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January 16, 2008

Quatro comentários e dois posts

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Caro Jrd
Aceitei o desafio e continuo aqui a discussão, que a resposta é grande para a caixa de comentários.
Sou fumadora, com enorme prazer. Até hoje não senti palpitações, dores no peito ou falta de ar, por isso, fumo cada cigarro com relativa despreocupação. No entanto, fui ao médico há uns anos e disse-lhe: “Sr. doutor, sou fumadora, faça-me lá aí uns exames p’ra ver como é que isto está.” Ele assim fez. “Pois é, Maria João, os seus pulmões estão limpinhos como novos. Ainda aqui tem muito pulmão p’ra fumar!”. Já a outra, que não fuma mais do que uma ou duas ganzas quinzenais, não é frequentadora assídua de bares ou discotecas, nem tem um marido-chaminé, foi ao médico e o médico disse-lhe: “Ó Cristina, tem que parar de fumar imediatamente.”
A forma como o fumo nos afecta mais ou menos, é quase tão única e individual, como a nossa impressão digital. Como aliás, quase tudo o resto que se diz que faz mal: a gordura, o álcool, a carne, o café, o sal…
Mas o certo é que os fumadores, foram parar à lista dos grandes males da humanidade, assim transversalmente, como responsáveis indiscutíveis de causar males irreparáveis a si e a todos os outros. A histeria foi crescendo, entre não-fumadores principalmente, mas também entre fumadores, fruto de uma enorme falta de raciocínio, pois que as pessoas se esqueceram de pensar: ora mas que raio… lá se pode constatar que todos os fumadores morrem de cancro do pulmão e que todos os não-fumadores sofrem lesões sérias e graves com os cigarros que não fumam? Na verdade, a quantos é que isso acontece e aos que acontece, como se pode ter a certeza de ter sido, sem sombra de dúvida, causado pelo tabaco? Não pode.
Há muito a dizer sobre o assunto, como a hipocrisia de se vender legalmente uma coisa cujo usufruto se proíbe e sobre os milhões que o Estado de todos nós arrecada com isto, sobre as dezenas de outras coisas muito mais nocivas para o meio ambiente e portanto para a nossa saúde, como os carros, as fábricas que produzem as toneladas de lixo que compramos diariamente e deitamos fora diariamente, as porcarias de que nos alimentamos, causa de tantas doenças, e por aí adiante, são tantas que não há papel que chegue. Nada disto no entanto, pode servir de desculpa para que não se tomem algumas medidas sobre os malefícios do tabaco, porque evidentemente que os há.
Que eu agradeço as extracções de fumo, agradeço. Que acho razoável, haver espaços e zonas para fumadores e não-fumadores, acho. Que não aceito que estas medidas apareçam sustentadas numa perseguição cega e desprovida de sentido, não aceito. Que estas medidas fossem tomadas com naturalidade, como tantas outras, que fossem fruto da educação, do civismo, do respeito por uns e outros, seria louvável. Mas estamos longe de ter sido assim.
Por último, que as massas não têm consciência de que as pequenas proibições vão tomando conta das nossas vidas, que o mundo livre em que julgamos viver não existe, é a verdadeira questão. O meu colega de blog, no seu post Arqueologia da hipnose #10, ilustra isto na perfeição — diz-se que uma imagem vale mais que mil palavras, mas tenho a certeza que a maioria, não a mensagem. Quando nos tiverem proibido, com o nosso consentimento e pior ainda, com o nosso aplauso, de fazer quase tudo aquilo que nos deixa ser Humanos, quando vivermos numa sociedade asséptica, segura e livre de perigos, podemos ter a esperança de vida de uma tartaruga, mas a alma será a de uma tartaruga morta. E nessa altura, voltar atrás, será impossível.
Entretanto, vou fumar um cigarro, que ainda estou incrédula com isto e porque cá em casa ainda se pode fumar. 

ratione contractus

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É o "socialismo" moderno: Chaves vai ter um hospital privado em 2009 com maternidade e serviço de urgências 24 horas. Anúncio surge menos de um mês após Correia de Campos ter determinado fecho da unidade de saúde local. É para o nosso bem.

January 9, 2008

Nem de propósito

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E seguindo a linha wittgensteiniana do nosso primeiro, a Secretária de Estado da Saúde disse: "Não há listas de espera nos hospitais, há é listas de inscritos".

actus non a nomine sed ab effectu judicatur

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José Pinto de Sousa, primeiro-ministro da nacinha (como lhe chama o bom dragão), é um linguista. E um wittgensteiniano da linha dura. Embora nunca tenha lido o Tratado Lógico-Filosófico ficou-lhe o gosto (inato) pelos tratados. Há mesmo quem, por essa razão, lhe chame tratante.

Mas a linguagem, a totalidade das proposições, a função da linguagem como revelador da realidade, isso ficou-lhe a matutar no seu pequeno cérebro. Para começar, renegou o nome de família. Qual jogador de futebol dos escalões regionais ou como os concorrentes do Big Brother (big brother que também o alicia bastante, aliás), quis ser conhecido apenas pelo nome próprio. Deixou, então, de responder ao nome “José Sousa” ou “José Pinto de Sousa” e passou a ser apenas o “José Sócrates”. Ou “Sócrates”. É o declínio de um nome, mas José, no cimo da sua ambiçãozeca, sabia que o internacional brasileiro já deixara de calcanhoar há tempo suficiente para alguns se lembrarem dele. Quanto ao filósofo grego, ele mesmo se encarregaria de o remeter para o olvido, afogando a sua memória (no rio Lethes) com a exclusão da incompreensível disciplina de Filosofia do curriculum obrigatório do 12º ano da escolaridade lusa.

Entretanto, José leu um livro e pensou que era social-democrata. Como tal, militou na JSD, ainda no tempo em que as juventudes partidárias não eram associações de acolhimento de pessoas com deficiência e o PPD defendia a social-democracia. Mais tarde, ao aperceber-se que, na “política”, pouco importava o que se pensava ou defendia, alistou-se noutro centro de emprego: o partido socialista. Foi aqui que se deu conta do mundo wittgensteiniano das palavras. A realidade é feita de palavras e só através da linguagem se pode conhecer a realidade. Decorre daqui que um partido se denomine “socialista” torna-se socialista. Como ele, que já não se chamava Sousa e, portanto, era como se Sousa nunca tivesse nascido.

Prometi referendar o “Tratado Constitucional”? Pois, mas isto agora é o “Tratado de Lisboa”, notem que já não há referências ao hino e à bandeira. E foram mudadas cinco vírgulas e dois artigos deslocados para outro capítulo.

Está, então, inventada uma nova teoria da ciência política. Prometi que não aumentava o IVA? Aumenta-se o imposto, mas passará a chamar-se IT. Garanti que não haveria portagens nas scuts? Passam a chamar-se auto-estradas. A primeira medida era alterar o Código do Trabalho? E foi. Passa a ser “Código do Trabalho” o nome da “primeira medida”. E assim por diante.

O José só ainda não sabe onde se vai localizar o novo “Aeroporto da Ota”.

January 6, 2008

Areia para os olhos

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Estamos em guerra(s), sim senhor. Quanto à de além fronteiras e apesar dos senhores da guerra nos quererem constantemente convencer de que a nossa vida não pode ser e não será alterada por causa das ameaças terroristas (não senhor, não cederemos!), a verdade é que de repente, o Lisboa-Dakar acaba. Ora isto, é muito estranho. É estranho porque sempre houve ameaças terroristas sobre o Dakar e todos os anos morrem pilotos em acidentes, sem que isso tenha resultado no fim da prova. É estranho também, porque estão envolvidos milhões de euros, e não me queiram convencer que em nome da segurança, ninguém se importa que eles voem pela janela.
Das duas uma: ou afinal a nossa vida é condicionada pelo terrorismo e, nesse caso reconheça-se, eles estão a ganhar, ou existe aqui uma estratégia qualquer política para, mais uma vez, manipular a opinião pública. Em que sentido exactamente? Je ne sais pas, por enquanto.
A verdade, é que se eles nos atiram explosivos, os nossos atiram-nos areia para os olhos. Os meus, por entre a poeira, vêem uma história muito mal contada.