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April 22, 2006

“E, se teu olho te fizer tropeçar, arranca-o, e lança-o de ti; melhor te é entrar na vida com um só olho, do que tendo dois olhos, ser lançado no inferno de fogo” Mateus 18:9

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Inferno no MNAA

Sofro intermitentemente de ataques de culpa por a política e economia nacionais e internacionais me aborrecerem de morte. Nessas alturas prometo a mim mesma actualizar-me. Desato a ler jornais e a subscrever revistas. Passado um mês ou dois começo a voltar ao meu estado normal. Sobretudo quando me chegam a casa pérolas destas. É o tipo de ironia  nós-somos-os-maiores-do-mundo-e-os-governos-europeus-sao-uns-fracos que me faz perder a paciência.

Mas estava a Economist em plena queda livre para o caixote do lixo quando foi milagrosamente salva pela visão do Diabo. Não é qualquer Diabo. É o que está no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa - reconheci-o porque ia lá de propósito quando era miúda para ficar ali parada de boca aberta,  extasiada; o Inferno era fascinante. O quadro era quase pornográfico.

Será que a Economist pagou direitos de autor ou será que a imagem é do domínio público? E se não for, a publicação de uma fotografia da revista onde, por sua vez, está publicado o quadro mete a Baixa Autoridade em despesas?

(o quadro original e os seus detalhes pode ser visto nas colecções dos Museus prenchendo "Inferno" no campo título ou directamente aqui)

 

April 3, 2006

Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta o conhecimento aumenta a tristeza. –Eclesiastes 1:18

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E a dificuldade de levar uma vida sábia?

Quando se é crente, está tudo facilitado. Há uma cartilha do comportamento correcto. Se tudo o mais falhar, há o prémio de consolação: umas asas, uma harpa, uma nuvem privativa e é o céu. A angústia cura-se com uma avé-maria, uma grande angústia com um rosário.

Na falta da religião há a filosofia. Mas os filósofos contradizem-se, não há uma resposta única. A liberdade de pensar é um inconveniente. A dúvida permanente é uma maçada. Volumes e volumes que levantam um maior número de problemas do que resolvem. E ninguém lhes liga nenhuma. "Conhece-te a ti próprio". Mais depressa mandamos um homem à Lua do que descobrimos onde nasce o rio Nilo.

E aqueles livros americanos de auto-ajuda? Uns senhores muito bronzeados nas capas com uns sorrisos pepsodent, de camisa branca com as mangas arregaçadas, prontos a lançarem-nos como projécteis no encalço do sucesso. Depois há soluções de compromisso. O Alain de Botton escreve uns livros de auto-ajuda mascarados de livros de filosofia. Nietzsche e Schopenhauer têm a solução para as dificuldades, o Séneca consola as frustrações e o Montaigne faz-nos sentir menos desenquadrados.

E as soluções radicais. O Rothko achava que quem contemplasse os seus quadros, atingia um grau de extâse religioso induzido pela experiência cromática. A arte como chave da compreensão da vida.

Se a vida é um acumular de experiências, e à falta de um chip à la Matrix, a literatura poderia acelerar o processo (Ler, Ler, viver a vida que outros sonharam como dizia o Unamuno). Uma pequena batota contra o tempo. Mas até que ponto a Ana Karenina tem algo para os ensinar? Não me vinha nada a calhar morrer debaixo de um comboio.