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October 30, 2006

ultra modum, sine causa II

[Arquivado em: Geral, IC 19]

Outra vez a gripe das aves. Esse terrível flagelo ameaçador que, a existir, poderia infectar quatro milhões de portugueses. É o que diz um estudo do Observatório Nacional de Saúde que «procurou avaliar o efeito de uma epidemia em que o vírus afecte 40 pessoas em cada cem com as quais contacta». 40 em 100 dá 4 milhões em 10 milhões, certo? Quarenta por cento. Podiam ter-me perguntado. Um cientista do Observatório «estimou que numa primeira fase, mais branda, cerca de um milhão de portugueses pode vir a ser infectado pelo vírus, um valor que aumentaria para três milhões numa segunda onda pandémica». E até calcula o número de consultas que o Serviço Nacional de Saúde (actualmente alvo de uma fatwa do Governo) prestará (se ainda existir nessa altura): «será solicitado em 1,9 milhões de consultas na primeira ronda e que na segunda fase a procura vai subir para mais de três milhões». Também se estimou o grau de absentismo laboral que a pandemia poderia provocar, «tendo sido apresentado o exemplo de uma empresa com cerca de 400 trabalhadores, dos quais 81 por cento são mulheres». Aí, «é possível prever uma taxa de absentismo de 38 a 40 por cento». 40 por cento. Estão a ver? Isso num cenário hipotético em que o vírus afectasse 40 pessoas em cada cem. Quarenta por cento, portanto.

alterum non laedere

[Arquivado em: Geral]

Afinal, os autores do blogue viver a sua vida, apesar de inteligentes, não são dotados de bom-senso. A prova é que me convidaram para escrever no blogue deles.
Estou exausto destas discussões em que facilmente se resvala para a palermice incontinente, para o arremesso de slogans definitivos, e principalmente onde, muitas vezes - dada a natureza do tema -, ambos os lados do dissenso partem de diferentes pressupostos e, portanto, falam de coisas diversas sem nunca se encontrarem. Como Gossage e Vardebadian, os mestres de xadrez do conto de Woody Allen. E estas coisas magoam, inevitável e inutilmente. No entanto, penso que desta vez devo participar no ruído. Estou numa posição minoritária dentro da minha minoria de catálogo: identifico-me como pessoa de Esquerda (tento ser: nunca votei à direita do PCP), sou (ainda, vejam lá o anacronismo) pela estatização dos meios de produção essenciais, sou a favor da limitação dos bens hereditáveis (coisa ainda mais absurda, não é?) e guardo outras ideias inúteis. Mas (mas? porquê o mas aqui?) oponho-me a que o Estado se abstenha de penalizar o que entendo ser um crime - o pôr fim a uma vida alheia. [Este já é campo de contenda. Há quem diga que esta vida não é humana até um indeterminado tempo de gestação. Ou que o feto só deve ser protegido depois da garantia da sua viabilidade fora do útero da mãe. E outras coisas. Embora a tecnologia e as descobertas científicas permitam ver que estas objecções são cada vez mais frágeis, nem dependo desta caução. A minha razão é outra]
Assim, aceitei o convite. Vou, com a minha maneira rude e tosca, dizer coisas desimportantes nesta pesada discussão sobre o aborto, o referendo, a vida, o universo e tudo o mais, para o outro blogue. Em nome da minha convicção que, também aqui, devo estar do campo que reconheço ser o da minha Esquerda: o lado dos mais fracos, dos desprotegidos, dos sem voz, dos que ainda não nasceram. Desculpem, mas é assim que vejo as coisas. Comecei com a repostagem de um texto publicado aqui na Baixa Autoridade e depois haverá música: Sex Pistols. Não percam.

Neste blogue continuo a debitar as minhas restantes opiniões banais, insignificantes e inconsequentes. Percam. 3-2, por exemplo.