A presença da mulher na cozinha é hoje vista à luz de um preconceito nefasto. Esse preconceito radica numa ideia desvalorizadora da cozinha enquanto laboratório alquímico, onde a mulher operava com o fogo uma forma de transmutação fundamental, primordial melhor dizendo, que não só a ajudava a constituir-se como pilar da Casa, o templo, como a identificava com a sua própria memória original de grande nutridora.
Hoje, a mulher não só seca os peitos como execra o fogão. Parece haver nela uma revolta contra o sentido mais fundo da nutrição, revolta que é, sem ela aparentemente o saber, contra a sua natureza e contra a sua própria razão originária. Ao desligar-se de si a mulher quebra o equilíbrio do mundo e faz com que todos os processos vitais iniciados com o nascimento se afastem do cânone universal, a matriz da physis, e errem indefinidamente pelo caos da personalidade.
Foi de certa forma o que se passou, por exemplo, com a Educação. Como se pode pedir a alguém que recusou a nutrição das suas criaturas que vá nutrir as criaturas dos outros? A mulher invadiu a Escola com esse drama paradoxal e hoje é todo o conjunto da sociedade que se confronta com a sua contradição.
O Estado decide, então, pôr a Professora a fazer croché, submergindo-a num pântano burocrático, num labirinto de papéis e funções que pretendem, tão só, evocar na mulher a memória do fogão. Mas acontece que o Estado, dirigido e aconselhado por “especialistas” incapazes de uma visão transdisciplinar do problema, ainda não se decidiu a agir sobre todas dimensões da realidade, através daquilo a que se poderia chamar uma intervenção holística, não fragmentária, com a qual poderia atingir, aí sim, a transformação necessária ao reequilíbrio. Falo, obviamente, dos actos primeiros: contraceptivos hormonais, cesarianas, sacrifício do leite materno, licença de maternidade, responsabilidade económica, etc.
A mulher tem que voltar a ser a Casa, sem o que, não tendo nós ainda conquistado a sabedoria do nómada, nada mais seremos do que vadios. Órfãos e vadios.