“Pensamos que o preço vale a pena”, Madeleine Albrright, quando interrogada sobre se a morte de meio milhão de crianças iraquianas era um preço que valesse a pena pagar pelas sanções.
“Eles sabem que nós possuímos o país deles… nós ditamos a forma como vivem e conversam. E é isso que é grandioso na América hoje em dia. É muito bom, especialmente quando eles têm imenso petróleo de que nós precisamos”, Brigadeiro-general William Looney, Força Aérea dos Estados Unidos, que dirigiu o bombardeamento do Iraque de 1991.
Ambas retiradas de “O Mundo nas Mãos”, de John Pilger

No referendo para a despenalização da IVG de 1998, o não teve mais percentagem que o sim e a abstenção teve mais percentagem que estes dois juntos. Não vamos brincar com os números, e vamos fazer as leituras certas. A meses do novo referendo, corre-se o risco de a abstenção ter uma percentagem próxima dos 50. Menor, mas muito significativa. Portanto, deixemo-nos de conversa fiada, deixemos para lá o apontar de dedos e o tom acusador do são-uns-irresponsáveis.
A abstenção, expressa uma intenção. Com maior ou menor consciência, ela é uma mensagem muito clara e vai muito além do voto nulo ou em branco. Estes dizem apenas não quero nenhuma destas marionetas de carne sentadas no parlamento. A abstenção numa eleição, diz, para quem quiser ouvir, não quero este sistema tal como está. Não quero um sistema político em que é impune a mentira, a manipulação, o roubo, a incompetência, os interesses económicos, a invasão de países, os voos secretos da CIA com prisioneiros, o ordenamento de sanções económicas que fazem morrer civis aos milhares, o faz-o-que-eu-digo-não-faças-o-que-eu-faço, a infindável exploração e manipulação económica dos países pobres pelos países ricos, a imposição dos nossos valores aos outros pela guerra ou por outro meio qualquer, a hipócrita desculpa dos direitos humanos e da liberdade — que serve para tudo e mais alguma coisa—, e em que é institucionalmente aceite que o julgamento dos responsáveis por tudo isto e infelizmente muito mais, se faça nas urnas. Bush filho, é responsável até agora pela morte de perto de 650.000 iraquianos e… E nada.
A abstenção, expressa a total descredibilzação naquilo em que se tornou este sistema político e não apenas nas marionetas de carne que se sentam no parlamento. Ora, isto, parece-me importante. Tão importante, que é importante meter na cabeça das pessoas que a abstenção é um acto desprezível, irresponsável, nada democrático, esse conceito intocável e que, sem ser perfeito, todos concordam, é o melhor que se pode arranjar. Não é com certeza, mas fazer acreditar que é, faz parte do Truman Show em que vivemos.
Voltando à abstenção no referendo da Despenalização da I.V.G., existe, presentemente, um número considerável de pessoas que não pretende ir votar e fazem-no conscientemente, já resolveram isso a meses do acto. Será que estão a planear ir para a praia (seus irresponsáveis!), ou quererão dizer qualquer coisa? Do género não quero o referendo ou estou tão desiludido, que, olha, mesmo que chova, vou para a praia.
A abstenção é um acto que não pode continuar a ser ignorado, muito menos desprezado, pois ela expressa uma convicção e uma vontade de mudança maior do que os eleitores votantes engolidores de sapos (e se os há aos milhares), que apenas expressam a vontade de mudança das marionetas e expressam demasiadas vezes, um do-mal-o-menos. A abstenção quer um vamos-fazer-melhor, quer uma ruptura, e abrirá um dia caminho para uma revolução feita em moldes modernos, dando origem à construção de um sistema político diferente e com certeza melhor do que aqueles que conhecemos. A isto se chama evolução.