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May 24, 2007

o trabalho dos outros liberta

[Arquivado em: Geral, Filosofia]
O trabalho é um castigo, uma pena infligida ao Homem como consequência da quebra da aliança original com Deus: «Deus disse ao homem: Já que deste ouvidos à tua mulher e comeste da árvore cujo fruto Eu te tinha proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Enquanto viveres, dela te alimentarás com fadiga. A terra produzir-te-á espinhos e ervas daninhas, e comerás a erva dos campos. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes para a terra, pois dela foste tirado. Tu és pó, e ao pó voltarás» (Génesis 3:17-19).
A doutrina cristã sobre esta ferida aberta na condição humana coloca o acento tónico na ética do trabalho, no bonum arduum que exprime e aumenta a dignidade do homem e que «faculta ao homem tornar-se bom como homem» (S. Tomás de Aquino, Summa Theologica).
João Paulo II, no que parece ser uma irónica apreciação sobre esta realidade, foi ainda mais longe: «no trabalho humano, o cristão encontra uma pequena parcela da cruz de Cristo e aceita-a com o mesmo espírito de redenção com que Cristo aceitou por nós a Sua Cruz». E mais: «suportando o que há de penoso no trabalho em união com Cristo crucificado por nós, o homem colabora, de algum modo, com o Filho de Deus na redenção da humanidade» (Laborem Exercens, 27).
Ainda nesta Encíclica a Igreja alerta contra aqueles que usam o trabalho contra o homem («o trabalho liberta», lia-se à entrada do campo de concentração nazi de Auschwitz), mesmo se sob a capa moderna da separação e contraposição entre o capital e o trabalho, tratando-as como duas realidades distintas, tão do agrado do pensamento neo-liberal, a que João Paulo II apelidou de «economicismo» (Laborem Exercens, 13).

Em rigor, é aqui que se deve recolocar a questão do trabalho: nas vítimas da coerção social que representa o moderno sistema de produção de bens e venda de serviços. Com a excepção das actividades ligadas à criação, da produção artística, literária, de reflexão, etc., e eventualmente alguma actividade científica, a grande parte do trabalho da maior parte dos assalariados consiste no desempenho de tarefas monótonas e desinteressantes, separadas da vida, das relações sociais, culturais, religiosas, culturais que cada um de nós optaria em viver fora do contexto laboral.
Recorde-se que o vocábulo latino laborare significa qualquer coisa como «cambalear sob uma carga pesada» e, regra geral, referia-se ao trabalho escravo. A palavra trabalho deriva também do latim tripalium, que designa um jugo utilizado para torturar e castigar escravos. Etimologicamente refere-se à actividade daqueles que perderam a liberdade. Em suma, trabalhar é um sinónimo de um tormento social infeliz.

Como forma de encobrir esta evidência, muitos autores e responsáveis pela gestão dos recursos humanos (e esta expressão já é reveladora da ideologia subjacente) dedicam-se ao estudo minucioso dos factores de motivação, da simulação de competências, da promoção de sentidos vários para o conteúdo dos trabalhos. Para tal, socorrem-se de todas as pequenas misérias humanas, às quais somos sensíveis: o dinheiro, a segurança, o prestígio, a afectividade, a “realização”, enfim, toda uma panóplia de coisas e sentimentos que visam melhorar a auto-estima de cada um. Basta ler o execrável best-seller de Spencer Johnson, «Quem mexeu no meu queijo?», para o saber.
É que o dogma sacrificial do trabalho, como princípio social, de participação na construção colectiva da sociedade, ou a idolatria do trabalho tão do agrado dos capitalistas e seus servos, bem como dos sindicalistas tradicionais, ou mesmo a santidade do trabalho enquanto colaboração na redenção da humanidade, como o apresenta a Igreja, vê corrompido o seu objecto. A antiga condenação do homem ao trabalho penoso perde o seu significado, em função das transformações sociais e políticas à escala global. Hoje, como se lê no «Manifesto contra o trabalho», do Grupo Krisis (Ed. Antígona), o «comerás o teu pão com o suor do teu rosto» transfigura-se num «não comerás, porque o teu suor é supérfluo e invendável».

Mas eis que nos chegam os libertadores. A corja de mercadores de grandes superfícies quer libertar-nos dessa opressão que é o facto de não podermos exercer o nosso primordial direito fundamental de consumir mercearias nos seus armazéns aos domingos à tarde.
O antiquado conceito de que “a minha liberdade acaba onde começa a liberdade dos outros” (noção errónea, porquanto as liberdades ampliam-se mutuamente, em vez de se restringirem; pensemos na liberdade de associação ou de reunião, por exemplo; podem é colidir com outros direitos, mas isso é outra conversa) tem aqui a sua expressão mais dialética possível: lá se vai a liberdade de descanso dos técnicos de leitura do código de barras e dos responsáveis pela recolha pecuniária. Vão continuar a ser pagos principescamente (ou até melhor, uma vez que os príncipes não têm salário) e ter a honra de contribuir para o bem comum desta raça preguiçosa e egoísta em que Portugal se transformou.

Eu já fiz a minha parte. Fui ao site dos libertadores, assinei “Vão roubar para a estrada” e meti lá um número qualquer com sete algarismos. Os meus dados foram submetidos com sucesso.

May 15, 2007

andar filmes

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May 7, 2007

Tento na língua

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A “classe jornalística”, já teve um papel importante, fundamental mesmo, na descoberta e na divulgação de informações. Esses foram os tempos em que havia alguns ideiais, paixão e alguma seriedade.
Hoje em dia, não passam de pivôs-semi-estrelas de televisão, ou pesudo-investigadores que procuram acima de tudo um “furo” para a primeira página, ou aquela informação completamente irrelevante, mas que esmifra até ao tutano a desgraça alheia. São eles muitas vezes os responsáveis pela falência de investigações judiciárias que vão por água abaixo por causa da violação do segredo de justiça, e também, pela revelação de informações completamente desnecessárias para a maioria, mas que dão mais uns segundos de audiência e quem sabe, também dão asneira. Por exemplo, ontem, a televisão pública à qual todos (ainda) têm acesso, ao abordar o tema infeliz e doloroso da criança inglesa desaparecida, não deixou de ir fazer a sua reportagem para alguns locais de saída do país, que não estão a ser minimamente vigiados pela polícia. Portanto, se o abominável raptor, não tinha conhecimento de tal possibilidade, passou a ter.

Mas porque raio não se lhes dá a independência?

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Está mais do que na hora de o pôr a ganhar o seu próprio sustento, também para que deixe de chamar colonialista a quem lhe dá de comer. Além de que há um limite para o tamanho da vergonha que podemos aguentar.

May 6, 2007

muito mais que futebol

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Novak Djokovic

Ao entrar no court central com a camisola do Benfica, Novak Djokovic ganhou a simpatia de uns e os assobios de outros. O seu bom jogo - mostrou um pouco porque é o quinto no ranking mundial - mereceu fortes aplausos, as suas reacções intempestivas, quando ficava descontente consigo próprio, resultou em sorrisos nos espectadores.
Já se esperava que Djokovic (19 anos) fosse uma das figuras do dia no Estoril Open e, fora de campo, já é um dos favoritos do público feminino. Porém, o sérvio que este ano tem encantado no circuito ATP, acabou por se destacar ainda mais do que se esperava. Primeiro porque insistiu em entrar e sair do court envergando uma camisola do Benfica - até teve direito a um cumprimento especial do avançado encarnado Fabrizio Miccoli, adepto confesso de ténis - e, segundo, porque foi protagonista de um jogo emocionante com o russo Igor Andreev.
(Diário de Notícias, 6/5/2007)

May 1, 2007

1º de Maio

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Sebastião Salgado, Mina de Serra Pelada, 1986.