Jazz e o colete


Facto constatado ainda neste Verão no Estoril Jazz, músico de corneta não larga o seu colete (preferencialmente étnico, branco e negro, com um padrão a lembrar os bonequinhos de Keith Harring).
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Facto constatado ainda neste Verão no Estoril Jazz, músico de corneta não larga o seu colete (preferencialmente étnico, branco e negro, com um padrão a lembrar os bonequinhos de Keith Harring).
Como me iria custar cerca de 125 Euros ver isto ao vivo … Keith Jarrett no CCB algures em Novembro. Em seu tempo, disse que nunca mais voltava a tocar em Portugal devido a uns ataques de tosse da plateia do Coliseu - isto no tempo em que se podia fumar em concertos - tudo esquecido graças a uma ligeira inflação de preços que faz dos mais arredados pianistas de jazz reconsiderar o seu asco à pátria lusa. Enfim, 125 Euros deve dar para comprar boa parte da discografia do afamado artista, mesmo tendo em conta os preços da ECM. Nota adicional: parece que ouvir repetidamente as gravações do concerto de Colónia fez com que a escritora Margarida Rebelo Pinto acelerasse o seu aparo para a literatura. Aconselha-se o caro leitor a afastar-se da folha em branco, não lhe vá dar um ataque semelhante. Para a nossa Guida Pinto, se for preciso envio uma cópia do dito, que o teu aparo tem estado muito parado.
Tenho que acabar este como. Como assisto ao debate (educado) sobre mortes e guerras (entre teorias de conspiração e aspectos sombrios), neste dia que anoiteceu às oito, que acordou cinzento, que anuncia o Outuno, dias de praia já vestidos, deixo um autumn leaves sempre perfeito. O mais que perfeito na versão de Julian "Cannonball" Adderley com Miles Davis em Somethin’ Else de 1958.
Que gozo isto do You Tube!
Já não sei pôr o player a funcionar, mas tenho o link com um pequeno extracto da faixa Italy. É só salvar e ouvir.
… e nao estou a falar dos anúncios da Netcabo.
Gosto de ouvir musica. Música no carro, música para trabalhar (vá lá que já se acha politicamente correcto usar o i-pod no trabalho, cria uma certa bolha de isolamento que permite concentrar … e efectivamente trabalhar).
Toda esta actividade frenética de ouvinte requer a sua alimentação. Na deambulação pelos bastardos e filhos bastardos por vezes vou perdendo o entusiasmo para ouvir mais. Mais do mesmo, nem carne nem peixe, grande seca (ou a insuportável faixa da mediania). Mas atenção, porque há, sempre houve, coisas fantásticas que nos passam ao lado e que mais tarde pelos misteriosos caminhos do Senhor vêm ao nosso encontro. Artistas que só vimos a conhecer passado 30 anos da sua morte (como o Nick Drake), o Hard Core dos Pulp (que só ouvi este ano), a discografia completa dos Smiths (e isso será todo um outro post aparte, a minha conversão ao Saint Morrisey. Custou muito, mas foi).
Na secção "Ele há coisas fantásticas" descobri uma banda nova lançada pelo Michael Gira e a Young God Records: «Akron/Family are four extremely nice, sincere and well-mannered young men from rural America who came to NYC (in 2002) to make music, hoping to find a thread of real magic still winding through this city’s music scene».

Pela prata da casa, neste caso do Devendra Banhart, os Akron/Family foram prontamente catalogados nessa categoria catita a que se chama "freak folk". Vou mais pelo mypspace da banda - Psychedelic / Bluegrass / Comedy - pricipalmente porque é um lugar onde a a música tradicional americana está bem presente, quer seja pela sobreposição de vozes, quer pelos instrumentos (guitarras acústicas, violinos, banjos, piano, o que não os impede de inserir elementos estranhos a este mundo), quer pelos temas sentimentais a roçar gospel ou blues. A grande novidade desta banda é o destaque dado à experimentação (daí o psicadelismo e mesmo a comédia). À semelhança do que se faz nos Arcade Fire, os elementos da banda são multi instrumentistas e vocalistas, e volta meia lá vem um pequenos caos como sucede em "Part of Corey", "Sorrow Boy", no final do "Running, Returning", "Before and Again" com uns toques electrónicos minimalistas à la Radiohead, bits and pieces que os tornam diferentes. Talvez o ponto de referência mais próximo que encontro são os Animal Collective, mas com linhas melódicas mais simples e bonitas se possível. O que ouvi até agora foi o álbum homónimo da banda (Akron/Family de 2005), que fez despertar essa expressão do Arquimedes, Eureka, ela há coisas fantásticas.

Este sábado Lisboa recebeu "a melhor banda de rock do mundo". Compreende-se que depois dos "filhos bastardos de Ian Curtis" e dos "enteados do Libertines" a Radar já tem poucos elogios para cada banda que actua em Portugal. Temos que expandir horizontes pessoal, a melhor banda da abóbada celeste, o trio mais poderoso do universo …
Os primeiros que ouvi actuar neste sábado no Lisboa Sounds(z) foram os she wants revenge (albúm, um original she wants revenge), bastardos de Ian Curtis, parecem bastardos do Interpol (que por sua vez já eram bastardos também do Ian Curtis, mais uma vez o universo e efeito do eterno retorno), daqui adiante passaram a ser denominados apenas por bastardos. Os bastardos até não se portaram mal, as músicas estão na fronteira do electro/rock/bastarda, pena serem tão parecidas umas com as outras. Claro que chegas à única música que reconheces (realmente estes singles tem a sua razão de ser, os únicos de jeito até fazem a malta dançar) e os bastardos ficaram contentes e nós também.
Actuação seguinte: Dirty Pretty Things. Três guitarras a querer berrar mais que as outras, uns quantos yeah e muita reminiscência dos Libertines só chegam para criar uma amálgama de sons. Dos festivais que fui lembro-me de actuações como os The bravery ou dos Hot Hot Heat e aquilo não cola. Ao ouvir no rádio até consideras que pode ser promissor mas ao vivo são uma nódoa. Não se distinguem letras, instrumentos, apenas barulho e um single que lhes dá nome de bastardos de qualquer coisa.
Finalmente, meia noite e meia e chegamos a um outro campeonato (como disse a minha companhia). Strokes são uma boa banda, ainda que curiosamente tenham começado a sua promissora carreira também por serem acusados de estarem na onda do revivalismo de rock (como os White Stripes, mas foi um estigma bem ultrapassado) e em boa hora conquistaram o apreço de fãs e críticos. E deram um grande concerto: o baixo era um baixo, a guitarra guitarra (lindo, pleonasmos), boa bateria, boa voz e tudo muito bem treinadinho. A força do álbuns vêm de temas de três minutos, intensos, bem ritmados que ao vivo dão a impressão da precissão de um relógio. Com isto quero dizer que os temas acabavam como se desligasse a corrente, todos os instrumentos no mesmo nano segundo. Ficava bem, digo-vos. E de excelentes singles ( Juicebox/ The End Has No End/ Red Light/ The Modern Age/ Heart in a Cage/ Electricityscape/ IsThis It/ The Ize Of The World/ Someday/ Hard To Explain/ You Only Live Once/ Last Nite/ Ask Me Anything/ Vision of Division/ Reptilia/ 12:51/ New York City Cops/ Take It Or Leave It - alinhamento retirado do sempre bem informado Forúm sons) faz-se um grande concerto. Parece simples mas não é. As duas primeiras actuações provaram bem isso, a perfeição do single de três minutos só está mesmo ao alcance de uma das melhores bandas de rock actual (vá, entre as bandas que actuaram dia 22 de Julho em Lisboa na Doca Santos).
Em vez de me lamentar "meus Deus, que horror" que não vou ver os Franz Ferdinand pela terceira vez, ou Deus pela … terceira vez também… ou mesmo The Cult pela segunda ( e estes não lamento), apontar antes baterias para 22 de Julho na Docapesca de Lisboa dia em que, pela primeira vez…
The Strokes + Los Hermanos + Isobel Campbell (ex-violencelista dos Belle & Sebastian) + She wants revenge (querem sempre)
Por acaso até lamento um bocadinho pelos Editors, mas 38 Euros terão melhor serventia neste dia. Noto agora que insistir em não ver Deus pela terceira vez é um pouco Tomé da minha parte.
Por acaso estava a ouvir Bang, Bang, Rock & Roll dos Art Brut enquanto lia no Y do Público que iam tocar esta noite a Leira. Não gosto nada quando me avisam destas coisas em cima da hora.
Bang Bang está cheio de declarações entusiásticas e juvenis ("got myself a brand new girlfriend …and I’ve seen her naked… twice!" ; "we formed a band …who writes the song that makes Israel and Palestine get along"), pouco mais que guitarra/bateria a abrir e de uma voz gritada mais que cantada. Mas têm piada, são divertidos, são até eternecedores como em "Emily Kane".

Bang bang faz-me lembrar outro nome, o muito soado na rádio "Bang, Bang you’re dead" dos Dirty Pretty Things, grupo supostamente do ex-guitarrista dos The Libertines (grupo a que tenho voltado muito, agora que a falta de orçamento me impede de seguir o culto da novidade. Mas também, sejamos francos, não há nada de muito bom a ser editado). E embora este bang bang até entre bem, não sei, parece-me bastante pateta para uma música que se quer promocionar. É que há pouco mais na letra que bang bang you’re dead.
Bang para avisos em cima da hora.

Pode-se ouvir o novo álbum de Morrisey Ringleader of the Tormentors ( título que me evoca as cartas do Magic) , à venda a partir da segunda feira, aqui e aqui . Ambos os casos obrigam ao registo no site.
Sabem que o mundo do rock também vive à custa destas coisas: ah não gosto de ti, afinal gosto, vou cortar-te aos bocadinhos (isso é mais no hip hop), és um maricas, és uma fraude, têm que se provar - o lado novela/faca alguidar que faz as suas manchetes no NME.

Hoje faço copy paste de uma declaração de Saint Morrissey que não perdeu o jeito para os elogios carinhosos nem a oportunidade de fixar os The Smiths como paradigma.
«I actually quite like the Arctic Monkeys and whatever I said was said with tender, avuncular concern. I hope to God I didn’t upset their grannies," he added.
"In any case, I was wrong about their success being too sudden and without any dues paid, because that’s exactly how it happened for The Smiths. So, I really should shut it.»