Hoje o aborto volta à Assembleia, com os argumentos do costume. Por se repetir continuamente, sem resultados, temo que o debate se banalize e acabe por cansar os eleitores, de cujos votos depende o referendo que o PS inventou há anos e de que agora é refém. Mas talvez seja melhor assim. Se se conseguir levar as pessoas a votar. No estado em que estão as coisas, estou transformada numa fundamentalista (não sei bem se este é o melhor termo, mas enfim…): acho que só as mulheres deviam ir votar. Não porque pense que isto não é nada com eles, mas simplesmente porque, para grande desilusão e raiva minha, a maioria dos homens que conheço de facto não sente que isto seja com eles. É a dura realidade, por muito que me custe…
Hoje, no Público, Zita Seabra ocupa uma página inteira a tentar defender o indefensável: manter a lei que existe, mas pedindo um travão para a malta do Ministério Público que vergonhosamente persegue as mulheres que, desesperadas, recorrem ao aborto. Porque uma mulher nunca aborta de ânimo leve, é sempre uma dor, fica eternamente a pesar-llhe uma culpa. E isto já é castigo suficiente, não é preciso os senhores investigadores andarem atrás delas para as acusarem e enxovalharem na praça pública. A lei, no entanto, deve manter-se, porque o aborto não é nenhum método contraceptivo e, nos tempos em que estamos, onde toda a gente pode ter acesso ao planeamento familiar, a liberalização do aborto até às 10 semanas não se justifica. Tudo isto segundo Zita Seabra, que recorda uma visita à União Soviética em que as mulheres, por o aborto "ser livre" e não haver contraceptivos no mercado, eram obrigadas a constantes interrupções da gravidez e acabram por sair à rua pedindo o fim desta situação.
Parece óbvio que há algumas contradições, fruto inevitável de uma ânsia de querer agradar a gregos e troianos. Se agora há uma panóplia de métodos contraceptivos no mercado, então, o aborto nunca será usado como mais um, a não ser num número de casos pouco significativos, principalmente se é sempre doloroso e perturbador e se nenhuma mulher (ou muito poucas) o fazem de ânimo leve. Não sei se ando distraída, mas acho que a lei proposta não inclui nenhuma frase que diga que as mulheres vão ser obrigadas a fazer abortos… Isto não é (disso tenho a certeza) a União Soviética. E se a lei o criminaliza, e assim querem que continue a ser, porquê pedir, depois, que ela não se aplique? Pois, é que incomoda sermos lembrados e confrontados com a ideia de que as mulheres, além de se terem visto obrigadas a recorrer ao aborto, ainda têm de sentir na pele que fizeram uma coisa ilegal e na absoluta clandestinidade.
A realidade dos últimos vinte e tal anos diz-nos que a lei que temos não funciona e, por isso, é preciso mudá-la. E a realidade do mundo inteiro diz-nos que, apesar de proibido, o aborto existe e os números não diminuem. Assim como todos os problemas de saúde associados ao aborto clandestino. E, já agora, penso ser urgentíssimo acabar com uma ideia feita e totalmente falsa que anda por aí e que diz que Espanha tem uma lei igual à nossa e a questão está resolvida. Pois, a lei é igual, mas na prática o aborto é livre até às 10 semanas (ou 12, não me lembro bem). É que os espanhóis, ao abrigo da cláusula dos riscos psicológicos para a mãe, fazem os abortos sem grandes complicações, a pedido da mulher que garante que levar a gravidez avante a vai transtornar. E pronto! Para mim, isto é uma hipocrisia e prefiro, por isso mesmo, a proposta do PS português, que assume que quem assim o desejar, pode interromper uma gravidez até às 10 semanas. E já que estou "com a mão na massa", acho os argumentos de Zita Seabra também uma grande hipocrisia. Entendo e respeito muito mais os defensores assumidos do "direito à vida", normalmente por motivos religiosos. Só fico sempre intrigada com os que, neste grupo, defendem também a lei existente com unhas e dentes: então e os bebés frutos de uma violação não têm direito à vida porquê?! E os portadores de deficiência?!
Pode não parecer mas estou farta deste debate…