viver a sua vida
Já agora, outro blogue do não. Mas cuidado que este é um blogue inteligente (também os há): viver a sua vida. Contra a liberalização do aborto, citam Leonard Cohen (destroy another fetus now / we don’t like children anyhow / I’ve seen the future, baby: / it is murder), Pasolini e Sophia de Mello Breyner Andresen (As pessoas sensíveis não são capazes / De matar galinhas, / Porém são capazes / De comer galinhas). Mas também escrevem coisas do seu punho. As melhores, aliás.
Viver a sua vida, então. Porque, como não dizem os avisos do tabaco, abortar mata.
   
Embora não mate, a ignorãncia é muito atrevida. Leva-nos a ter opiniões em vez de nos fazer calar, como deveria.
Já começou o jogo sujo dos evangelizadores?
Vivam a vossa vida, se acaso a tiverem. Não encham a boca com coisas que vos ultrapassarão sempre, nem que vivam mil anos.
Silêncio. Pede-se mais silêncio.
Comment by nónio — October 27, 2006 @ 11:30 am
Eu não tenho vida e sou muito ignorante. Obrigado por mo lembrar, caro nónio. Mas não me chame evangelizador. Insultos é que não.
Comment by CC — October 27, 2006 @ 3:20 pm
Insultos é que não?
O que lhe parece ser uma citação de P.P.Pasolini neste contexto? Pior do que a comparação com os maços de tabaco?
De que é que você julga que está a falar? O que lhe permite pensar que pode falar sobre este assunto?
Comment by nónio — October 27, 2006 @ 3:44 pm
Caro Nónio, assim como defender o Sim nesta questão não faz de si um assassino o facto de alguém defender o Não não o torna um evangelista. E tenho que concordar com a Margarida, opiniões extremadas e com algo de nonsense parecem ser sintomáticas nos homens (já agora, acha que a mim esta questão também me ultrapassa?)
Comment by SB — October 28, 2006 @ 1:24 am
Como conclui, SB, que defendo o sim? Se para si a “questão”, como lhe chama, é uma raspadinha maniqueísta, se só vê preto e branco, então, SB, deveria remeter-se também ao silêncio.
Se por infortúnio ou destino já viveu na carne e no espírito essa experiência humana radical, então dê-nos o seu testemunho, se o silêncio não for para si a melhor maneira de o testemunhar.
Se a não viveu, comece por explicar o que lhe confere autoridade para se pronunciar sobre ela.
Comment by BS — October 28, 2006 @ 11:21 am
Quanto ao Sr. Nónio, embora não goste de falar com gente de nome postiço: nada nos ultrapassa eternamente. Aproveite as ocasiões para esclarecer e reflectir e não critique a evangelização evangelizando.
Comment by BS — October 28, 2006 @ 11:30 am
SB,a pergunta era “como conclui que defendo o sim ou o não”.
Aliás, peço desculpa pelo registo demasiado emotivo.
Comment by BS — October 28, 2006 @ 12:11 pm
Realmente comentário emotivo Bruno. Eu não estou a fazer campanha, nem estou a fazer apologia. Apenas acho que a bem dessa sede manequeísta (ou melhor, para evitar) nem um lado deve ser conotado com evangelizadores, beatos, puritanos, fundamentalistas nem outro com a de levianos, assassinos de bebés, esquerda, de volta ao espírito eugenista da II Guerra Mundial e quejandos. Era no sentido exacto de evitar esse tipo de classificações e de comentários idiotas como cala-se!, ignorante, atrevido … O voto sobre a despenalização do aborto é para mim um voto de consciência e desculpem se me recuso a estar no saco dos evangelista, puritanos, de direita, beatos e se não está ao alcance da compreensão de alguém que uma pessoa laica, de esquerda, mulher possa votar Não quanto à despenalização do aborto. Pois, se calhar não tenho autoridade até dizer as coisas certas.
Comment by SB — October 28, 2006 @ 3:50 pm
Ó meu caro Bruno, então é preciso experiência pessoal (”humana e radical”) para se poder pensar em qualquer assunto? É preciso ter abortado para falar de aborto? É preciso corromper ou ter-se sido corrompido para falar de corrupção? É preciso ser-se pobre para falar de pobreza? É preciso ter visto o seu país invadido para se falar da guerra do Iraque?
Peço desculpa, então, por falar de coisas sem ter a devida “autoridade”, mas se for esse o critério, caro Bruno, deixo já de escrever aqui. Mas peço-lhe que faça o mesmo.
Comment by CC — October 29, 2006 @ 3:38 pm
Além disso (como se isso importasse alguma coisa), Bruno, nada sabes da minha vida e da minha experiência pessoal em relação ao aborto (nem em relação à corrupção, à pobreza ou à guerra, para repetir os maus exemplos). Nem é aqui que vais saber.
Comment by CC — October 29, 2006 @ 3:47 pm
Caro CC, parece-me evidente que tens a tua razão. Infelizmente os meus recursos não me permitem certifica-me de que ela é razoável. Ainda mais difícil se torna a tarefa perante um tão inexpugnável “temenos” onde juntas aquilo a que chamas “aborto”, corrupção, pobreza e guerra. Convirás que é um quadrado psicológico que, esse sim, fala pelos cotovelos das premissas mentais em que se baseia o juízo.
Que devemos pensar? Nada mas certo.
Que é nosso destino falar? Nada mais incerto. Ainda assim anuamos, pois que destino outro concedeu aos homens o seu criador? E, caso exista esse destino, que maçada não é uma vida em sua busca?
Mas aceitemos as tais premissas, a que alguns chamam preconceitos, olhemos para o teu Temenos e usemo-lo para pensar. Começa por mostrar-me uma lei que proíba a guerra. Pelo caminho indica-me, a mim que sou cego, uma que interdite a pobreza. Outra ainda, se não for pedir muito da tua amabilidade, que suprima a corrupção. Se ainda te sobrar paciência para aturar esta minha obsessão, diz-me em que dia e com que meios o Estado te consultou para saber se devia ou não fazer guerra ao Iraque? Em que dia te consultou o Estado para saber se devia ou não descriminalizar a pobreza, sabendo, como é certo que sabes, que ela é um crime que os que têm tudo cometem impunemente contra os que não têm nada? Pois que miserável democracia teríamos nós se fosse o próprio Soberano a fazer ruir as quatro paredes mentais que ergueste, a título de exemplo, sabemos, ainda assim suficientemente esclarecedoras sobre o estado de alma que as produziu?
Eu que nunca vivi a guerra, tenho momentos raros de lucidez que me aproximam mentalmente da ideia do que ela possa ser. O que sobra desse impressionismo mental, dessa deficiente representação que faço recostado no meu sofá de subúrbio, é o mais fundo sofrimento humano. Não o que eu sinto, obviamente. Mas o que por representação, e só isso, elaboro na consciência. Mas porque é na consciência que a elaboro, sei que permaneço infinitamente longe da verdade crua da morte, do desespero, do abandono, da perda que sofre efectivamente cada um dos seres humanos que a guerra visita. E porque fico longe e impotente, amarrado ao sofá de subúrbio, desesperado por um referendo em que possa gritar que não quero que o meu país mate ou ajude a matar, falo. Esbracejo e digo coisas sem nexo onde oblitero a memória ancestral que transporto muda , memória que diz, ela própria, do sangue que foi vertido para que viesse a haver um país chamado Portugal. Ou para que viesse a haver qualquer país que fosse. Para que eu próprio, no limite, pudesse sentar-me no sofá de couro velho, gozando a paz e o contentamento que a minha consciência me permite, confessando, no entanto, que são cada vez mais migalhas o que sobra da sua misericórdia.
Pois que se erga esse teu Temenos, CC. Pois que se referende o fim da Pobreza. Referende-se o fim da Guerra. Referende-se o fim do Sofrimento e da Injustiça e da Solidão e da Morte. E já agora o da Ignorância. E já agora o da Desigualdade que me confere a mim o sofá burguês e ao meu Irmão a valeta e a fome. Sim, esse Irmão que tanto me angustia quando sinto o seu cheiro, mas a quem nada mais ofereço do que essa angústia, sabendo de antemão que é ela que garante a minha absolvição.
Que o Povo então, essa tão esclarecida, justa e nobre maioria, venerável juiz a quem o próprio criador parece responder, indique com o seu polegar o sentido da roda da sorte. A dos outros, obviamente.
Um abraço,
Bruno
Comment by BS — October 29, 2006 @ 9:25 pm
Querido Bruno,
como poucas pessoas que eu conheço (e a ti não me foi dado ainda esse privilégio), tu sabes ler - em todas as acepções da palavra. Por isso, não vou fingir que não o sabes fazer. Mas peço-te que não faças o mesmo.
Comment by CC — October 29, 2006 @ 9:47 pm
Olá CC
Desculpa, mas tenho que dizer isto: não é preciso ter experiência pessoal para se opinar sobre as coisas, mas SE a nossa opinião vai condicionar a vida de outrém, epá… se não tivermos experiência pessoal, é natural que dê a dúvida. Pelo menos a mim, dá-me.
Comment by MJL — October 30, 2006 @ 7:59 pm
É verdade, MJL. Mas o problema começa logo em saber de que outrém estamos a falar. E esse outrém é plural, não se reduz a nenhum tipo único.
[além do mais, eu não sei que experiência pessoal têm as pessoas que escrevem e comentam no blogue, opinam nos media ou mesmo decidem votar (nem me interessa) - mas o mesmo se passa em relação a mim e a outros. Não sabemos. Nem temos de saber. Isto não é um confessionário. Mas, então, merecemos todos algum benefício da… dúvida]
Comment by CC — October 30, 2006 @ 9:05 pm
Bem CC, estás em contagem decrescente. Cada vez mais dogmático, arrogante e pretencioso.
Comment by anonimo — January 24, 2007 @ 10:56 am