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January 30, 2007

arte não

[Arquivado em: O bem e o mal]

abortion, by Amelee

January 28, 2007

Eu mereço!

[Arquivado em: Geral]

O Baixa Autoridade é o meu primeiro blogue. Ou melhor, é o primeiro blogue onde escrevi. Quando recebi o convite, vi-o como uma honra, nem eu sei bem porquê… Depois, e apesar disso, sei que nunca contribuí com grande coisa para a construção deste espaço. E para piorar as coisas, e definitivamente ser uma mal agradecida, ultimamente tenho andado a escrever as minhas opiniões e pensamentos (sobre o aborto e outras coisas) neste blogue: www.arotadaseda.blogspot.com Não sei se vou voltar a escrever aqui, mas se vos parecer bem, podem já bloquear-me o acesso. Eu mereço!

January 26, 2007

o cientista de popa

[Arquivado em: Geral, Sociedade]

Diz o dr. Mário Sousa, um «cientista de proa na procriação medicamente assistida», que «a vida da mulher é um todo, com corpo e alma, que tem primazia sobre o feto. Este, diz, «é "um anexo sem autonomia" até aos cinco meses, altura em que o cérebro começa a funcionar». Depreende-se que, a partir dos cinco meses - e, vá lá, mais três dias e meio -, com o cérebro já a funcionar um bocadinho, o feto ganha autonomia e deixa de ser um "anexo", passando a ser uma dependência ou mesmo uma nova assoalhada, com estatuto biológico semelhante ao fígado.
Reconhece o homem que «agora é facto científico que a nova vida inicia-se na fecundação». Mas falta-lhe, a esse corpo vivo, a esse pedaço de carne que não sabe ler nem jogar sudoku, a "alma". E a alma, segundo o escolástico "cientista de proa", ganha-se aos cinco meses.

January 24, 2007

o início da nova Pré-História

[Arquivado em: Geral]
Eis que volta a burguesia à carga com uma das suas «causas» emblemáticas: o aborto.
Dirão talvez alguns que a causa do aborto discricionário não é uma causa burguesa, de maneira nenhuma, mas de uma outra natureza e feitio, uma natureza «fracturante» e «anti-sistema». Pois, discordo. Nada de mais perfeitamente «sistema» que o aborto à discrição. Esta «causa» é um estandarte, um pendão no qual toda a nossa boa sociedade se pode rever. Uma sociedade que se não fica por infligir dano irremediável e mácula de esterco ao mundo, a tudo o que a rodeia e dela se aproxima, mas que, com naturalidade, se volta contra si mesma. É portanto um retrato fiel do «sistema».
Objectarão alguns que a causa do aborto livre é uma causa de bons sentimentos, bons costumes, de compadecimento pelo sofrimento geral. Uma coisa de que até Florence Nightingale, a campeã das enfermeiras, se podia ter lembrado. Outros, que é uma questão de saneamento, de higiene pública, como uma boa canalização.
Há quem tenha grande empenho em salientar a essencial dicotomia aborto clandestino/aborto legal e desembaraçado, para inscrever o primeiro num quadro de Hieronymus Bosch – como se tudo se não inscrevesse num quadro de Hieronymus Bosch – e o segundo no nirvana da funcionalidade. Uma espécie de contraste entre o açougue e a tranquilidade de uma linha de fabrico de produtos têxteis.
Transversal a esta argumentação coincidente, surge contudo, com frequência, primeiro nas filas dianteiras, depois percorrendo, com um bruá, todo o colectivo burguês, a reivindicação de que a questão da legalização do aborto é uma «questão de consciência». Pretenderão com isto significar, na sua linguagem industrializada, de palavras drenadas do seu sentido, que toda a oposição se deve remeter a um estreito e acanhado silêncio.

Porém, nenhures «questão de consciência» implica forçoso mutismo. Da natureza das «questões de consciência» participa, aliás, uma irredutível vocação política, mesmo que seja para se concluir pela circunscrição de âmbito dos aspectos que não se projectam sobre o outro. O homem é «face a face» com os outros homens, pensando em palavras de Levinas. O homem é testemunha da humanidade e dos outros homens e o dever de testemunhar também é um dever de consciência, inclusivamente para quem prefere «tudo caladinho» diante o clangor do comício. Até a observância do código da estrada pode ser uma «questão de consciência», e isso não lhe diminui nem dimensão social nem operacionalidade.

Ora, as questões que o princípio da legalização do aborto ad libitum levanta são cruciais. São questões susceptíveis de definir toda uma sociedade. Dizer que uma sociedade permite e fomenta o aborto incondicionado é dizer quase tudo. Na verdade, tudo o resto se encolhe e fica como que encarquilhado. É, portanto, um assunto que pede toda a atenção, toda a atenção de que se for capaz.
E o que está verdadeiramente em causa com o aborto incondicionado? O que está em causa, parece-me, é a trivialização do ser humano. É essa a grande conquista do espírito burguês. Tudo é trivial para esta santa gente. Nada é sagrado.
Vem-me à memória a fala de uma personagem de um filme de Pier Paolo Pasolini. O filme é Medeia e a fala é a do Centauro, quando diz a Jasão, seu pupilo: «Tudo é santo, tudo é santo, tudo é santo. Não há nada de natural na natureza, meu rapaz; nunca percas isto de vista. Quando a natureza te parecer natural, será o fim de tudo – e o começo de outra coisa
Sim, outra coisa.
O que esta coisa legal que nos prometem demonstra é a rigorosa coincidência dos materialismos mercantis e capitalistas, à direita, com os materialismos históricos, à esquerda, a sua comum proveniência. É tudo materialismo burguês. É tudo puramente terrestre e rasteiramente material. E o homem, descartável, passível de processamento. Herberto Helder diz conhecer bem a velha lei segundo a qual vulgarmente para os burgueses um rebanho não é senão um amontoado de carne que produz um bom rendimento. Do Konzentrations-Lager para o Gulag vai a distância de uma nomenclatura. Hoje, o cuidado com o humano prova que quem ganhou a 2ª Grande Guerra não foram nem as Potências do Eixo nem os Aliados, mas Joseph Goebbels, como lembrou Jean-Marie Straub.

O que quer esta boa gente com uma lei do aborto livre? Nada senão facilitar o seu acesso aos bens de consumo e, já agora, de permeio, acautelar o prestígio junto da vizinhança, ganhar status e incrementar as possibilidades de carreira. São estes verdadeiramente os «valores» pelos quais se sacrifica uma vida humana. Porque nada consegue desmentir que ali, no que se mata, está a possibilidade de uma vida humana inteira. E a vida humana deve ser sagrada. Sagrada. E santo, entre a santidade da natureza, é o que humano no homem. A santidade da realidade importa para o homem, na sua relação com ela, um cuidado. Na relação consigo mesmo e com os outros seres humanos, o respeito absoluto por aquilo que se não deve tocar, se não deve macular, se não pode  quebrar.

Retomando Pasolini, «a realidade é uma aparição sagrada» e «a sacralidade é muito simples», «é a simplicidade da realidade». Isto nada tem de confessional. Tem sim de religioso, porque a burguesia é o contrário da religião.

Agarro as próprias palavras de Pasolini, para com elas dizer bem o que aqui desajeitadamente se aflora:
«Dizer que a vida não é sagrada e que o sentimento é coisa estúpida é fazer um favor imenso aos produtores. Nisto consiste o levar a água ao moinho. Os novos italianos não sabem que fazer do sagrado e são todos, senão em consciência, pelo menos pragmaticamente, muito modernos; e quanto ao sentimento, estão em vias de se livrarem rapidamente dele.
O que é que, verdadeiramente, torna realizável – no concreto, em actos, na sua execução – os massacres políticos depois de se ter tido a ideia destes? É terrivelmente evidente: a falta do sentimento de que a vida doutrem é sagrada e o fim de todo o sentimento em si mesmo. O que é que torna realizáveis os horríveis empreendimentos desse fenómeno impositivo e decisivo constituído pela nova criminalidade? É, de novo, terrivelmente evidente: o facto de que se considera a vida doutrem nada e o nosso próprio coração um simples músculo (como disse um desses intelectuais que mais fazem por levar a água ao moinho, ao considerar, desde o centro da «história», com condescendência, comiseração e desdém, os infelizes do meu género que erram pela vida).
Queria dizer, para terminar, que se a maioria silenciosa tinha de fazer renascer uma forma de fascismo arcaico, este último não poderia renascer senão da escolha escandalosa que essa maioria silenciosa fizesse (que na realidade já fez) entre, por um lado, o carácter sagrado da vida e dos sentimentos, e, por outro, o dinheiro e a propriedade – em favor do segundo termo do dilema. (…) Penso, portanto – sem faltar à nossa tradição intelectual de humanismo e racionalismo – que não é necessário ter medo – como foi, justamente, o caso em certa época – de não desacreditar suficientemente o sagrado ou o ter-se um coração.» (Pier Paolo Pasolini, Scritti Corsarit - tradução a partir da versão francesa: Écrits Corsaires, Flammarion, 1976)

Uma sociedade que adopta uma lei de aborto livre é uma sociedade esquecida dos fundamentos do nosso viver em comum. E, como diz Miguel de Unamuno: «este viver, que é o viver desnudo / não é acaso o viver da morte?». Esta lei de morte instala-nos firmemente naquilo a que Pasolini chama, nos Poemas, «o início da nova Pré-História».*

* texto da autoria da Manuel Barreiros, originalmente publicado no extinto blog Viver a Sua Vida.

January 23, 2007

saúde privada

[Arquivado em: Geral, Sociedade]

Como é tradição histórica nacional, este Governo também despreza o povo que o sustenta. Não são apenas as mentiras sobre os impostos, os ataques cobardes aos "privilégios" das classes profissionais (antigamente chamados ‘direitos’), as propagandas megalómanas sobre projectos velhos ou vazios, o tom paternal das declarações do primeiro-ministro como quem explica evidências a retardados mentais, etc. Agora é esta treta do referendo. O Governo propõs um referendo aos portugueses, porque estava no programa do governo. (Ah, ah!, ah!, parece que é preciso cumprir pelo menos uma alínea do programa.) Serviços mínimos.
Ora, um referendo serve para auscultar a opinião do povo porque se entende que a matéria em causa é de tal ordem importante ou controversa que não devem ser os órgãos do Estado a deliberar sobre ela, remetendo à população a sua decisão - numa pergunta reduzida à sua formulação mais simples. No entanto, porque receia a resposta do povo, o Estado volta atrás com a decisão da "consulta popular" (o caso do referendo à Constituição Europeia, cuja possibilidade obrigou a uma alteração da Constituição Portuguesa) ou repete-a passados menos de dez anos, porque não gostou da resposta (o "não" ao aborto de 1998). Desta vez, o Governo apresenta novo referendo mas, desconfiando - com razão - do esclarecimento intelectual da populaça, resolve fazer campanha. Campanha de um Governo num referendo proposto por ele próprio é um arremedo de democracia. Nada de novo, então, neste regime de misantropia socialista.
O Governo quer o "sim" (o poder quer sempre o "sim": na regionalização, no aborto, na Constituição Europeia). Obtido o "sim", e com o encerramento das maternidades (e respectivos serviços de obstetrícia e ginecologia) com que este Governo tem vindo a queimar o país,  pode dizer-se que o aborto deixa de ser "uma questão de saúde pública". Passa a ser uma questão de saúde privada.

January 22, 2007

Dêem-lhe liberdade de escolha

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Que o povo vota logo num ditador.

January 21, 2007

Finalmente, outro homem de esquerda.

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É verdade. Não estamos sozinhos, camaradas.
[no food-i-do (via elasticidade - o título deste post é inspirado num post do Luís Gaspar), por remissão do Timshel]:

Do Aborto, e porque não vou falar mais disto.
«Nesta matéria de referendar uma nova lei do Aborto eu sou muito franco e tenho de ser honesto para comigo mesmo: se me chamam para dizer se concordo que uma mulher possa abortar de livre vontade, antes das 10 semanas de vida do filho que está na barriga dela, isto é, até dois meses e meio (!) de gestação, eu digo: não concordo. E ponto final.

Não quero saber de mais nada, das liberdades da mulher e dos abortos clandestinos e das parcas condições em que muitas mulheres vão abortar. Não quero saber. Abortar é da consciência de cada um. Eu não quero contribuir para que se legitime essa consciência. Se uma mulher não quer ter um filho apenas porque não, apenas porque ela manda, eu não posso legitimar o direito a que se aniquile uma vida sob pretexto de que a mãe tem o direito de, ou seja, não me estou a ver contribuir para que se autorize uma mulher a pensar durante quase dois meses e meio se quer continuar a deixar que uma vida se desenvolva.
E não me venham com as más condições com que muitos abortos são feitos por serem clandestinos. Más condições para quem? Para a mulher? A criança que vive dentro dela morre na mesma, seja num vão de escada, seja na mais confortável clínica.
O aborto é um processo que envolve dois seres humanos sendo que, à partida, só um está condenado a não viver: a criança. Aliás, e segundo o futuro quadro legal, a essa criança é-lhe retirado o direito de viver apenas por e para mero conforto de quem decide.
Não consigo dizer sim a tal legitimação para que se mate apenas porque não se quer ter mais um filho, seja porque fica caro, seja porque dá chatices, seja até porque esse filho é menino e a mãe queria uma menina. Para que se deite fora uma vida apenas porque não se quer o incomodo de ter de lidar com essa vida.
por Altino Torres Ferreira»

January 19, 2007

a não vida não humana dentro do útero da não mãe

[Arquivado em: Geral, Sociedade]

A 10 week old fetus as it appears in the womb. nationalgeographic.com

 Feto com 10 semanas no interior do útero. Imagem de David Barlow.

January 18, 2007

como interromper voluntariamente a gonorreia

[Arquivado em: Geral, Sociedade]

O planeamento "familiar" e a contracepção (e, já agora, a prevenção de doenças transmissíveis sexualmente) faz-se até ao momento da foda. Não depois.

January 17, 2007

do “argumento da carteira”

[Arquivado em: Geral]

O líder parlamentar do PS, Alberto Martins, criticou a invocação, feita pelos movimentos do ‘não’, dos custos para o erário público duma vitória do ’sim’ no referendo de 11 de Fevereiro, considerando que este "argumento da carteira" revela "uma falta inaceitável de integridade ética".

Tem razão o Alberto. Argumentos economicistas é que não. Não estamos a falar do fecho de escolas ou de maternidades.

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