carta enviada à Lagardère
Exmos. Senhores responsáveis pelo Grupo Lagardère
Recebi uma carta (é exagero chamar carta a um papel não endereçado nem assinado, mas enfim) dirigida a um qualquer “caro assinante”, referindo que «motivos vários levaram o Grupo Lagardère, proprietário da revista PREMIERE a descontinuar esta publicação», razão pela qual me devolvem o pedido de assinatura e o cheque destinado ao seu pagamento.
Ora, não vejo por que me tratam como “assinante”, uma vez que, precisamente, recusam a assinatura da revista. Dizem V. Exas. que “descontinuam” a publicação, isto é, acabam com ela. Descontinuar é uma palavra tão boa para se referirem ao fecho de uma revista como inviver será para designar um morto. Mas adiante.
Este mail serve, no entanto, para reclamar a V. Exas. muito mais que a perícia com que manejam a língua portuguesa, como a desconsideração com que tratam os vossos clientes (para não falar dos trabalhadores da empresa, objecto do desprezo material com que o Grupo Lagardère brinda as pessoas).
Na verdade, eu e a PREMIERE tínhamos celebrado um contrato; contrato esse, aliás, proposto pela empresa e não por mim. Propuseram-me na penúltima edição a assinatura durante um ano da vossa revista, mediante o pagamento de um preço e, como oferta da subscrição, o envio de um dvd do filme “Fur”. Eu aceitei o negócio e, com o envio do cheque para pagamento, estava fechado o contrato. O resto é conhecido: não cheguei a receber qualquer número da revista pois, logo no número seguinte, este transformou-se no último. É a chamada descontinuação. Porém, ainda que não me tenha sido descontado o cheque (que se tornou inútil e não reaproveitável – e todos sabemos como estão caros os cheques; como os selos do correio, aliás), falta cumprir outra parte do acordo: a oferta do com o filme “Fur”.
Suponho que têm várias cópias do filme em stock para envio aos idiotas que, como eu, partiram do pressuposto que a empresa realizava os negócios que manifestava publicamente vontade de celebrar.
Assim, caso não tenham descontinuado os dvd’s, peço o favor de cumprirem com a vossa palavra (ou parte dela, pelo menos) e me enviem o dvd do filme “Fur”.
Na expectativa de notícias vossas, desejo-vos os maiores insucessos no mundo do comércio e que (sem prejuízo do êxito profissional dos vossos infelizes e valorosos trabalhadores) abram falência muito em breve.
O quase assinante,
Carlos Cunha
(morada)
   