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ContactosO Baixa Autoridade é o meu primeiro blogue. Ou melhor, é o primeiro blogue onde escrevi. Quando recebi o convite, vi-o como uma honra, nem eu sei bem porquê… Depois, e apesar disso, sei que nunca contribuí com grande coisa para a construção deste espaço. E para piorar as coisas, e definitivamente ser uma mal agradecida, ultimamente tenho andado a escrever as minhas opiniões e pensamentos (sobre o aborto e outras coisas) neste blogue: www.arotadaseda.blogspot.com Não sei se vou voltar a escrever aqui, mas se vos parecer bem, podem já bloquear-me o acesso. Eu mereço!



Diz o dr. Mário Sousa, um «cientista de proa na procriação medicamente assistida», que «a vida da mulher é um todo, com corpo e alma, que tem primazia sobre o feto. Este, diz, «é "um anexo sem autonomia" até aos cinco meses, altura em que o cérebro começa a funcionar». Depreende-se que, a partir dos cinco meses - e, vá lá, mais três dias e meio -, com o cérebro já a funcionar um bocadinho, o feto ganha autonomia e deixa de ser um "anexo", passando a ser uma dependência ou mesmo uma nova assoalhada, com estatuto biológico semelhante ao fígado.
Reconhece o homem que «agora é facto científico que a nova vida inicia-se na fecundação». Mas falta-lhe, a esse corpo vivo, a esse pedaço de carne que não sabe ler nem jogar sudoku, a "alma". E a alma, segundo o escolástico "cientista de proa", ganha-se aos cinco meses.
Porém, nenhures «questão de consciência» implica forçoso mutismo. Da natureza das «questões de consciência» participa, aliás, uma irredutível vocação política, mesmo que seja para se concluir pela circunscrição de âmbito dos aspectos que não se projectam sobre o outro. O homem é «face a face» com os outros homens, pensando em palavras de Levinas. O homem é testemunha da humanidade e dos outros homens e o dever de testemunhar também é um dever de consciência, inclusivamente para quem prefere «tudo caladinho» diante o clangor do comício. Até a observância do código da estrada pode ser uma «questão de consciência», e isso não lhe diminui nem dimensão social nem operacionalidade.
O que quer esta boa gente com uma lei do aborto livre? Nada senão facilitar o seu acesso aos bens de consumo e, já agora, de permeio, acautelar o prestígio junto da vizinhança, ganhar status e incrementar as possibilidades de carreira. São estes verdadeiramente os «valores» pelos quais se sacrifica uma vida humana. Porque nada consegue desmentir que ali, no que se mata, está a possibilidade de uma vida humana inteira. E a vida humana deve ser sagrada. Sagrada. E santo, entre a santidade da natureza, é o que humano no homem. A santidade da realidade importa para o homem, na sua relação com ela, um cuidado. Na relação consigo mesmo e com os outros seres humanos, o respeito absoluto por aquilo que se não deve tocar, se não deve macular, se não pode quebrar.
Retomando Pasolini, «a realidade é uma aparição sagrada» e «a sacralidade é muito simples», «é a simplicidade da realidade». Isto nada tem de confessional. Tem sim de religioso, porque a burguesia é o contrário da religião.
Uma sociedade que adopta uma lei de aborto livre é uma sociedade esquecida dos fundamentos do nosso viver em comum. E, como diz Miguel de Unamuno: «este viver, que é o viver desnudo / não é acaso o viver da morte?». Esta lei de morte instala-nos firmemente naquilo a que Pasolini chama, nos Poemas, «o início da nova Pré-História».*
* texto da autoria da Manuel Barreiros, originalmente publicado no extinto blog Viver a Sua Vida.
Como é tradição histórica nacional, este Governo também despreza o povo que o sustenta. Não são apenas as mentiras sobre os impostos, os ataques cobardes aos "privilégios" das classes profissionais (antigamente chamados ‘direitos’), as propagandas megalómanas sobre projectos velhos ou vazios, o tom paternal das declarações do primeiro-ministro como quem explica evidências a retardados mentais, etc. Agora é esta treta do referendo. O Governo propõs um referendo aos portugueses, porque estava no programa do governo. (Ah, ah!, ah!, parece que é preciso cumprir pelo menos uma alínea do programa.) Serviços mínimos.
Ora, um referendo serve para auscultar a opinião do povo porque se entende que a matéria em causa é de tal ordem importante ou controversa que não devem ser os órgãos do Estado a deliberar sobre ela, remetendo à população a sua decisão - numa pergunta reduzida à sua formulação mais simples. No entanto, porque receia a resposta do povo, o Estado volta atrás com a decisão da "consulta popular" (o caso do referendo à Constituição Europeia, cuja possibilidade obrigou a uma alteração da Constituição Portuguesa) ou repete-a passados menos de dez anos, porque não gostou da resposta (o "não" ao aborto de 1998). Desta vez, o Governo apresenta novo referendo mas, desconfiando - com razão - do esclarecimento intelectual da populaça, resolve fazer campanha. Campanha de um Governo num referendo proposto por ele próprio é um arremedo de democracia. Nada de novo, então, neste regime de misantropia socialista.
O Governo quer o "sim" (o poder quer sempre o "sim": na regionalização, no aborto, na Constituição Europeia). Obtido o "sim", e com o encerramento das maternidades (e respectivos serviços de obstetrícia e ginecologia) com que este Governo tem vindo a queimar o país, pode dizer-se que o aborto deixa de ser "uma questão de saúde pública". Passa a ser uma questão de saúde privada.
É verdade. Não estamos sozinhos, camaradas.
[no food-i-do (via elasticidade - o título deste post é inspirado num post do Luís Gaspar), por remissão do Timshel]:
Do Aborto, e porque não vou falar mais disto.
«Nesta matéria de referendar uma nova lei do Aborto eu sou muito franco e tenho de ser honesto para comigo mesmo: se me chamam para dizer se concordo que uma mulher possa abortar de livre vontade, antes das 10 semanas de vida do filho que está na barriga dela, isto é, até dois meses e meio (!) de gestação, eu digo: não concordo. E ponto final.
Não quero saber de mais nada, das liberdades da mulher e dos abortos clandestinos e das parcas condições em que muitas mulheres vão abortar. Não quero saber. Abortar é da consciência de cada um. Eu não quero contribuir para que se legitime essa consciência. Se uma mulher não quer ter um filho apenas porque não, apenas porque ela manda, eu não posso legitimar o direito a que se aniquile uma vida sob pretexto de que a mãe tem o direito de, ou seja, não me estou a ver contribuir para que se autorize uma mulher a pensar durante quase dois meses e meio se quer continuar a deixar que uma vida se desenvolva.
E não me venham com as más condições com que muitos abortos são feitos por serem clandestinos. Más condições para quem? Para a mulher? A criança que vive dentro dela morre na mesma, seja num vão de escada, seja na mais confortável clínica.
O aborto é um processo que envolve dois seres humanos sendo que, à partida, só um está condenado a não viver: a criança. Aliás, e segundo o futuro quadro legal, a essa criança é-lhe retirado o direito de viver apenas por e para mero conforto de quem decide.
Não consigo dizer sim a tal legitimação para que se mate apenas porque não se quer ter mais um filho, seja porque fica caro, seja porque dá chatices, seja até porque esse filho é menino e a mãe queria uma menina. Para que se deite fora uma vida apenas porque não se quer o incomodo de ter de lidar com essa vida.
por Altino Torres Ferreira»

Feto com 10 semanas no interior do útero. Imagem de David Barlow.
O planeamento "familiar" e a contracepção (e, já agora, a prevenção de doenças transmissíveis sexualmente) faz-se até ao momento da foda. Não depois.
Tem razão o Alberto. Argumentos economicistas é que não. Não estamos a falar do fecho de escolas ou de maternidades.