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October 1, 2008

Escritos sobre o governo da Consciência I

[Arquivado em: Geral]


A verdade última, aquela que na escatologia judaico-cristã nos aguarda no lugar da Salvação, insinua-se por vezes em momentos-brilho insuspeitos e o simples olhar monoteísta, fundado na finitude cartesiana do Ser, não lhe acede e jamais lhe acederá.

Essa verdade última poderia chamar-se verdade primeira e com isso alcançar, na tal matriz escatológica que enforma a civilização ocidental, o Alef dos cabalistas ou o Pleroma dos gnósticos. Acontece que uns como outros sabem estar essa verdade num plano da consciência que já não admite a Verdade. Esse plano, que em bom rigor também já não é um plano, é o primeiro, ou talvez o último, momento de anulação da dualidade.

Atente-se, por exemplo, no seguinte diálogo dominado pela criança e do qual fui mártir (a palavra mártir significa testemunha):

- Qual é a última parte do céu? – pergunta a criança.

O adulto, atónito com a pergunta, esboça uma resposta tola, bem ao jeito da sua humilde posição na escada de Jacob. Responde que talvez não haja uma última parte do céu.A criança, cheia daquela crueldade mística que se lhe reconhece, ergue a sumptuosa adaga e esventra, sem piedade, a alma do mártir:

 - Estás com a cabeça na lua? O céu nunca acaba. O céu está nos olhos.

Num nano segundo, aquele que o CERN procura, perto do tal Aleph dos cabalistas mortos, o mártir percorre com a breve consciência todo o Tao Te King e ainda sem ter acabado de respirar outro golpe do punhal mágico lhe descobre o peito:

- Na boca também. À volta da nossa cara nunca acaba. A nossa cara é o nosso planeta.

O adulto mártir morre e é assim que nascem os Anjos.

 

BS

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