September 26, 2007
September 13, 2007
ex æcquo
Scolari e Sócrates são pares, ambos gerados pelo grande útero futebolístico que os conduziu ao incenso da populaça. Scolari foi campeão do mundo pelo Brasil em 2002 no Mundial da Coreia do Sul / Japão, conseguindo o feito de pôr jogadores talentosos a jogar um futebol triste, feio e pesado. Sócrates subiu uns degraus na sua carreira política quando pulou abraçado a Carlos Cruz, festejando o facto de Portugal ter sido escolhido para organizar um torneio de futebol, numa altura em que não estava na moda a preocupação com os rigores do déficit público e se podia obscenamente esbanjar milhares de contos dos nossos impostos em estádios de futebol, agora votados ao destino previsível do apodrecimento. Antes disso, o engenheiro cujo diploma de licenciatura foi emitido a um domingo era apenas um desconhecido carreirista do funcionalismo público de topo que se limitava a ordenar a transposição de directivas comunitárias sobre o consumo, o ambiente e o ordenamento do território.
Como Sócrates, Scolari forma as suas equipas, a quem chama “família”, criando falsos inimigos externos, mesmo que para isso tenha de criar obstáculos artificiais, escolhendo vítimas aleatoriamente, de modo a provar a sua determinação e poder. Sócrates anestesia os cidadãos com medidas inúteis e provocatórias contra professores, magistrados, doentes, grávidas e funcionários públicos. Scolari afastou Romário (muito popular nos adeptos brasileiros) no Mundial de 2002, atiçou Pinto da Costa ao não convocar Vítor Baía (infinitamente superior a Ricardo, há 3 e 4 anos) no Euro 2004, chegando a seleccionar o 3º guarda-redes do F.C.Porto, e prosseguiu a teima ao ignorar o Ricardo Quaresma. Ao que parece, esta receita une a “famiglia” e conquista as almas dos adeptos, em especial dos saudosistas de um ditador patético. No país discutiu-se os recém descobertos “privilégios” dos magistrados, dos professores e dos funcionários públicos e no PS foram afastadas vozes incómodas como Manuel Alegre (mais voz que outra coisa) e os serviçais da ala esquerda, com o convite envenenado a Mário Soares. Ficam assim dominadas as consciências.
Daqui decorrem os feitos dos gemelgos. Um aproveitou a estrutura e os jogadores que José Mourinho tinha construído e levado a vencer uma Taça Uefa e uma Liga dos Campeões e conduziu uma brilhante equipa nacional a uma final perdida. Na jornada do Mundial de 2006, e depois de ultrapassar o difícil grupo onde pontuavam as potências do futebol moderno como a Angola e o Irão, a selecção de todos vós venceu um só jogo (com a Holanda, a quem Portugal sempre ganha), empatou outro (com a Inglaterra) e perdeu os outros dois (com uma França a jogar a passo, numa poupança de esforços para a final, e com a Alemanha). Sócrates venceu as legislativas ao menino-guerreiro, que o ignóbil Durão Barroso tinha legado ao país. Pelo meio, nos grupos de apuramento, a selecção afastou concorrentes como a Eslováquia, a Letónia, o Liechtenstein, o Luxemburgo, e debate-se agora com a Finlândia, a Polónia, a Arménia, o Cazaquistão e o Azerbaijão. Sócrates afastou Manuel Alegre e João Soares, e tem como oposição política o convalescente centro de emprego “social-democrata”.
Ambos os gémeos são exímios manipuladores dos sentimentos da turba através de astúcias publicitárias indecorosas. São as bandeirinhas à janela, as criancinhas figurantes nas apresentações de medidas políticas irrelevantes, o espectáculo da entrega de computadores nas escolas, enfim, o trabalho de filigrana com o jornalismo dormente. Quando a realidade insiste em se mostrar, os gémeos optam por uma de duas soluções: ou são arrogantes e grosseiros, revelando uma irritação de quem não está habituado a ser contrariado, e disparando as culpas para os outros (o preço do petróleo, o desconhecimento da realidade financeira que herdaram, a actuação dos antecessores, o azar, o árbitro, os adversários que correm muito!) ou despejam um paternalismo ridículo em tom pedagógico, mentindo sem honra nem pudor ("quando for primeiro-ministro, a primeira medida do governo será revogar as novas disposições do Código do Trabalho, ofensivas dos direitos dos trabalhadores"; "NÃO AUMENTAREI OS IMPOSTOS, já bastou o aumento provisório do IVA para 19%, que onerou injustamente todas as famílias portuguesas"*; "imagem ou não imagem, não toquei num cabelo do jogador, estava só a proteger o Quaresma").
Ambos são muito corajosos com os mais fracos. Batem com a mão esquerda, protegidos que estão pelos corpos dos outros, são agressivos com os pequenos que não lhes podem resistir. Quando confrontados com gente grande, é o que se vê: negam a evidência, são subservientes (com Bill Gates, com os chineses, a quem o governo quis oferecer as benesses dos baixos salários e a débil oposição social) e cobardes. O Dalai Lama e os direitos humanos que se danem. Fumar é que não!
Não merecemos menos.
   