como se fosse
Manuela Bacelar, escritora e ilustradora, é autora de uma historieta infantil recém publicada pelas Edições Afrontamento, destinada precisamente a um público infantil (biológica e mentalmente falando), intitulada «O Livro do Pedro (Maria dos 7 aos 8)».
Lê-se na sinopse que «O que torna esta história especial é o facto de Maria ter dois pais: O Pedro e o Paulo. Este livro não pretende ser um panfleto. Pretende, ao invés, contribuir para que do imaginário infantil faça parte a diversidade dos modos de amar. E, nesse sentido, este é um livro pioneiro em Portugal. Pela primeira vez, a edição nacional de literatura para a infância contempla a diversidade das formas de parentalidade. E fá-lo sem falsos moralismos». Aparentemente, e apesar das diversas formas de amar (não descritas no texto), o conto também não se preocupa com os "verdadeiros" moralismos. O espírito do tempo, que este livro pretende reflectir, é exactamente a repulsa pela moral, pela ética e pelas responsabilidades sociais e pessoais. Nesse aspecto, cumpre o seu papel. E fá-lo em papel.
A autora explica como surgiu todo o processo criativo na sua mente: «A ideia do livro surgiu-me como as ideias dos outros livros: de situações concretas que vou conhecendo. A história é sobre uma família que tem uma vida normal, perfeitamente inserida e aceite pela sociedade». E acrescenta: «É um livro de afectos. É Natal e não há prendas. Há um grande abraço. São os anos da Maria e não há presentes». A ideia central, portanto, além da absoluta normalidade de uma criança ter dois pais e nenhuma mãe, é que a filha deste amoroso casal nunca recebe nem dá presentes, seja no solstício de Inverno, seja nos aniversários. Em contrapartida, há afectos e abraços (e supõe-se haver outras formas de expressar os afectos entre o pai e o outro pai). Embora os "afectos e abraços" e até os beijinhos não sejam incompatíveis com presentes, tal evidência não ocorreu à escritora.
Apesar de toda esta incontestável normalidade na vida de Maria e dos seus pais Paulo e Pedro, Manuela Bacelar desvelou a ratio agendi do livro numa entrevista a Ana Aranha, no programa «À Volta dos Livros», na Antena 1: «Tratei do tema da homossexualidade como se fosse uma coisa normal». Como se fosse.
   
“Como se fosse normal”…
Galhofeira esta senhora…
lol
Comment by pedro a. — April 17, 2008 @ 3:05 pm
Porque é que o livro está a reflectir sobre “a repulsa pela moral, pela ética e pelas responsabilidades sociais e pessoais”? Que moral é essa que se repudia, que ética se repudia e que responsabilidades sociais?
A mesma que repudiam mães solteiras, pais solteiros, divorciados, gente que não acredita no casamento e vive uniões de facto, gente que não acredita em relações e vive aí de relações não assumidas?
Claro que encontro o rídiculo de uma linguagem tão cuidada que assume “como se fosse normal” ao que quer chamar de normalidade”, mas pergunto-me que corredores estreitos são esses da moral, da ética e da responsabilidade social. Pergunto-me mesmo se alguém os vive.
Comment by Sofia Barbosa — April 17, 2008 @ 4:51 pm
Não é tudo a mesma coisa, Sofia (adopção de crianças por homossexuais, mães solteiras, uniões de facto - não, não é tudo a mesma coisa).
A moral que se repudia (que a autora repudia) são os “falsos moralismos” - que tanta falta fazem.
Comment by CC — April 17, 2008 @ 5:07 pm
Então parafraseio: que moralismo (mesmo que falso, porque não vivido mas imposto suponho) é esse? Moralmente, socialmente e eticamente o que é desejável?
Comment by Sofia Barbosa — April 17, 2008 @ 5:55 pm
(e supõe-se haver outras formas de expressar os afectos entre o pai e o outro pai)
E evidente que sim, tal como há entre o pai e a (outra ?) mãe, ou a mãe e o (outro ?) pai, que decidirão se o fazem ou não à vista dos filhos sem que isso possa ser considerado imoral, dado que pertencem aos Hetero…
A homofobia continua boa, mas não se recomenda.
Comment by jrd — April 17, 2008 @ 9:51 pm
A Moral é um conjunto de regras de convívio humano, obviamente sempre “impostas” (mas não sancionadas, como as leis) socialmente, que não são universais (isso seria a Ética) para todas as culturas, e que até variam no tempo.
Mas num dado momento e local, são aceites ampla e maioritariamente, e são elas que separam o que se considera Bem do que se julga Mal, na sociedade me causa.
Uma outra coisa é o que é normal, um conceito estatístico.
A Sofia (e muita gente) faz uma grande confusão.
Critica moral vigente - no fundo a referencia, não explicita, é quase sempre a Moral cristã – no que está no seu direito. Mas porque se admira que essa moral que critica repudie os comportamentos que lhe são contrários? “Que moral é essa que se repudia?”
Critica os que a defendem, mas não a cumprem – “gente que não acredita”… Mas então o que critica é essa diferença entre a regra e o comportamento, a hipocrisias e a falta de integridade independentemente da regra?
Não está assim a moralizar também, e a repudiar comportamentos segundo a moral vigente?
Fala também de responsabilidade social e isso não se confunde com moral. Muitas morais, aliás a própria natureza da moral, é a intolerância selectiva (aí, como a Lei) e a reprovação de comportamentos não conformes. Responsabilidade social tem que ver com o compromisso para com os outros e nesse âmbito pode incluir a tolerância como valor moral. Mas tolerância não significa ausência de limites, como é óbvio.
Finalmente, e sem moralizar, sem fazer juízos de valor sobre comportamentos – que como o CC refere, não cabem todos nos mesmos sacos – devo dizer que a homossexualidade está longe de poder ser considerada normal numa base estatística social. Que significa pois “uma vida normal, perfeitamente inserida e aceite pela sociedade”? Ser aceite como minoria? Claro que sim, mesmo que com acidentes pelo caminho, a homossexualidade não é perseguida e é aceite nas culturas ocidentais. Mas ser aceite, não tem é nada a ver com ser normal… e como poderia um comportamento minoritário de ser visto como normal? Só se fosse, mais uma vez, por hipocrisia… ou por falso moralismo.
Comment by cbs — April 17, 2008 @ 10:21 pm
A responsabilidade social estava no texto original…
Mas da definição de Moral e já que ligas à Moral cristã (coisa que o não o faço) e não me dás qualquer outra definição mais prática CBS, suponho que o que seria aceitável seria uma relação despoletada pelo namoro entre homem e mulher iniciado no final da adolescência, assumido no inicío da vida adulta pelo casamento católico, consumado no primeiro dia de casado e que durasse ad eternum. Por essa lógica, essa mesma moral repudia todas as outras situações descritas acima no meu comentário, simplesmente porque não encaixam. E as outras, ao contrário da homessexualidade vivida comprometida e que querem ter filhos ( a minoria das minorias), essas outras não são minoritárias e são a realidade mais que constatada nas nossas famílias, na nossa vida pessoal.Por isso em vez de chocar-nos com o que “não é normal” e evidenciada a sua isignificância estatística (repito, casais homessexuais de homens ou mulheres que se querem casar e ter filhos) porque utilizar essa mesma moral para repudiar este comportamento específico e não outros que são os que nós vivemos?
Por isso mais uma vez, que Moral é esta?
Por isso deixem-me discordar, não são os moralismo, principalmente os falsos, que fazem falta à nossa sociedade. Talvez a clareza de espírito que nem sempre vivemos aquilo que consideramos certo, por circunstâncias várias mas também temporais e de mudança de mentalidade, e que vale muito a pena lutar pelo amor comprometido e construtivo o maior desafio que se coloca aos vários casais sejam eles formados com forem (mesmo que para casais gay), em vez de lutar por uma noção de moral que nos agrilhoa para ambivalências insustentáveis. E não leiam nas minhas palavras qualquer ataque à igreja católica portuguesa, instituição que muito me acolhe e ilumina. Permitam-me apenas questionar.
Comment by Sofia Barbosa — April 18, 2008 @ 9:53 am
Sofia
gostava de poder dar uma resposta mais pensada, mas agora não posso.
mas não quero deixar de dizer uma ou duas coisas.
também como tu critico que apregoa uma coisa e faz outra, se bem que olhando á volta e tantas vezes ao meu próprio espelho, é o que vejo…
também como tu discordo aqui ou ali da moral tradicional, que, volto a dizer, acaba por se subsumir na cristã (até a moral laica jacobina, dela deriva, acho eu); mas a Moral é um conjunto de comportamentos que se sedimentaram no tempo, existe e pesa, não é manipulável pelas nossas opiniões privadas. E resta saber o que dela está assim tão mal e desadaptado, porque obviamente em muitas situações é uma boa referencia a Moral - a hipocrisia é condenada, por exemplo.
também como tu aceito que homosexuais possam adoptar crianças, mas não só porque lhes apetece.
acho que a adopção é um remédio para situações emergentes, por exemplo, preferivel ao aborto. mas também acho que alguém - e terá aí de ser o Estado - tem que seleccionar quem pode acolher crianças para adopção. e também acho que, não sendo de excluir ninguém (mesmo alguém que vive só pode dar uma boa paternidade) há situações preferenciais (e o afecto não é tudo, por muito que nos custe o rendimento também é um factor decisivo) e o dito “casal” homosexual encaixa com dificuldade. mas pode, lá isso pode e até melhor que muitos casais heterosexuais.
um abraço e até depois
Comment by cbs — April 18, 2008 @ 11:00 am
Um pequeno esclarecimento ao jrd, comentador que mui estimo: este poste não sofre de homofobia. Apenas quer questionar a bondade das experiências sociológicas à custa das crianças (refiro-me à defesa da adopção de crianças por casais homossexuais) e a sua “normalidade”, num mundo em que a única coisa que não é relativa é o absolutismo relativista.
De resto, nem o seu autor é homofóbico (não tem pavor de homossexuais) nem misómino (não odeia homossexuais) ou homoftono (não os inveja). Quanto muito, entende que ninguém deve ter privilégios em razão da sua tendência sexual. E que não devem ter acolhimento legal as discriminações positivas por que uma minoria de activistas gay luta em nome de uma fictícia marginalização que são alvo.
Comment by CC — April 18, 2008 @ 2:25 pm
Meu caro,
Agradeço o seu esclarecimento e o cumprimento expresso. Acredito que o CC não seja homofóbico, outro tanto não consigo dizer do conteúdo do post ( numa interpretação ampla do significado da palavra), certamente por incapacidade minha, não consigo os cindir “Natais, aniversários e prendas” na “adopção” e em “quem adopta”.
Reconheço a delicadeza do tema que, a meu ver, está muito longe de ter a gravidade de outros como a pedofilia, o abandono, o trabalho infantil, a subnutrição, etc., com que somos diariamente violentados.
Aliás, prefiro ver uma criança adoptada por “Pais” e “Mães” independentemente da sua orientação sexual do que assistir puritanamente à sua condenação.
Se pudéssemos questionar as crianças?…
Comment by jrd — April 19, 2008 @ 8:26 pm
A doutrinação ateia e queer é tramada. Vinde a nós ó criancinhas…
Comment by zazie — April 24, 2008 @ 7:02 pm
rapaz, tens andado muito por fora, e assim resolvi dar-te no meu sítio, uma oportunidade de me mandar às malvas, como aliás eu mereço :)
saudades e um abraço
Comment by cbs — April 25, 2008 @ 11:31 pm