos opiniões banais sobre coisas insignificantes ou então é ao contrário, que é outra forma de dizer o mesmo.
Portanto, ninguém me perguntou nada (nem a mim nem aos gajos blogueiros que andam para aí a postar sobre tal & tal e eles fazem-no), mas eu sinto-me na obrigação de preencher este vazio etéreo com o meu tagarelar. Devo dizer que esta vontade de dizer coisas, que se vai concretizando à medida que dedilho este teclado da Compaq e olho o resultado no monitor da mesma marca, é-me auto-imposta. Sou eu próprio quem acha que deve escrever o que penso de uma coisa que, ou decorre a milhas e milhas de distância, ou cuja existência eu só me apercebi ontem, ou acerca de um tema específico alheio às minhas prosaicas preocupações, mas, sempre, sobre a qual não tenho a mínima influência. Ninguém me perguntou nada. Nem eu próprio, na verdade. Eu também acho que a minha opinião (é certo que fundamentada com o coração e com a razão e iluminada pela fé) de nada vale, mas sinto que tenho uma obscura e inexplicável missão de a exprimir e de a abandonar neste oceano gigantesco de opiniões irrelevantes e sem consequências. Como um conselho atirado a peixes poluídos.
Às vezes ainda dou por mim a ponderar um qualquer arremedo de raciocínio, a procurar uma lógica e uma coerência que se pressinta no poste, que seja apreensível para um certo nível de leitura de um certo nível de leitor que por acaso aqui passe. Mas não vale a pena. Se assim fizer desvirtuo (ou melhor, virtuo) o poste e a ideia de blogosfera – que se caracteriza, grosso modo, pela abundante fecundidade de opiniões irrelevantes, de opiniões inspiradas nas conversas de café ou inspiradas nos bocejos atirados nos transportes públicos, de opiniões recicladas e requentadas, mas sob forma escrita. Eu tenho muitas e profundas reflexões inovadoras sobre acontecimentos importantíssimos e actuais, mas não os vomito neste blogue, não só por respeito aos meus colegas blogueiros deste espaço, mas também porque não é este o local apropriado para o fazer. Por exemplo, eu sei, eu acho que sei (tenho quase a certeza que sei) a razão pela qual o Papa resolveu acicatar os radicais muçulmanos. Sim, não foi um lapso… Da mesma maneira que sei (mas aqui sei mesmo) por que razão o Papa decidiu irritar os intelectuais do ocidente. Mas não posso explicar aqui, porque isso implicaria a exposição de um pensamento, de um raciocínio, de uma cogitação, incompatíveis com a vacuidade cibernética.  
Tenho, então, de me limitar a escrever banalidades à medida que me saem dos dedos e do cerebelo e depois, antes de publicar o poste, substituir as palavras difíceis por outras mais fáceis. Mas isto não é lhano. Não só porque me inibo de escrever os meus profundos pensamentos sobre temas sobre os quais me dignei pensar mais de dez segundos seguidos, mas também porque tenho de me disciplinar de modo a alvitrar opiniões sobre a restante generalidade de temas, sobre os quais nunca tinha pensado. Ora, este grande passatempo nacional (o de emitir instantaneamente opiniões sobre qualquer assunto) é o suporte da blogolândia.
Então aqui vai: eu, se fosse brasileiro, votava no Lula.