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June 22, 2007

res amissa

[Arquivado em: Geral, IC 19]

Os dias já estão a ficar mais pequenos.

October 30, 2006

ultra modum, sine causa II

[Arquivado em: Geral, IC 19]

Outra vez a gripe das aves. Esse terrível flagelo ameaçador que, a existir, poderia infectar quatro milhões de portugueses. É o que diz um estudo do Observatório Nacional de Saúde que «procurou avaliar o efeito de uma epidemia em que o vírus afecte 40 pessoas em cada cem com as quais contacta». 40 em 100 dá 4 milhões em 10 milhões, certo? Quarenta por cento. Podiam ter-me perguntado. Um cientista do Observatório «estimou que numa primeira fase, mais branda, cerca de um milhão de portugueses pode vir a ser infectado pelo vírus, um valor que aumentaria para três milhões numa segunda onda pandémica». E até calcula o número de consultas que o Serviço Nacional de Saúde (actualmente alvo de uma fatwa do Governo) prestará (se ainda existir nessa altura): «será solicitado em 1,9 milhões de consultas na primeira ronda e que na segunda fase a procura vai subir para mais de três milhões». Também se estimou o grau de absentismo laboral que a pandemia poderia provocar, «tendo sido apresentado o exemplo de uma empresa com cerca de 400 trabalhadores, dos quais 81 por cento são mulheres». Aí, «é possível prever uma taxa de absentismo de 38 a 40 por cento». 40 por cento. Estão a ver? Isso num cenário hipotético em que o vírus afectasse 40 pessoas em cada cem. Quarenta por cento, portanto.

October 3, 2006

vexata quaestio

[Arquivado em: Geral, IC 19]

Ninguém me perguntou nada, mas isto é um blogue. E um blogue, caramba!, serve para postarmos opiniões banais sobre coisas insignificantes ou então é ao contrário, que é outra forma de dizer o mesmo.
Portanto, ninguém me perguntou nada (nem a mim nem aos gajos blogueiros que andam para aí a postar sobre tal & tal e eles fazem-no), mas eu sinto-me na obrigação de preencher este vazio etéreo com o meu tagarelar. Devo dizer que esta vontade de dizer coisas, que se vai concretizando à medida que dedilho este teclado da Compaq e olho o resultado no monitor da mesma marca, é-me auto-imposta. Sou eu próprio quem acha que deve escrever o que penso de uma coisa que, ou decorre a milhas e milhas de distância, ou cuja existência eu só me apercebi ontem, ou acerca de um tema específico alheio às minhas prosaicas preocupações, mas, sempre, sobre a qual não tenho a mínima influência. Ninguém me perguntou nada. Nem eu próprio, na verdade. Eu também acho que a minha opinião (é certo que fundamentada com o coração e com a razão e iluminada pela fé) de nada vale, mas sinto que tenho uma obscura e inexplicável missão de a exprimir e de a abandonar neste oceano gigantesco de opiniões irrelevantes e sem consequências. Como um conselho atirado a peixes poluídos.
Às vezes ainda dou por mim a ponderar um qualquer arremedo de raciocínio, a procurar uma lógica e uma coerência que se pressinta no poste, que seja apreensível para um certo nível de leitura de um certo nível de leitor que por acaso aqui passe. Mas não vale a pena. Se assim fizer desvirtuo (ou melhor, virtuo) o poste e a ideia de blogosfera – que se caracteriza, grosso modo, pela abundante fecundidade de opiniões irrelevantes, de opiniões inspiradas nas conversas de café ou inspiradas nos bocejos atirados nos transportes públicos, de opiniões recicladas e requentadas, mas sob forma escrita. Eu tenho muitas e profundas reflexões inovadoras sobre acontecimentos importantíssimos e actuais, mas não os vomito neste blogue, não só por respeito aos meus colegas blogueiros deste espaço, mas também porque não é este o local apropriado para o fazer. Por exemplo, eu sei, eu acho que sei (tenho quase a certeza que sei) a razão pela qual o Papa resolveu acicatar os radicais muçulmanos. Sim, não foi um lapso… Da mesma maneira que sei (mas aqui sei mesmo) por que razão o Papa decidiu irritar os intelectuais do ocidente. Mas não posso explicar aqui, porque isso implicaria a exposição de um pensamento, de um raciocínio, de uma cogitação, incompatíveis com a vacuidade cibernética.  
Tenho, então, de me limitar a escrever banalidades à medida que me saem dos dedos e do cerebelo e depois, antes de publicar o poste, substituir as palavras difíceis por outras mais fáceis. Mas isto não é lhano. Não só porque me inibo de escrever os meus profundos pensamentos sobre temas sobre os quais me dignei pensar mais de dez segundos seguidos, mas também porque tenho de me disciplinar de modo a alvitrar opiniões sobre a restante generalidade de temas, sobre os quais nunca tinha pensado. Ora, este grande passatempo nacional (o de emitir instantaneamente opiniões sobre qualquer assunto) é o suporte da blogolândia.
Então aqui vai: eu, se fosse brasileiro, votava no Lula.

August 25, 2006

ad litteris et verbis

[Arquivado em: Geral, IC 19]

O mail deles:
Assunto: Alteração da Opção de Pagamento de Cartão de Crédito
Exmo(a). Sr(a). PEDRO Fxxxx Pxxxxx Pxxxxx,
Conforme solicitado, informamos que foi efectuada a alteração da percentagem de pagamento do saldo do seu cartão Universo, de 100% para 50%. 
Esta alteração terá efeito a partir do próximo extracto.
Com os melhores cumprimentos,
BPI.
www.bancobpi.pt
Os e-mails enviados pelo BPI têm sempre um carácter informativo, pelo que em nenhuma situação será solicitado qualquer acesso ao Serviço BPI Net, validação de Chaves de Acesso Nome de Acesso e Código Secreto ou Dados Pessoais.
_________________________________________________   
A minha resposta:
Exmo. Senhor BPI
É pela terceira ou quarta vez que me envia um mail dirigido a um senhor(a) chamado(a) PEDRO Fxxxx Pxxxxx Pxxxxx: ou para anunciar produtos vossos ou para lhe desejar um bom aniversário.
Uma vez que eu não conheço o sujeito em questão - mas, a julgar pelo nome, suspeito que seja um homem, pelo que considero a vossa hesitação em relação ao género do vosso cliente um pouco ofensiva -, não posso, com muita pena minha, reencaminhar-lhe o mail. 
Sugiro, então, que, de uma vez por todas, actualizem os dados desse vosso cliente, corrigindo o seu endereço electrónico. É que, como já vos comuniquei por três vezes, este (cc@sapo.pt) é meu e eu não tenho interesse algum em ter informações (porventura sujeitas ao sigilo bancário de que tanto gostam) sobre terceiros.
Cumprimentos e um bom proveito dos vossos lucros obscenos.
Carlos Cunha

August 23, 2006

conscientia fraudis

[Arquivado em: Geral, IC 19, Sociedade]

Era uma vez um humilde génio que queria ter acesso à Internet em sua casa. Depois de comprar uma casa tão modesta e bela quanto ele, e após  o calvário das pequenas obras no interior da casa (e dele próprio, mas para o caso não interessa), chegou à graça de uma habitação condigna, sem com isso ofender ninguém. Em duas das duas divisões previu a imprescindível ligação para as tomadas de telefone.
Para efeitos de activação do Serviço Clix ADSL, que oscila entre a “oferta” de 16 ou 20 megas, consoante a  publicidade seja mais ou menos séria, eu o génio belo e humilde recebeu em 8 de Junho de 2006 um e-mail da Clix, informando-meo que «no dia 2006/07/04 de manhã será efectuada a instalação da sua linha telefónica», pelo que solicitavam o acesso à sua residência, «assegurando a sua presença». Já no dia anterior (no dia 7 de Junho), este filho de Deus havia recebido um telefonema, uma carta e um sms a dizer o mesmo, todos remetidos pela Clix.
Foi o que fez, então. Tirou à Nação meio dia de férias e esteve em casa toda a manhã. Em vão, contudo. Não só ninguém apareceu, como ninguém (da PT ou da Clix) se dignou informá-lo que a tripla comunicação anterior tinha o mesmo efeito de uma promessa eleitoral do Engº Sócrates. Ou seja, afinal não era bem assim.
Reclamou para o número de apoio ao cliente (808102030), onde lhe disseram que talvez a instalação tivesse sido feita sem necessidade de ele se encontrar em casa – ao contrário do que lhe tinham dito por carta, sms e por e-mail. Que esperasse 5 dias úteis por um contacto dos "colaboradores" da Clix (nos nosso tempo, da Novilíngua, já ninguém é trabalhador, somos todos colaboradores; também ninguém é despedido – há é recursos dispensados; e o povo, perdão, a sociedade civil, pouco conta), para terminar a intervenção. Foi o que fez, então. Em vão, contudo. Ninguém apareceu.
Entretanto, recebeu um telefonema de um funcionário (ou “colaborador”, não sei bem) da PT a perguntar por que razão não estava em casa: sem aviso prévio, encontravam-se à sua porta para instalar a linha telefónica.  Ah! ah! Afinal era preciso lá estar… Mas como ninguém avisou o cidadão do novo dia em que lá se deslocavam (nem a PT nem a Clix) e o belo génio, apesar da sua superior inteligência (e sensibilidade e humildade e beleza) não tem premonições desde os onze anos, foi trabalhar para o emprego e não estava em casa. Erro. Deveria ter tirado uma licença sem vencimento e nunca se ausentar de casa, para não o apanharem desprevenido.
Reclamei Reclamou novamente para o mesmo nº de apoio ao cliente. Disseram que, afinal, a PT não tinha ido a sua casa na data combinada e triplamente anunciada pela Clix (coisa que o belo génio já tinha descoberto) e que iriam noutro dia e que , com toda a certeza, o avisariam da nova data ainda nessa semana. Que aguardasse. Foi o que fez, então. Em vão, contudo. Ninguém o contactou.
Reclamou então, mais uma vez para o mesmo nº 808102030. Pediram desculpa. Iam marcar com a PT novo dia e diziam-melhe qualquer coisa nos próximos dias. Que aguardasse novamente. Foi o que fez. Em vão, contudo. Ninguém o contactou.
Contactou este vosso amigo uns dias depois, para o tal nº de apoio ao cliente. Parece que já tinham pedido à PT para vir a sua casa proceder à prometida instalação da linha telefónica. O pedido fora remetido à PT em 17/Julho/2006 (progresso: era a primeira vez, desde a mentirosa informação em triplicado, que havia uma informação concreta).
Passou mais de um mês e não sabemos ainda se e quando alguém irá instalar a linha telefónica na habitação desta vítima do capitalismo. Ninguém lhe diz nada. Nem a PT nem a Clix. Nem o Sócrates, que, afinal, aumentou o IVA. Provavelmente este processo de activação do Serviço Clix ADSL tem sofrido muitas evoluções, mas a política da empresa é manter os clientes ignorantes sobre os meandros do seu não funcionamento.

Se a Clix fosse um serviço público, prestava-se bem à cassete do mau funcionamento da Administração Pública, à gritante ineficiência dos serviços do Estado (face às maravilhas dos privados), à mais que provada incompetência de todos os funcionários públicos (o que não acontece nos privados), às cunhas (que os privados não têm), aos compadrios (que os privados não têm) ou às listas de espera (que os privados não têm), às preguiças do funcionário (o que não acontece no privado) que, em vez de fingir que é um super-homem, dá atenção ao que lhe diz o colega que faz uma pausa, porque tem o dele certo ao fim do mês, à falta de respeito para com quem paga impostos (o que não acontece nos privados), em suma, à inépcia do sistema público, para onde só quem arranja emprego são os indolentes ou os mal educados.
Mas a Clix é uma empresa privada, pertencente ao maior (e moderno e eficiente e eficaz e sei lá que mais) grupo empresarial privado português, onde tudo é repleto da qualidade e «profissionalismo, transparência, credibilidade,  eficiência, confiança, liderança, humanidade», que os privados sempre oferecem, no melhor dos mundos que só o mercado totalmente livre das obtusas regras do Estado pode garantir, neste paraíso de virtudes que são todos os serviços privados.

July 10, 2006

ex facto oritur jus

[Arquivado em: Geral, IC 19]

Não há mal que não acabe e, assim, com um alívio profundo, acabou o torneio de futebol que transformou o país num carnaval histérico. Toda a gente ficou feliz com o regresso dos heróis portugueses e com a sua partida para férias, de onde partirão novamente para os lugares civilizados onde jogam à bola.
Agora (quase) toda a gente continua feliz, mas por uma triste e invejosa razão: a França não ganhou a Taça. Isto porque a França teve o desplante de, jogando a passo, ser superior aos nossos “heróis” e ganhar à selecção de todos vós sempre na maior das calmas - coisa que a Itália não fez, mas apenas por falta de oportunidade. E ganhar aos nossos heróis não é coisa que se admita. Como é possível não reconhecer a humilde excelência da selecção portuguesa e… vencer-lhe um jogo?
Como se sabe, a histeria é uma neurose complexa, caracterizada pela instabilidade emocional (conversão, dissociação), com repercussões físicas (somáticas) nos seus portadores, que se manifestam em sintomas vários, como a cegueira, a surdez, a paralisia, etc. É possível, assim, perante os mesmos factos, não ver o que lá está e ser-se dominado pela romântica subjectividade emocional que tolhe o entendimento. O histérico, por ser muito sugestionável, idealiza sintomas de acordo com aquilo que representa de verdadeiro. Significa isto que a doença é simultaneamente involuntária e intencional.
Dos factos, conclui-se que a maravilhosa selecção nacional cumpriu os serviços mínimos na fase de grupos: ganhou às emergentes potências do futebol mundial (Angola e Irão) e a um colosso da América Latina (o México). Seguiu em frente, nos caminhos da glória anunciada.  
E mesmo se nenhum facto é tão puro que seja definitivo, como escreve Gonçalo M. Tavares, parece haver alguns dados mais ou menos objectivos, que um não-histérico pode comprovar. E, dos quatro jogos que “Portugal” fez depois da fase de grupos, apenas ganhou um, pela diferença mínima (à Holanda), empatou outro (Inglaterra) e perdeu os últimos dois (França e Alemanha).
Uma vitória, um empate e duas derrotas. Somos ou não somos campeões?

March 20, 2006

sic transit

[Arquivado em: Filosofia, IC 19]

IC 19Continua a não haver sítio mais apropriado para alcançar a plena redenção da liberdade a que fomos condenados do que a 2ª Circular e o IC 19. Além do contacto demasiado humano com os nossos companheiros de cela, da estóica ginástica das virtudes morais da prudência e da fortaleza, das lições práticas de tanatologia e entomologia e da reflexão sobre a pouca relatividade do espaço e do tempo, ganha-se músculo existencialista para a arte de suportar esta noite escura.

Prometo, no entanto, não voltar a este assunto.