quando o Sim vencer
Quando o Sim vencer aumentará exponencialmente o número de abortos, como aconteceu em toda a Europa nos primeiros 10 anos da liberalização (entre 4 vezes, como na Grécia a mais de 10 vezes, como em Espanha), fruto da banalização do aborto como meio contraceptivo, encorajado por um Estado que não tem meios de prover aos abortos no seu Serviço Nacional de Saúde.
As mulheres serão encaminhadas para as clínicas privadas instaladas em Portugal. As do interior do país continuarão a ir a Espanha porque será mais barato, como vão agora para ter os filhos, visto que as maternidades estão a fechar (e também os seus serviços de obstetrícia e ginecologia).
Quando o Sim vencer continuarão a haver abortos clandestinos, porque feitos depois das arbitrárias 10 semanas ou num "estabelecimento não autorizado" e ninguém perseguirá as mulheres, como não acontece agora. A lei continuará a não ser cumprida, porque é absurda. Quem fizer um aborto a um filho com 12, 16 ou 20 semanas não será "perseguida" (como não são agora: isso fica bem para slogans, mas não é verdade), ao contrário do que prevê a lei que vai ser aprovada. E nem sequer essa conduta (em abstracto, uma barbárie) será tida como censurável.
Quando o Sim vencer vão ser mortas mais vidas humanas em potência, sem que a mulher tenha de invocar qualquer justificação ou fundamento para tal. Apenas, por exemplo, porque não lhe dá jeito ter naquele momento o filho que gerou. O Estado desresponsabiliza-se ainda mais (da educação sexual, do planeamento familiar, do seu papel social), a "sociedade civil" continua a desresponsabilizar-se, e atiram-se pela janela direitos fundamentais, como o direito a nascer, do qual decorrem todos os outros. E o valor da vida entra no mercado global.
Quando o Sim vencer, os portugueses "conscientes" saberão então que matar um feto é uma coisa normal, quando se esquecem de tomar a pílula ou comprar preservativos ou de planear a sua relação. E far-se-ão mais abortos "de ânimo leve", e sem necessidade de "recurso", porque nem sequer será ilegal fazê-lo. Será moderno, limpo e seguro. Para todos, menos para a "coisa humana", esse empecilho, esse nada insignificante, que será extraído do ventre da mãe, numa gravidez que não é "interrompida", mas terminada para sempre, num final feliz para alguns.
Como frangos de capoeira, os portugueses tornar-se-ão ainda mais uns burgueses tontos, imbuídos de um espírito mercantilista para o qual a vida tem um valor de mercado e cede perante valores burguesinhos como o dinheiro, o comodismo e o individualismo egoísta. É mais uma vitória de uma ideologia neo-liberal que está no poder no Ocidente.
Quando o Sim vencer será mais uma vitória da comunicação social (em especial da televisão) que nivela por baixo a exigência de um espírito maior e culto, em prol do lucro das audiências, da alienação e do consumo. É a vitória do pragmatismo sobre os valores e a sacralidade da vida.
E, de resto, tudo continuará na mesma.
   
Aumentará o número de abortos? Acredita mesmo que é possível calcular de forma minimamente aproximada o número de abortos feitos de forma ilegal? Os portugueses consideram a vida um bem de mercado? Eu relembro factos científicos - 10 semanas de gestação: inexistência de dor, inexistência de actividade neuronal, inexistência de sistema nervoso. Existe um corpo em formação, sim, mas ainda desprovido de alma. E ninguém vai pensar que a interrupção da gravidez se trata de algo banal, estando em plena posse das suas faculdades mentais. Ninguém concorda com o aborto. O que está em causa é conferir às mulheres que optam por o fazer o direito a um tratamento decente. É o desespero que move as mulheres nestas situações, e os apoiantes do “não”, com todo o seu “amor” à vida, contraditoriamnete negam-se a dar apoio a estes seres humanos em sofrimento.
Comment by Incógnita — February 2, 2007 @ 9:59 pm
O Não ganhou em 1998. O que mudou? Nada. Mas não prometia o Não de então, que as coisas mudariam, como prometem hoje? Prometiam. O que mudou? Nada. As mulheres continuaram a abortar clandestinamente, a morrer e a esvaírem-se em sangue nas urgências dos hospitais quando o citotec e outros falhavam no vão de escada da parteira que sabia fazer o desmancho ou na casa de banho de casa. Afinal, o Não ganhou, mas nada mudou. Afinal, o aborto continua liberalizado (já é!), livre das 0 semanas aos 9 meses, feito quando e como se quer, em estabelecimentos não autorizado. O Sim quer tentar mudar, seriamente, estas coisas, que continuam desde que o Não ganhou em 1998. O Sim quer eliminar o aborto clandestino, a morte desnecessária, tornar o aborto raro, mas seguro. O Sim quer mudar o que o Não já provou não mudar. O Sim quer acabar com a criminalização, despenalizando a mulher, que o Não continua a criminalizar e penalizar (há mulheres condenadas neste país!). O Sim quer antecipar uma outra capacidade de resposta à mulher, permitindo que em vez da amiga ou do oportunista, seja um médico a aconselhá-la, evitando se necessário o aborto, que seria sempre clandestino. O Não ganhou em 1998, está na hora de mudar de práticas, de política, de lei. O Sim é essa mudança. O Não é perpetuar o que já se provou estar errado.
Comment by Miguel Marujo — February 3, 2007 @ 9:29 pm
Mas o SIM não ganha.
Comment by Jt — February 6, 2007 @ 12:04 pm
Este post parte de vários pressupostos errados ou absurdos. Falarei de dois: 1. não é verdade que tenha aumentado em toda a Europa. Por exemplo na Dinamarca desceu para um quarto.; 2. não se pode, nem por brincadeira de mau gosto, contabilizar como aborto apenas aquelas interrupções efectuadas sob o olhar do estado (o aborto legal). A grande maioria dos abortos, e aqueles que queremos impedir e diminuir, são feitos às escondidas em ambientes sem quaisquer condições de higiene ou dignidade. São esses que levam anualmente milhares de mulheres às urgências dos hospitais, com consequências irreversíveis, muitas vezes a morte. Na verdade, se pudessemos contabilizar esses números escondidos, chegaríamos à conclusão que talvez o número total de abortos tivesse diminuido. Nunca o saberemos. Tal como nunca ninguém minimamente honesto pode dizer que o número de abortos aumentou!
Comment by Luís Moutinho — February 7, 2007 @ 12:19 pm
Este post parte de vários pressupostos errados ou absurdos. Falarei de dois: 1. não é verdade que tenha aumentado em toda a Europa. Por exemplo na Dinamarca desceu para um quarto.; 2. não se pode, nem por brincadeira de mau gosto, contabilizar como aborto apenas aquelas interrupções efectuadas sob o olhar do estado (o aborto legal). A grande maioria dos abortos, e aqueles que queremos impedir e diminuir, são feitos às escondidas em ambientes sem quaisquer condições de higiene ou dignidade. São esses que levam anualmente milhares de mulheres às urgências dos hospitais, com consequências irreversíveis, muitas vezes a morte. Na verdade, se pudessemos contabilizar esses números escondidos, chegaríamos à conclusão que talvez o número total de abortos tivesse diminuido. Nunca o saberemos. Tal como nunca ninguém minimamente honesto pode dizer que o número de abortos aumentou!
Comment by Luís Moutinho — February 7, 2007 @ 12:20 pm
Luís:
1) É um dado facilmente verificável (dados Eurostat) que, nos primeiros 10 anos da liberalização do aborto, o nº de abortos sobe exponencialemente (de 4 vezes mais, como na Grécia, a 10 vezes mais, como em Espanha). E aqui contam-se apenas os abortos legais, feitos nos anos imediatemente após a despenalização, não os anteriores (porque dificilmente contabilizados, como é bom de perceber).
É certo que, após esta subida verificável em todos os países que despenalizaram o aborto, há uma estabilização do seu nº e que, actualmente, há casos de diminuição do nº de abortos (a Holanda é um bom exemplo), devido também à melhor e mais ampla educação sexual, planemento familiar e difusão dos meios contraceptivos.
2) Parece-me, portanto, que estou a ser «minimamente honesto».
3) Não é correcta a sua afrmação que chegam «anualmente milhares de mulheres às urgências dos hospitais, com consequências irreversíveis, muitas vezes a morte». São dezenas esses casos e, nos últimos 3 anos, verificou-se uma morte (percentagem que, aliás, está dentro dos parâmetros do aborto legal e “seguro”).
Obrigado.
Comment by CC — February 7, 2007 @ 4:00 pm