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November 17, 2006

Possibilities

[Arquivado em: Corneta]


Herbie Hancock com vinte e poucos anos já era um prodígio. Tinha tocado com Miles Davis Quintet, composto o "Watermelon Man" (um grande sucesso na década de 60) e  criado o seu próprio quarteto com Wayne Shorter, Ron Carter e Tony Williams. A genialidade apareceu (muito) cedo na vida deste homem. Quarenta e tal anos mais tarde compreendo que será pedir muito continuar a tocar como no Maiden Voyage e isto, como em muitas coisas na vida, não é para ser como a gente quer. Quarenta anos depois Herbie abriu-se a Possibilities (título do álbum que saiu o ano passado), fusão da pop de Sting ou Christina Aguilera com o jazz que há muito se tornou electrónico ou funk.

O que Possibilities como estas fazem é que os temas de sempre como "Canteloupe Island" ou "Maiden Voyage" sejam, na expressão do meu amigo Tiago, "avacalhados". A nossa teoria é que alguém vendeu um orgão todo quitado ao senhor, orgão esse que faz uns coros e efeitos arrepiantes (avacalhados percebem?) durante as nossas reminiscências de jazz dos anos 60. Grave grave é quando as Possibilities resvalam para o "I’ve just called to say I love You" (sim, do Stevie Wonder) que foi tocada e cantada no concerto desta noite. É que daqui ao Freddie Hubbard que se ouve no You Tube  vai uma grande distância, mas são as possibilidades que temos que respeitar num músico. E apesar destas possibilidades que tão pouco me atraem gostei imenso do efeito fusão do tema do guitarrista do Benim (um Ali Farka Touré versão funk) "7 Teens" com o "Watermelon Man" e o concerto teve os seus bons momentos, exactamente como eu gostaria que fossem (basicamente quando deixava o orgão quitado e ia para o piano). Os momentos Sting - ou salada de frutas musical - dispensava.

3 Comments »

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  1. Pois é, Já o vi ao vivo duas vezes e fui testemunha dessas duas facetas. Na homenagem ao Miles Davis, no Tivoli, precisamente com o Ron Carter, Tony Williams e Wayne Shorter, foi qualquer coisa de sublime, entre os três ou quatro melhores concertos que já vi ( onde se inclui o incomparável Cab Calloway, já com 80 anos, ainda a sapatear e gesticular como um louco, no Coliseu ). Na outra vez, vi-o no Coliseu onde mostrou essa faceta “avacalhada”. Apareceu com uma dessas sanfonas-melódicas-electrónicas com teclas que se usam à tiracolo como uma guitarra. Essas coisas que me fazem sempre lembrar bandas pop holandesas ou dinamarquesas, não sei bem porquê. E contorcia-se todo, como um rockeiro vulgar.
    Foi uma desilusão. Não fosse o respeito e já o ter ouvido no seu melhor, diria mal desse concerto. Mas não consigo. Há sempre momentos de deslumbramento, nem que seja numa pequena parte de um tema.
    Resta saber se ele faz isso por dinheiro ou, como outros, por achar que o Jazz já não evolui e não leva a lado nenhum. Pensando bem, estão no seu direito de querer alguma coisa mais.
    Como o Miles, que às tantas já dizia que o piano era um instrumento do passado.. Mesmo assim, os concertos do Miles na sua fase final, com sintetizadores e outras electroniquices eram mais interessantes. A trompete, o sopro e o timbre ainda eram os mesmos e absolutamente inconfundíveis. Ao meno pude guardar isso para sempre.
    Enfim, quem gosta de Jazz sente-se sempre um pouco defraudado com estas incursões em terrenos alheios.
    Estive quase, mas não fui ver o Herbie Hancock por achar que à segunda talvez já não encontrasse a tolerância que tive na primeira. Se calhar acertei.

    Comment by Vasco — November 17, 2006 @ 11:56 am

  2. Não foi um concerto de jazz clássico. Quem gosta de jazz fusão deve ter gostado muito. Quem gosta de Ali Farka, idem. Mas eu acho que ele é um óptimo pianista, excelente e tem um óptimo baterista, portanto o que fiz foi concentrar-me no som do piano e da bateria. Foi como se tivesse assistido apenas a meio concerto. O maiden voyage com o som do orgão pelo meio foi kitsh para não falar das cantiguinhas. Tive esperança, quando o orgão pifou e foi retirado da sala, que ele interpretasse isto como um sinal de Deus e tocasse exclusivamente piano.´Tá visto: só gosto do HH dos primeiros tempos.

    Comment by Sara Gouveia — November 17, 2006 @ 12:26 pm

  3. Olá Sara :) Também gosto da good stuff (desculpa, old stuff!). Esse concerto no Tivoli deve ter sido memorável Vasco. O que mais me espantou foi ver tantes amantes do Mr.Hyde do HH no coliseu, mas ok.

    Comment by SB — November 17, 2006 @ 5:01 pm

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