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November 30, 2006

Manhãs de Inverno

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Uma manhã de quinta-feira, véspera de feriado, em pleno Inverno, tem sempre um leve aroma  surrealista. Deve ser por isso que o Diário de Notícias tem um hoje esta linda manchete: "Comemos mais sal do que os espanhóis"?????!!!!!!! Estou indecisa entre chorar de tristeza ou gritar de raiva. 

November 29, 2006

advento

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Claro, é sempre uma questão de circunstâncias ou de perspectiva, consoante o sujeito esteja mais virado para os limites da existência ou para a estética do mundo que o oprime. Mas não deixa de ser curioso que, do outro lado do Atlântico (mas mais a sul, para os que já estavam a pensar na cabeça do consórcio do Bem), venham boas notícias, sinais de esperança, momentos proféticos. Não me refiro ao facto de, a seguir à Venezuela, à Bolívia, à Nicarágua, seja agora o Equador a bater o pé à grande Babilónia. Nem ao facto da Esquerda da América Latina não confundir (ou fazer uma boa confusão) entre o combate às injustiças e a liberalização do aborto.
chavecitoNão. Faço apenas referência à boa-nova de que o presidente Hugo Chávez foi portador. «Decidido a não ver nem um só ícone de tradição anglo-americana neste Natal, Chávez decretou que em nenhum edifício público do país devem ser usadas decorações contendo imagens ou bonecos do Pai Natal, pinheiros enfeitados e até botas ou meias vermelhas, noticiava na terça-feira o diário venezuelano Últimas Noticias.
Chávez pretende que todas as tradições do imaginário natalício dos Estados Unidos sejam substituídas pelas da Venezuela, a saber: os presépios com Menino Jesus nas palhinhas deitado, ornamentos feitos com a planta tropical conhecida como flor-de-Natal ou estrela-de-Natal, seja na variante vermelha ou branca, muitas "gaitas", as canções da época festiva que fazem parte do folclore local, e hallacas, um prato típico do país similar aos mexicanos tamales que é habitualmente partilhado por amigos e familiares ao longo de todo o mês de Dezembro
» (Público, 9/Nov./2006, última página).
Ora, depois de anos e anos de aparente consolidação da OPA hostil que o odioso velho que a Coca-Cola vestiu de vermelho e que passa todo o ano no Pólo Norte (de onde sai apenas uma vez por ano para dar bons presentes aos meninos ricos e presentes de merda aos meninos pobres), sobre o Menino Jesus, é uma boa notícia a contra-reforma do presidente Chávez.
Só por causa disso, vou pôr o meu chavecito a discursar: «Eu cheguei aqui para fazer tudo o humanamente possível para ser útil ao povo venezuelano em seu sonho, em sua esperança e em seu empenho de ser livre e igual».

November 28, 2006

We are a part of the loud minority (and we listen to jazz) *

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* segundo United Future Organization 

 

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Numa entrevista recente que Cesariny deu à revista Tabu (do semanário Sol) havia uma profusão de reticências. É que a política editorial da revista proibe a escrita dos palavrões - que substituem por reticências -  e como o entrevistado gostava de utilizar o seu vernáculo, era um desafio decifrar todos os pontos.  Por vezes eram puta, mas outras eram mesmo reticências.

Para além da piada do momento, vale a pena recuperar um excerto dessa entrevista.

"Nos fizemos uma revolução. Mas acho que implodimos, não explodimos. E andámos  sempre clandestinos por aí. Clandestinos no sentido lato: fazer uma coisa num sítio e desaparecer; depois aparecer noutro e desaparecer … Até que houve as célebres sessões na Casa do Alentejo, em que fomos dizer ao povo o que era o surrealismo. E o que era o surrealismo? Éramos nós [risos]. Lemos textos, poemas, e uma declaração chamada Afixação Proibida. A assistência gostou muito (…)"

November 27, 2006

Natal sem compras

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Diziam hoje nas notícias que são os petizes que mandam mais. Pelo que vejo pelos meus colegas de trabalho  o processo de escolha das prendas de Natal para os filhos passa por pegar no folheto do Continente, ou de qualquer outra grande superfície comercial, entregá-la ao petiz  presenteado que assinala com cruzinha potenciais brinquedos que irá receber. Literalmente uma escolha  por catálogo. É que assim vai receber o que gosta, dizem-me. É que pode não gostar. E a surpresa pergunto. Não, é que podem não gostar e depois ficam com um brinquedo que não querem (algo horrível como ficar com a Barbie Fashion Fever c/ Mobiliário em vez da Boneca Birthday Bash  Bratz). Traumatizante compreendo.

Na realidade, a criança de 60 anos que tenho na minha vida veio-me com uma conversa parecida. "Tu e tua irmã podiam dar-me uma mala que vi. Eu podia comprá-la e depois vocês davam-me o dinheiro". Tentei dar-lhe a volta: contextualizar a época, os reis magos e o Menino Jesus , a quadra familiar, surpreender aqueles que gostamos com uma lembrança bonita, um presente inesperado. "Vocês nunca me dão aquilo que eu quero".  Suspirei fundo e entreguei o catálogo.

November 22, 2006

Mas eles têm neve e abetos de Natal e nós não

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Não deixa de me impressionar que se tenha conseguido convencer os patrões a pagar uma coisa chamada subsídio de Natal, que é tão somente dinheiro extra para irmos estoirar nas compras, encher os centros comerciais e dar mais uma vez a oportunidade aos nossos comerciantes de se virem queixar para a televisão que-isto-este-ano-está-muito-mal.
Por outro lado, soube há uns dias, que há alguns países, como a Alemanha, em que os patrões não foram na cantoria natalícia, embora tenham embarcado noutras que duram o ano inteiro: por exemplo, 1 ano de licença de parto e dar a opção a um dos pais de ficar em casa com os filhos até aos cinco anos, recebendo um subsídio e assegurando o posto de trabalho.
Boas compras, pode ser que nos cruzemos no Chiado. 

November 20, 2006

A idade do siso

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Passei boa parte do fim de semana (e assim continuo) com uma dor de dentes que não é bem uma dor, é mais um permanente mal-estar por causa de um dente que quer sair à força num sítio onde tem pouco espaço porque os restantes resistem ao seu aparecimento. Resumindo: está a nascer-me (ou a tentar nascer) um dente do siso (como se diz na minha terra), ou do juízo (como se diz noutras terras). Apesar dos meus 32 anos mais do que completos, custa-me pensar que chegou esta hora.

November 17, 2006

Possibilities

[Arquivado em: Corneta]


Herbie Hancock com vinte e poucos anos já era um prodígio. Tinha tocado com Miles Davis Quintet, composto o "Watermelon Man" (um grande sucesso na década de 60) e  criado o seu próprio quarteto com Wayne Shorter, Ron Carter e Tony Williams. A genialidade apareceu (muito) cedo na vida deste homem. Quarenta e tal anos mais tarde compreendo que será pedir muito continuar a tocar como no Maiden Voyage e isto, como em muitas coisas na vida, não é para ser como a gente quer. Quarenta anos depois Herbie abriu-se a Possibilities (título do álbum que saiu o ano passado), fusão da pop de Sting ou Christina Aguilera com o jazz que há muito se tornou electrónico ou funk.

O que Possibilities como estas fazem é que os temas de sempre como "Canteloupe Island" ou "Maiden Voyage" sejam, na expressão do meu amigo Tiago, "avacalhados". A nossa teoria é que alguém vendeu um orgão todo quitado ao senhor, orgão esse que faz uns coros e efeitos arrepiantes (avacalhados percebem?) durante as nossas reminiscências de jazz dos anos 60. Grave grave é quando as Possibilities resvalam para o "I’ve just called to say I love You" (sim, do Stevie Wonder) que foi tocada e cantada no concerto desta noite. É que daqui ao Freddie Hubbard que se ouve no You Tube  vai uma grande distância, mas são as possibilidades que temos que respeitar num músico. E apesar destas possibilidades que tão pouco me atraem gostei imenso do efeito fusão do tema do guitarrista do Benim (um Ali Farka Touré versão funk) "7 Teens" com o "Watermelon Man" e o concerto teve os seus bons momentos, exactamente como eu gostaria que fossem (basicamente quando deixava o orgão quitado e ia para o piano). Os momentos Sting - ou salada de frutas musical - dispensava.

November 16, 2006

Junho de 2004

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No dia 26 de Junho de 2004, o correspondente do El País em Bruxelas escrevia o seguinte, a propósito da então já quase confirmada ida de Durão Barroso para a Comissão Europeia:
 
 
“En contra de Barroso, cuya candidatura
para presidir la Comisión
la lanzó él mismo en la cumbre
con escaso éxito inicial, contó el
hecho de que el primer ministro
portugués figuró como anfitrión
en la foto de las Azores con los tres
líderes que apoyaron la guerra de
Irak (George W. Bush, Tony Blair
y José María Aznar).”
 
O texto completo, com o pdf da página do jornal, está aqui: http://www.elpais.es/archivo/pdf/20040626elpepi_2.pdf
(é o texto que está na parte de baixo da página)
 
 
Na altura surpreendeu-me muitíssimo que ninguém, em Portugal, desse atenção a este parágrafo (o destacado a negrito é meu). Parece que só agora, dois anos depois, e a propósito do lançamento do livro do Santana Lopes, é que o país toma consciência do que realmente aconteceu: Barroso queria ir-se embora, fez tudo por tudo para abandonar Portugal, não foi “obrigado” pelos pares europeus a assumir o cargo que tem agora. Para usar a terminologia política (e que ele mesmo não se cansou de usar contra Guterres): é um cobarde que abandonou o barco. Só que nunca assumiu. Nas primeiras páginas do seu livro (as que eu li), Santana Lopes diz, repete e insiste nisto: Durão estava farto, pensava em ir embora há muito tempo, ele e muitas pessoas à sua volta trabalhavam nisso muito antes das eleições europeias de 13 de Junho. O livro de Santana Lopes tem poucos mais méritos do que este de mostrar que tipo de pessoa é Durão Barroso, mas pelo menos sempre nos faz esse favor, que eu, pessoalmente, muito agradeço.

November 15, 2006

Espanha

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Estive a ler o artigo do Enrique Pinto-Coelho sobre a relação Portugal/Espanha, publicado na revista Atlântico deste mês (http://revista-atlantico.blogspot.com/). Gostei muito, mas de um luso-espanhol, que conhece bem os dois países, só podia sair uma boa relativização das coisas. Concordo com quase tudo, principalmente na defesa da normalmente mal-amada Madrid quando comparada com Barcelona. Quem viveu nas duas cidades e conhece bem a capital espanhola sabe que é uma cidade fantástica, com uma energia incrível e mais cosmopolita do que Barcelona. Que é lindíssima, claro, e nisso costumamos concordar todos, mas que sofre um bocadinho do problema de Lisboa: não quer saber de Madrid; na verdade, odeia Madrid e tem raiva de quem não partilhe este sentimento (e está às vezes tão obcecada com isto, que se esquece de pensar noutras coisas e noutras paragens: deve ser por isso que têm um especial carinho por Portugal…). No texto da Atlântico só não concordo totalmente com isto: “O português escrito está ao alcance da maioria dos espanhóis, mas a compreensão da língua oral continua a ser (para a grande maioria) um ordálio. Por outras palavras: não percebem patavina. A fonética lusa é deveras complicada, mais ainda quando comparada com a do linear castelhano. Um exemplo: as vogais espanholas são sempre abertas (cinco vogais, cinco únicos sons).” Ou seja, porque eles têm tão poucos sons, não percebem patavina de português: é verdade. Mas isto aplica-se a outros idiomas: os espanhóis não entendem patavina de francês, inglês e por aí fora. Falar, muito menos! O que eu quero dizer com isto (e é isto que normalmente os portugueses não entendem) é que os espanhóis não falam nem entendem português porque não falam nem entendem nenhum idioma estrangeiro. Não é nada contra nós, ou desdém específico por Portugal.

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