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February 19, 2007

mudar para quê, se já estamos mal?

[Arquivado em: Geral, Sociedade]

O mundo mudou e, portanto, o Público mudou. É por coisas destas que eu gosto da Igreja e dos meus amigos. Ou mesmo do caminho para casa. Não estou à espera que mudem sempre que o mundo muda (seja lá o que isso for). Gosto do sossego contra-revolucionário que me permite ter referências e da segurança do reconhecimento dos lugares e dos cheiros.
Mas o Público tinha de mudar. Era um bom jornal, com artigos bem estruturados, textos bem escritos e com alguma profundidade, fácil de ler e agradável à vista. Tinha de mudar, portanto. E mudou. Agora está moderno à brava, armado em revista de cabeleireiro, com todas as fotografias a cores, com diferentes tamanhos de letra (algumas gigantescas, para se ler bem à distância), com cabeçalhos idiotas em todas as páginas a remeter para as notícias ou artigos nas outras páginas (como nos telejornais), com artigos mais pequenos e reduzidos à simplicidade inteligível do leitor médio, para quem as palavras atrapalham sempre a informação. O Público tornou-se um mau suplemento dele próprio, uma espécie de sucedâneo de jornal. Mas mudou e isso é que interessa.

February 8, 2007

o humanismo é um narcisismo

[Arquivado em: Geral, Filosofia]
Despenalize-se tudo, extinga-se o Código Penal. Que deixe de haver crimes e perseguições e condenações e julgamentos, qualquer que seja a conduta em causa. Acabem-se com as leis e as amarras à liberdade individual. Não se censure ninguém por nada. Não se proscreva ninguém à chaga social da clandestinidade. Que se ponha fim à devassa da vida privada de quem, na intimidade da sua consciência, apenas age de acordo com a sua própria moral. Legalizem-se todas as condutas previstas e punidas no Código Inquisitorial Obscurantista (do homicídio ao dano material, passando pelos atentados terroristas e pelos crimes contra o ambiente) e deixe de haver práticas ilícitas e, portanto, clandestinas. E que ninguém seja nunca mais condenado ao humilhante ferrete do medo escondido e do anátema do crime. Em nome de um humanismo decrépito e a desfalecer (bem teve o que merecia, diga-se), que sejam o homem e a mulher os donos dos seus destinos, com os seus projectos de vida (ups, esta palavra não é para ofender ninguém).
O homem não está sozinho no universo, mas está muito mal acompanhado. E há que o aliviar dos empecilhos inomináveis que o encarceram em morais obtusas, em biologias anacrónicas, em insuportáveis responsabilidades. É o que se quer nesta sociedade da bica descafeinada, da cerveja sem álcool, da religião sem Deus, dos doces sem açúcar, do leite sem gordura, da política sem ideologia: agora é o feto sem "vida humana", o aborto sem crime. O humanismo continua.

February 7, 2007

meia culpa

[Arquivado em: Geral]
Com esta história do referendo à liberalização dos atentados à vida intra-uterina, a pedido e sem qualquer justificação da mãe, estou a tornar este blog num bloque e a transmutar-me de blogueiro em bloqueador. Mas descansemos: só faltam 5 dias. Depois Portugal entra no século XXI, como diz o o padre Louçã, e eu fico definitivamente ultrapassado (nasci no século passado). O problema é que o século XXI é uma criança e, como tal, não devia ser utilizado em campanhas.

February 5, 2007

the future

[Arquivado em: Geral, O bem e o mal]



Give me back my broken night / my mirrored room, / my secret life
It’s lonely here, / there’s no one left to torture
Give me absolute control / over every living soul
And lie beside me, baby, that’s an order!
Give me crack and anal sex
Take the only tree that’s left / and stuff it up the hole / in your culture
Give me back the Berlin wall / give me Stalin and St Paul
I’ve seen the future, brother: it is murder.

Things are going to slide, / slide in all directions
Won’t be nothing / Nothing you can measure anymore
The blizzard, the blizzard of the world / has crossed the threshold
and it has overturned / the order of the soul
When they said REPENT REPENT / I wonder what they meant
When they said REPENT REPENT / I wonder what they meant
When they said REPENT REPENT / I wonder what they meant

You don’t know me from the wind / you never will, you never did
I’m the little jew / who wrote the Bible
I’ve seen the nations rise and fall / I’ve heard their stories, heard them all
but love’s the only engine of survival
Your servant here, he has been told / to say it clear, to say it cold:
It’s over, it ain’t going / any further
And now the wheels of heaven stop / you feel the devil’s riding crop
Get ready for the future: it is murder

Things are going to slide …

There’ll be the breaking of the ancient / western code
Your private life will suddenly explode
There’ll be phantoms / There’ll be fires on the road / and the white man dancing
You’ll see a woman / hanging upside down / her features covered by her fallen gown
and all the lousy little poets / coming round / tryin’ to sound like Charlie Manson / and the white man dancin’

Give me back the Berlin wall / Give me Stalin and St Paul
Give me Christ / or give me Hiroshima
Destroy another fetus now / We don’t like children anyhow
I’ve seen the future, baby: it is murder

“The Future”, Leonard Cohen

February 2, 2007

quando o Sim vencer

[Arquivado em: Geral, Sociedade, O bem e o mal]

Quando o Sim vencer aumentará exponencialmente o número de abortos, como aconteceu em toda a Europa nos primeiros 10 anos da liberalização (entre 4 vezes, como na Grécia a mais de 10 vezes, como em Espanha), fruto da banalização do aborto como meio contraceptivo, encorajado por um Estado que não tem meios de prover aos abortos no seu Serviço Nacional de Saúde.
As mulheres serão encaminhadas para as clínicas privadas instaladas em Portugal. As do interior do país continuarão a ir a Espanha porque será mais barato, como vão agora para ter os filhos, visto que as maternidades estão a fechar (e também os seus serviços de obstetrícia e ginecologia).
Quando o Sim vencer continuarão a haver abortos clandestinos, porque feitos depois das arbitrárias 10 semanas ou num "estabelecimento não autorizado" e ninguém perseguirá as mulheres, como não acontece agora. A lei continuará a não ser cumprida, porque é absurda. Quem fizer um aborto a um filho com 12, 16 ou 20 semanas não será "perseguida" (como não são agora: isso fica bem para slogans, mas não é verdade), ao contrário do que prevê a lei que vai ser aprovada. E nem sequer essa conduta (em abstracto, uma barbárie) será tida como censurável.
Quando o Sim vencer vão ser mortas mais vidas humanas em potência, sem que a mulher tenha de invocar qualquer justificação ou fundamento para tal. Apenas, por exemplo, porque não lhe dá jeito ter naquele momento o filho que gerou. O Estado desresponsabiliza-se ainda mais (da educação sexual, do planeamento familiar, do seu papel social), a "sociedade civil" continua a desresponsabilizar-se, e atiram-se pela janela direitos fundamentais, como o direito a nascer, do qual decorrem todos os outros. E o valor da vida entra no mercado global.
Quando o Sim vencer, os portugueses "conscientes" saberão então que matar um feto é uma coisa normal, quando se esquecem de tomar a pílula ou comprar preservativos ou de planear a sua relação. E far-se-ão mais abortos "de ânimo leve", e sem necessidade de "recurso", porque nem sequer será ilegal fazê-lo. Será moderno, limpo e seguro. Para todos, menos para a "coisa humana", esse empecilho, esse nada insignificante, que será extraído do ventre da mãe, numa gravidez que não é "interrompida", mas terminada para sempre, num final feliz para alguns.
Como frangos de capoeira, os portugueses tornar-se-ão ainda mais uns burgueses tontos, imbuídos de um espírito mercantilista para o qual a vida tem um valor de mercado e cede perante valores burguesinhos como o dinheiro, o comodismo e o individualismo egoísta. É mais uma vitória de uma ideologia neo-liberal que está no poder no Ocidente.
Quando o Sim vencer será mais uma vitória da comunicação social (em especial da televisão) que nivela por baixo a exigência de um espírito maior e culto, em prol do lucro das audiências, da alienação e do consumo. É a vitória do pragmatismo sobre os valores e a sacralidade da vida.
E, de resto, tudo continuará na mesma.

February 1, 2007

mais escritos corsários

[Arquivado em: Geral, Livros]

«Não existe uma boa razão prática que justifique a supressão de um ser humano, mesmo nos primeiros estádios da sua evolução. Sei que em nenhum outro fenómeno da existência se encontra uma tão furiosa, total e essencial vontade de vida como no feto. A sua vontade de actualizar a potencialidade que é, percorrendo com uma rapidez fulminante a história do género humano, tem qualquer coisa de irresistível e por isso de absoluto e jubilatório. Mesmo se é um imbecil que vai nascer.»

«Os partidários extremistas do aborto (quer dizer, quase todos os intelectuais "esclarecidos" e as feministas) falam deste como de uma tragédia feminina, na qual a mulher está sozinha com o seu terrível problema, como se, nesse momento, todo o mundo a tivesse abandonado. Compreendo. Mas poderia acrescentar que, quando a mulher estava na cama, não estava sozinha. Por outro lado, pergunto-me como é que os extremistas recusam a retórica especiosa da "maternidade" com uma repulsa tão ostentatória, quando aceitam de forma totalmente acrítica a retórica apocalíptica do aborto.»

«Para o macho, o aborto tem uma significação simbólica de libertação: ser incondicionalmente a favor do aborto parece-lhe constituir um brevet de inteligência esclarecida, de progressismo, de ausência de preconceitos e de capacidade de provocação. É, em suma, uma bela chalaça (dá prazer).»

Pier Paolo Pasolini, Escritos Corsários.