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October 19, 2006

Só mais uma coisinha…

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Ainda sobre o aborto, só mais uma perguntinha a quem defende o "não" à despenalização até às 10 semanas, a pedido da mulher: então continuamos a criminalizar o aborto e proibimos os senhores da polícia e do ministério público de perseguir quem o fizer, para não enxovalharmos ninguém, e pronto? As enfermeiras/parteiras vão continuar a enriquecer à custa das 20000 a 40000 mulheres que todos os anos fazem um aborto clandestino? é que já sabemos, pela experiência das últimas décadas, que não é por ser proibido que o aborto não se faz e não é por haver muito contraceptivos no mercado que ele diminui. Faz-se é na clandestinidade. Isto não é um problema? Então e a solução para este problema qual é?

Lamento, mas…

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Lamento, mas a resposta ao referendo anterior sobre o aborto não foi "não". Efectivamente, toda a gente se estava a lixar para a questão e só 30% foram votar. Os números são os números. E agora só resta que pelo menos 50% vão votar e, se assim o desejarem, que a maioria vote "não". Aí toda a gente se cala e pronto. Mas têm de ir votar… Agora o que não vale é fazer debates desleais (como, inveitavelmente, irá acontecer, já estou preparada…). Um exemplo: ilustrar o post abaixo com um feto em final de gestação. Aquela imagem não é, OBJECTIVAMENTE, de um feto de 10 semanas, nem de 12…

non bis in idem

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(Eu também estou farto, mas tem de ser) 
As marionetas de carne que compõem o Parlamento vão hoje votar a realização de um novo referendo à despenalização do aborto de nascituros até dois meses e meio. Já em 1998 se fez um referendo nacional com a mesma pergunta, mas parece que os senhores representantes da nação não gostaram da resposta obtida: não!
Ou então não perceberam a resposta. É uma questão matemática e, como se sabe, estas coisas não são muito objectivas. O não teve mais votos que o sim. Mas não valeu. Muita gente teve mais que fazer nesse dia e não foi votar. Não porque não se interessasse, não tivesse opinião formada ou hesitasse, ou porque não queria mesmo votar. Não (desculpem usar esta palavra). Era tudo gente muito ocupada e, claro!, a favor da despenalização. Não houve um único abstencionista que, no fundo, no fundo, no íntimo da sua consciência esclarecida e progressista, não fosse favorável à despenalização e que, se tivesse ido votar, não deixasse de votar sim.
A minha mãe (desculpem também falar em mãe, quando se fala de gravidez e aborto) também usava essa técnica, quando eu era criança. Perguntava-me "queres sopa?" e eu respondia "humm… não". Ela assumia o "humm…" como hesitação e decidia "não queres? Queres, queres! Quando provares, vais ver que queres". E nas raras vezes que eu queria não havia segunda pergunta. Vinha logo a sopinha.
feto com 10 semanas: imagem 4D (ultrasom)  
Também não percebo (mas eu tenho fraca compreensão, sou um obscurantista medieval, machista e sádico, hipócrita, retrógrado e inculto) por que razão os defensores da despenalização se comprazem em "atirar para a prisão" as mulheres que, por circunstâncias de vida que não nos cabe a nós nem ao Estado julgar, se livram dos filhos (parece que se chama filho à coisa que a mulher grávida carrega no útero) com 11 ou 12 semanas de gestação. Querem mesmo que essas mulheres "continuem a ir para a prisão" ou que arrisquem a sua vida em abortos de "vão de escada"?  
Hã? Não percebo! Respondam lá outra vez.

Outra vez o aborto

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Hoje o aborto volta à Assembleia, com os argumentos do costume. Por se repetir continuamente, sem resultados, temo que o debate se banalize e acabe por cansar os eleitores, de cujos votos depende o referendo que o PS inventou há anos e de que agora é refém. Mas talvez seja melhor assim. Se se conseguir levar as pessoas a votar. No estado em que estão as coisas, estou transformada numa fundamentalista (não sei bem se este é o melhor termo, mas enfim…): acho que só as mulheres deviam ir votar. Não porque pense que isto não é nada com eles, mas simplesmente porque, para grande desilusão e raiva minha, a maioria dos homens que conheço de facto não sente que isto seja com eles. É a dura realidade, por muito que me custe…

Hoje, no Público, Zita Seabra ocupa uma página inteira a tentar defender o indefensável: manter a lei que existe, mas pedindo um travão para a malta do Ministério Público que vergonhosamente persegue as mulheres que, desesperadas, recorrem ao aborto. Porque uma mulher nunca aborta de ânimo leve, é sempre uma dor, fica eternamente a pesar-llhe uma culpa. E isto já é castigo suficiente, não é preciso os senhores investigadores andarem atrás delas para as acusarem e enxovalharem na praça pública. A lei, no entanto, deve manter-se, porque o aborto não é nenhum método contraceptivo e, nos tempos em que estamos, onde toda a gente pode ter acesso ao planeamento familiar, a liberalização do aborto até às 10 semanas não se justifica. Tudo isto segundo Zita Seabra, que recorda uma visita à União Soviética em que as mulheres, por o aborto "ser livre" e não haver contraceptivos no mercado, eram obrigadas a constantes interrupções da gravidez e acabram por sair à rua pedindo o fim desta situação.  

Parece óbvio que há algumas contradições, fruto inevitável de uma ânsia de querer agradar a gregos e troianos. Se agora há uma panóplia de métodos contraceptivos no mercado, então, o aborto nunca será usado como mais um, a não ser num número de casos pouco significativos, principalmente se é sempre doloroso e perturbador e se nenhuma mulher (ou muito poucas) o fazem de ânimo leve. Não sei se ando distraída, mas acho que a lei proposta não inclui nenhuma frase que diga que as mulheres vão ser obrigadas a fazer abortos… Isto não é (disso tenho a certeza) a União Soviética. E se a lei o criminaliza, e assim querem que continue a ser, porquê pedir, depois, que ela não se aplique? Pois, é que incomoda sermos lembrados e confrontados com a ideia de que as mulheres, além de se terem visto obrigadas a recorrer ao aborto, ainda têm de sentir na pele que fizeram uma coisa ilegal e na absoluta clandestinidade.

A realidade dos últimos vinte e tal anos diz-nos que a lei que temos não funciona e, por isso, é preciso mudá-la. E a realidade do mundo inteiro diz-nos que, apesar de proibido, o aborto existe e os números não diminuem. Assim como todos os problemas de saúde associados ao aborto clandestino. E, já agora, penso ser urgentíssimo acabar com uma ideia feita e totalmente falsa que anda por aí e que diz que Espanha tem uma lei igual à nossa e a questão está resolvida. Pois, a lei é igual, mas na prática o aborto é livre até às 10 semanas (ou 12, não me lembro bem). É que os espanhóis, ao abrigo da cláusula dos riscos psicológicos para a mãe, fazem os abortos sem grandes complicações, a pedido da mulher que garante que levar a gravidez avante a vai transtornar. E pronto! Para mim, isto é uma hipocrisia e prefiro, por isso mesmo, a proposta do PS português, que assume que quem assim o desejar, pode interromper uma gravidez até às 10 semanas. E já que estou "com a mão na massa", acho os argumentos de Zita Seabra também uma grande hipocrisia. Entendo e respeito muito mais os defensores assumidos do "direito à vida", normalmente por motivos religiosos. Só fico sempre intrigada com os que, neste grupo, defendem também a lei existente com unhas e dentes: então e os bebés frutos de uma violação não têm direito à vida porquê?! E os portadores de deficiência?!

Pode não parecer mas estou farta deste debate…