Quatro comentários e dois posts
Caro Jrd
Aceitei o desafio e continuo aqui a discussão, que a resposta é grande para a caixa de comentários.
Sou fumadora, com enorme prazer. Até hoje não senti palpitações, dores no peito ou falta de ar, por isso, fumo cada cigarro com relativa despreocupação. No entanto, fui ao médico há uns anos e disse-lhe: “Sr. doutor, sou fumadora, faça-me lá aí uns exames p’ra ver como é que isto está.” Ele assim fez. “Pois é, Maria João, os seus pulmões estão limpinhos como novos. Ainda aqui tem muito pulmão p’ra fumar!”. Já a outra, que não fuma mais do que uma ou duas ganzas quinzenais, não é frequentadora assídua de bares ou discotecas, nem tem um marido-chaminé, foi ao médico e o médico disse-lhe: “Ó Cristina, tem que parar de fumar imediatamente.”
A forma como o fumo nos afecta mais ou menos, é quase tão única e individual, como a nossa impressão digital. Como aliás, quase tudo o resto que se diz que faz mal: a gordura, o álcool, a carne, o café, o sal…
Mas o certo é que os fumadores, foram parar à lista dos grandes males da humanidade, assim transversalmente, como responsáveis indiscutíveis de causar males irreparáveis a si e a todos os outros. A histeria foi crescendo, entre não-fumadores principalmente, mas também entre fumadores, fruto de uma enorme falta de raciocínio, pois que as pessoas se esqueceram de pensar: ora mas que raio… lá se pode constatar que todos os fumadores morrem de cancro do pulmão e que todos os não-fumadores sofrem lesões sérias e graves com os cigarros que não fumam? Na verdade, a quantos é que isso acontece e aos que acontece, como se pode ter a certeza de ter sido, sem sombra de dúvida, causado pelo tabaco? Não pode.
Há muito a dizer sobre o assunto, como a hipocrisia de se vender legalmente uma coisa cujo usufruto se proíbe e sobre os milhões que o Estado de todos nós arrecada com isto, sobre as dezenas de outras coisas muito mais nocivas para o meio ambiente e portanto para a nossa saúde, como os carros, as fábricas que produzem as toneladas de lixo que compramos diariamente e deitamos fora diariamente, as porcarias de que nos alimentamos, causa de tantas doenças, e por aí adiante, são tantas que não há papel que chegue. Nada disto no entanto, pode servir de desculpa para que não se tomem algumas medidas sobre os malefícios do tabaco, porque evidentemente que os há.
Que eu agradeço as extracções de fumo, agradeço. Que acho razoável, haver espaços e zonas para fumadores e não-fumadores, acho. Que não aceito que estas medidas apareçam sustentadas numa perseguição cega e desprovida de sentido, não aceito. Que estas medidas fossem tomadas com naturalidade, como tantas outras, que fossem fruto da educação, do civismo, do respeito por uns e outros, seria louvável. Mas estamos longe de ter sido assim.
Por último, que as massas não têm consciência de que as pequenas proibições vão tomando conta das nossas vidas, que o mundo livre em que julgamos viver não existe, é a verdadeira questão. O meu colega de blog, no seu post Arqueologia da hipnose #10, ilustra isto na perfeição — diz-se que uma imagem vale mais que mil palavras, mas tenho a certeza que a maioria, não vê a mensagem. Quando nos tiverem proibido, com o nosso consentimento e pior ainda, com o nosso aplauso, de fazer quase tudo aquilo que nos deixa ser Humanos, quando vivermos numa sociedade asséptica, segura e livre de perigos, podemos ter a esperança de vida de uma tartaruga, mas a alma será a de uma tartaruga morta. E nessa altura, voltar atrás, será impossível.
Entretanto, vou fumar um cigarro, que ainda estou incrédula com isto e porque cá em casa ainda se pode fumar.
   
Não perdi pela demora. Espero que não fique desiludida.
Cumprimentos
Comment by jrd — January 17, 2008 @ 1:26 am
Sabe, o mundo anda chato.. não se pode mais nada. Fumar é como aborto, só sabe lidar quem passou ou passa por isso.
Comment by Macé — January 17, 2008 @ 12:13 pm
completamente de acordo com Maria João. Excelente análise e sensibilidade.
Comment by me — January 18, 2008 @ 7:54 pm
Justificar para quê? Porque é pessoas inteligentes recorrem a argumentação quase ideológico-filosófica para justificar um hábito nocivo para a saúde? O que é descrito como uma palmdinha nas costas “Ainda aqui tem muito pulmão p’ra fumar!” é um aviso… Olhe que qinda está a tempo…”
Por vezes lembro-me dos debates mais encarniçados (lol) sobre a IVG, quendo, no crescendo da luta, a argumentação utilizada por ambos os lados roçava a barbaridade mais primária.
Comment by pedro a. — January 21, 2008 @ 11:15 am