o humanismo é um narcisismo
Despenalize-se tudo, extinga-se o Código Penal. Que deixe de haver crimes e perseguições e condenações e julgamentos, qualquer que seja a conduta em causa. Acabem-se com as leis e as amarras à liberdade individual. Não se censure ninguém por nada. Não se proscreva ninguém à chaga social da clandestinidade. Que se ponha fim à devassa da vida privada de quem, na intimidade da sua consciência, apenas age de acordo com a sua própria moral. Legalizem-se todas as condutas previstas e punidas no Código Inquisitorial Obscurantista (do homicídio ao dano material, passando pelos atentados terroristas e pelos crimes contra o ambiente) e deixe de haver práticas ilícitas e, portanto, clandestinas. E que ninguém seja nunca mais condenado ao humilhante ferrete do medo escondido e do anátema do crime. Em nome de um humanismo decrépito e a desfalecer (bem teve o que merecia, diga-se), que sejam o homem e a mulher os donos dos seus destinos, com os seus projectos de vida (ups, esta palavra não é para ofender ninguém).
O homem não está sozinho no universo, mas está muito mal acompanhado. E há que o aliviar dos empecilhos inomináveis que o encarceram em morais obtusas, em biologias anacrónicas, em insuportáveis responsabilidades. É o que se quer nesta sociedade da bica descafeinada, da cerveja sem álcool, da religião sem Deus, dos doces sem açúcar, do leite sem gordura, da política sem ideologia: agora é o feto sem "vida humana", o aborto sem crime. O humanismo continua.
Escrito por CC -
   
TORQUEMADA!!!!
É O FIM DO MUNDO!!!!! É O APOCALYPSO AHHHHH!!!
É O FIM DA CIVILIZAÇÃO COMO A CONHECEMOS!
It’s the end of the world as we know it…
…anda I feel fine!
Comment by pedro a. — February 8, 2007 @ 12:19 pm
Muito bem CC. Aplaudo de pé!
Comment by Gonçalo — February 8, 2007 @ 6:12 pm
“;O)
Comment by zazie — February 8, 2007 @ 9:21 pm
O código penal serve para punir actos incompatíveis com a vida em sociedade. Sendo que um dos requesitos para que um acto seja incompatível com a sociedade em que se vive é que a sua perseguição seja incentivada por toda a sociedade, ou pela parte interessada na matéria (e não estou a falar naturalmente do feto, mas dos defensores do não que afinal parece que não querem que as mulheres sejam presas por abortarem).
A questão nunca foi o feto sem vida humana, mas sim o feto com direitos iguais ao de seres humanos, pessoas.
Por desonestidade, muitos defensores do não dizem que a vida humana tem o mesmo valor em qualquer estádio e que para eles é absoluta (longe da sociedade pôr em causa a vontade divina). Porém, não agem em conformidade com a sua suposta consciência, pois se o feto fosse assim tão importante, em lugar de procurarem artimanhas para reduzir a pena às mulheres que abortaram, defenderiam que estas fossem julgadas por homicídio premeditado.
Ninguém quer acabar com o direito penal, o Sim só quer que as mulheres tenham o direito de escolher se querem ter um filho, perante uma nova situação que é a gravidez.
E não se trata de um direito absoluto, tem de ser num estabelecimento autorizado (onde se supõe que haja aconselhamento) e tem um limite, pois apesar de não ter direitos propriamente ditos, o feto tem valor para a sociedade e para o futuro pai.
Assim, como estamos na presença de um conflito entre a liberdade da mulher e o valor do nascituro, o Estado deve legislar de forma a salvaguardar os dois.
A única coisa que se pode racionalmente discutir é se a mulher deve ser obrigada a ter um filho, a partir do momento em que o DNA deste existe (devendo o Estado criminalizar também a pílula abortiva), ou se a mulher deve ter o direito de numa fase inicial da gravidez optar por terminá-la.
Dizer outra coisa é desonestidade ou ignorância, porque não há efectivamente ninguém que atribua ao feto o mesmo valor que atribui a um ser humano nascido, por assim dizer (da mesma forma que não há ninguém que ache que uma mulher que aborte aos 8 meses motivo de força maior não deva de alguma forma ser punida).
Ora, a minha opinião, tendo em conta que a sociedade não apoia a perseguição da prática de aborto e que existem efectivamente razões económicas, sociais e de natureza psicológica válidas para uma pessoa não querer ter um filho num determinado momento da sua vida, sou a favor da despenalização do aborto, desde que realizado num estabelecimento com condições para tal, a pedido da mulher e até uma determinada fase da gravidez.
Comment by André Militão — February 10, 2007 @ 3:35 pm