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October 3, 2006

vexata quaestio

[Arquivado em: Geral, IC 19]

Ninguém me perguntou nada, mas isto é um blogue. E um blogue, caramba!, serve para postarmos opiniões banais sobre coisas insignificantes ou então é ao contrário, que é outra forma de dizer o mesmo.
Portanto, ninguém me perguntou nada (nem a mim nem aos gajos blogueiros que andam para aí a postar sobre tal & tal e eles fazem-no), mas eu sinto-me na obrigação de preencher este vazio etéreo com o meu tagarelar. Devo dizer que esta vontade de dizer coisas, que se vai concretizando à medida que dedilho este teclado da Compaq e olho o resultado no monitor da mesma marca, é-me auto-imposta. Sou eu próprio quem acha que deve escrever o que penso de uma coisa que, ou decorre a milhas e milhas de distância, ou cuja existência eu só me apercebi ontem, ou acerca de um tema específico alheio às minhas prosaicas preocupações, mas, sempre, sobre a qual não tenho a mínima influência. Ninguém me perguntou nada. Nem eu próprio, na verdade. Eu também acho que a minha opinião (é certo que fundamentada com o coração e com a razão e iluminada pela fé) de nada vale, mas sinto que tenho uma obscura e inexplicável missão de a exprimir e de a abandonar neste oceano gigantesco de opiniões irrelevantes e sem consequências. Como um conselho atirado a peixes poluídos.
Às vezes ainda dou por mim a ponderar um qualquer arremedo de raciocínio, a procurar uma lógica e uma coerência que se pressinta no poste, que seja apreensível para um certo nível de leitura de um certo nível de leitor que por acaso aqui passe. Mas não vale a pena. Se assim fizer desvirtuo (ou melhor, virtuo) o poste e a ideia de blogosfera – que se caracteriza, grosso modo, pela abundante fecundidade de opiniões irrelevantes, de opiniões inspiradas nas conversas de café ou inspiradas nos bocejos atirados nos transportes públicos, de opiniões recicladas e requentadas, mas sob forma escrita. Eu tenho muitas e profundas reflexões inovadoras sobre acontecimentos importantíssimos e actuais, mas não os vomito neste blogue, não só por respeito aos meus colegas blogueiros deste espaço, mas também porque não é este o local apropriado para o fazer. Por exemplo, eu sei, eu acho que sei (tenho quase a certeza que sei) a razão pela qual o Papa resolveu acicatar os radicais muçulmanos. Sim, não foi um lapso… Da mesma maneira que sei (mas aqui sei mesmo) por que razão o Papa decidiu irritar os intelectuais do ocidente. Mas não posso explicar aqui, porque isso implicaria a exposição de um pensamento, de um raciocínio, de uma cogitação, incompatíveis com a vacuidade cibernética.  
Tenho, então, de me limitar a escrever banalidades à medida que me saem dos dedos e do cerebelo e depois, antes de publicar o poste, substituir as palavras difíceis por outras mais fáceis. Mas isto não é lhano. Não só porque me inibo de escrever os meus profundos pensamentos sobre temas sobre os quais me dignei pensar mais de dez segundos seguidos, mas também porque tenho de me disciplinar de modo a alvitrar opiniões sobre a restante generalidade de temas, sobre os quais nunca tinha pensado. Ora, este grande passatempo nacional (o de emitir instantaneamente opiniões sobre qualquer assunto) é o suporte da blogolândia.
Então aqui vai: eu, se fosse brasileiro, votava no Lula.

September 19, 2006

in principio creavit Deus caelum et terram

[Arquivado em: Geral, Filosofia]

Não se pode falar dessas coisas. Não se pode falar de razão quando se fala da fé nem se pode falar de dúvida quando se fala de ciência. De um lado e de outros, erguem-se os guardiões das verdades supremas que não gostam de perguntas. Do lado de lá, os notários do Alcorão fixam jurisprudência para sedimentar a evolução controlada dos modos certos de pensar e de viver, num frenesim positivista que envergonharia os burocratas do século XIX. Dos lados de cá, as testemunhas de oxalá (como lhes chama o lúcido Tiago Cavaco), esquecidos dos antigos dogmas científicos agora fora de moda, tentam evangelizar o universo com a absoluta certeza de hoje às 22:35 h. que o acaso original é tão-só um milagre da improbabilidade matemática.

Ora, sendo a fé que comungo feita de dúvidas, de ausências e de silêncios, não me posso dar ao luxo fundamentalista de prescindir da razão como meio de olhar o mundo e tentar compreendê-lo. Como escreveu Unamuno, «uma fé sem dúvidas é uma fé morta». E também não me restam muitas hipóteses. Podia contentar-me com o emotivismo dos sofridos adeptos das seitas universais ou com o conforto psicológico da burguesia ociosa da new-age, mas não vai com o meu feitio. Não me esqueço que sou descendente de Tomé e tento seguir Cristo («meu Deus, porque me abandonaste? – Mc. 15,34)». Mas não se pode falar disso, que ofende.

Do mesmo modo, uma ciência que se arroga à exclusividade do saber e do conhecimento sofre da irritante auto-estima adolescente, que acha que sabe tudo e não precisa de mais nada. Esquece o seu passado de erros, erros e erros, de incertezas, dúvidas e contradições, e da panóplia de certezas de ontem que, afinal, já não o são. O discurso científico tem isto de comum com a política e o futebol: o que é verdade hoje ou visto deste lado é mentira amanhã ou se visto do outro lado por ele próprio. Mas não se pode falar disso, que melindra as sucessivas e sempre perfeitas e definitivas "teorias da ciência".

Não se pode falar disso. Não se pode falar das verdades mesmo verdadeiras que, afinal, não são. São verdades relativas, afinal. Afinal o sol não está no centro do universo, afinal a terra não está parada, afinal o sol também não está parado, afinal o tamanho do cérebro não prova a superioridade da raça ou a índole criminosa do seu portador, afinal a lobotomia não é grande coisa, afinal os medicamentos fazem mal, afinal o átomo não é indivisível e até se pode cindir e assim matar pessoas aos magotes, afinal o universo expande-se, afinal a cerveja, o vinho e o café fazem bem, afinal não morreram 142.000.000 de pessoas no ano passado de gripe das aves (foram menos de 50), afinal Plutão é um planeta, afinal Plutão já não é um planeta, afinal não tenho glaucoma.

Não se pode pensar nem ter dúvidas. Falar de razão na fé a um fanático religioso é o mesmo que falar da dúvida a um homem de ciência. Reagem ambos aos pulos. O que não se conhece é uma ameaça, seja sob a forma de blasfémia, seja sob a forma de… treta.

September 7, 2006

ultra modum, sine causa

[Arquivado em: Geral, Filosofia, O bem e o mal]

Pluto and Charon are tough to see even with the best telescopes.O capitalismo é um mundo mágico e onírico, cheio de poesia e de uma permanente e excitante diversão.
O capitalismo invade um país porque ele, digamos…, tem (e não podia ter) armas de destruição em massa – provas mostradas a toda a gente que as conseguiu ver (na ONU, por exemplo, viram-se uns camiões a rodar no deserto: está mais que provado) – e ameaça outro pela mesma razão (à falta de outras). Mas, com a mesma lógica dos astrólogos modernos que descobriram em Plutão um planeta extremamente influente no que toca às transformações mais profundas do ser e das sociedades, que é mesmo regente de um signo (escorpião), e de algumas partes sensíveis no corpo humano (o aparelho reprodutor, os órgãos sexuais, o ânus, e também os anticorpos e o sistema de defesa do organismo) e sempre ignoraram a “influência” de Xena (maior que Plutão) ou as luas de Saturno e Júpiter (muuuuuuuiito mais perto), também o capitalismo deixa em paz um outro país que já mostrou ter armamento nuclear. É que o respeitinho é muito bonito e não há petróleo na Coreia nem por lá passará nenhum oleoduto.
Claro que eu falo assim porque o capitalismo permite-me ler jornais, estar informado, comprar calças de ganga, ir ao cinema e comer sushi, coisa que os outros sistemas políticos não permitem. Não há mesmo relatos de, por exemplo, no sistema feudal, alguém ter sido feliz.  
Outra razão que me permite arrevesar palavras contra a mão que me alimenta é que, conforme me confirmaram recentemente, eu sou regido pelo planeta HD 149026b, que está a 250 mil anos luz do sistema solar, e, portanto, posso manifestar dúvidas sobre as prosápias americana e inglesa (versão 2006) sobre os talibans (ex- mujahidin), o Iraque libertado e o Irão ameaçador.
Mas, do capitalismo, da versão santana lopes menino-guerreiro do capitalismo, guardo com saudade a histeria da gripe das aves do ano passado, em que nos foi impingido o pânico de um virus e de uma pandemia que «poderia matar 142,2 milhões de pessoas». Só em Portugal batiam a bota (ou mais adequadamente, esticavam o pernil) 13 mil compatriotas. Todos estes estudos eram apresentados como  “independentes”, mas sem grandes referências concretas ao seu método e conclusões obtidas. A comunicação social mundial, como sempre, exerceu muito bem o seu papel de tradução, revisão de textos, tipografia e distribuição. 
Bem, podia morrer muita gente mas, de gripe das aves não morreram mais de cinquenta pessoas em todo o mundo (como todos os anos, aliás). Felizmente, o capitalismo satisfaz instantaneamente as necessidades que ele próprio cria. A Roche comprou a patente de um medicamento salvador à Gilead (empresa do sr. Rumsfeld) e o Tamiflu foi apresentado como o milagre que todos precisavam. Os governos dos países pateto-capitalistas apressaram-se a encomendar milhões de comprimidos, para evitar que morrêssemos todos de gripe avícola. Mais tarde, depois de alguém se lembrar de perguntar se o Tamiflu era mesmo eficaz, a própria Roche veio dizer que, apesar de não ser totalmente eficaz era, o que apresentava melhores resultados… 
Entretanto, alguns cientistas ingratos com a capitalismo que lhes paga o ordenado, regidos por planetas insignificantes, e certamente a soldo de interesses obscuros (nunca deixei de pensar que o Perú estava envolvido), decidem fazer os testes nos seus laboratórios, onde descobrem que o Tamiflu, não só não era eficaz contra o virus que devia combater, como tinha efeitos secundários aborrecidos.
A Roche, enriquecida (mas sem urânio) já nem faz qualquer referência ao Tamiflu e à gripe das aves no seu site. O Iraque não tem nem nunca teve armas de destruição em massa. O Santana Lopes já não é primeiro-ministro. E Plutão não é bem um planeta.

September 5, 2006

Filosofia e Teoria das Probabilidades (aplicável a: encerramento da festa do Avante, possíveis vitórias do Benfica ou se vamos sair da crise económica)

[Arquivado em: Geral, Filosofia]

«-…Continuas marxista?

- Continuo e, justamente, para um comunista, esse texto da aposta é extremamente actual. No fundo, duvido que a história tenha um sentido. Mas aposto no sentido da história, e encontro-me na situação pascaliana. Hip. A: a vida social e toda a acção política são totalmente desprovidas de sentido. Hip. B : a história tem sentido. Não tenho a certeza absoluta que a hip. B tenha mais probabilidades de ser verdadeira que a hip. A. Digo mesmo que tem menos probabilidades. Admitamos que a hip. B só tem 10 % de probabilidades e que a hip. A tem 90%. Mesmo assim, não posso deixar de apostar na hip. B, porque é a única que me permite viver. Admitamos que apostei na hip. A e que é a hip. B que se concretiza, apesar dos seus 10% de probabilidade: nesse caso, desperdicei totalmente a minha vida … Portanto, tenho de escolher a hip. B, porque é a única que justifica a minha vida e a minha acção. Claro que há 90% de probabilidades de me enganar, mas isso não tem qualquer importância.

- É o que se chama a esperança matemática, ou seja, o produto do ganho multiplicado pela probabilidade. No caso  da tua hip. B, a probabilidade é fraca, mas o ganho é infinito, porque, para ti, é o sentido da vida. E para Pascal, a salvação eterna.

Seis contos morais, Eric Rohmer 

Esperança Matemática (E) =Ganho x Probabilidade

E= ∞ x 0,1 = ∞

E = 0 x 0,1 = 0

August 28, 2006

Filosofia segundo Pepe Carvalho

[Arquivado em: Filosofia, Livros]

«-Porqué quemas [los libros]?

- No he nacido para crítico literario. Digamos que los quemo porque me gustó en su tiempo y porque a medida que me hago viejo me da medo sentir algún día la tentación de volver a leerlo.

Fuster selecciona un parráfaro de La Ultima Cinta [Becket] y lee con grandiloquencia cómica:

- Quizá mis mejores años han pasado. Cuando tenía alguma probabilidad de ser feliz. Pero ya no deseo más probabilidades. Y menos ahora que tengo ese fuego en mí. No, no deseo más probabilidades

 Los pájaros de Bangkok, Manuel Vásquez Moltabán

A Filosofia do Pepe Carvalho passa por citar clássicos mas queimar livros porque se quer desprender deles, percorrer as ruas de Barcelona, principalmente as Ramblas, lembrar-se de bons restaurantes à medida que as percorre, alongar-se em descrições do que será uma boa ensaimada ou qualquer outro tipo de enchido e ter páginas e páginas a descrever receitas dos petiscos que faz enquanto resolve casos exóticos ( com uma dose saudável de  mulheres fatais que inevitavelmente o acham mono, o mono que não é um macaco ou gordo - e isto apesar de metada da acção ser passada a comer -  que acabam na cama dele). Esse desdém pela cultura também já o atinjo. Todos os Cds minimantente significativos en su tiempo, estão riscados ou nas caixas erradas. Só me falta cozinhar com aprumo de gourmet, arranjar uma Charo ( a prostituta apaixonada) para as horas de solidão,  ser ex-agente da CIA, um sacana que no fundo é tender loving hooligan. Gosto destes policiais do Moltabán. Quando os começo tudo o resto fica para trás, vejo-me a levar o livro para ler na hora do almoço. São tão bons assim.

 

 

August 25, 2006

ad litteris et verbis

[Arquivado em: Geral, IC 19]

O mail deles:
Assunto: Alteração da Opção de Pagamento de Cartão de Crédito
Exmo(a). Sr(a). PEDRO Fxxxx Pxxxxx Pxxxxx,
Conforme solicitado, informamos que foi efectuada a alteração da percentagem de pagamento do saldo do seu cartão Universo, de 100% para 50%. 
Esta alteração terá efeito a partir do próximo extracto.
Com os melhores cumprimentos,
BPI.
www.bancobpi.pt
Os e-mails enviados pelo BPI têm sempre um carácter informativo, pelo que em nenhuma situação será solicitado qualquer acesso ao Serviço BPI Net, validação de Chaves de Acesso Nome de Acesso e Código Secreto ou Dados Pessoais.
_________________________________________________   
A minha resposta:
Exmo. Senhor BPI
É pela terceira ou quarta vez que me envia um mail dirigido a um senhor(a) chamado(a) PEDRO Fxxxx Pxxxxx Pxxxxx: ou para anunciar produtos vossos ou para lhe desejar um bom aniversário.
Uma vez que eu não conheço o sujeito em questão - mas, a julgar pelo nome, suspeito que seja um homem, pelo que considero a vossa hesitação em relação ao género do vosso cliente um pouco ofensiva -, não posso, com muita pena minha, reencaminhar-lhe o mail. 
Sugiro, então, que, de uma vez por todas, actualizem os dados desse vosso cliente, corrigindo o seu endereço electrónico. É que, como já vos comuniquei por três vezes, este (cc@sapo.pt) é meu e eu não tenho interesse algum em ter informações (porventura sujeitas ao sigilo bancário de que tanto gostam) sobre terceiros.
Cumprimentos e um bom proveito dos vossos lucros obscenos.
Carlos Cunha

August 23, 2006

conscientia fraudis

[Arquivado em: Geral, IC 19, Sociedade]

Era uma vez um humilde génio que queria ter acesso à Internet em sua casa. Depois de comprar uma casa tão modesta e bela quanto ele, e após  o calvário das pequenas obras no interior da casa (e dele próprio, mas para o caso não interessa), chegou à graça de uma habitação condigna, sem com isso ofender ninguém. Em duas das duas divisões previu a imprescindível ligação para as tomadas de telefone.
Para efeitos de activação do Serviço Clix ADSL, que oscila entre a “oferta” de 16 ou 20 megas, consoante a  publicidade seja mais ou menos séria, eu o génio belo e humilde recebeu em 8 de Junho de 2006 um e-mail da Clix, informando-meo que «no dia 2006/07/04 de manhã será efectuada a instalação da sua linha telefónica», pelo que solicitavam o acesso à sua residência, «assegurando a sua presença». Já no dia anterior (no dia 7 de Junho), este filho de Deus havia recebido um telefonema, uma carta e um sms a dizer o mesmo, todos remetidos pela Clix.
Foi o que fez, então. Tirou à Nação meio dia de férias e esteve em casa toda a manhã. Em vão, contudo. Não só ninguém apareceu, como ninguém (da PT ou da Clix) se dignou informá-lo que a tripla comunicação anterior tinha o mesmo efeito de uma promessa eleitoral do Engº Sócrates. Ou seja, afinal não era bem assim.
Reclamou para o número de apoio ao cliente (808102030), onde lhe disseram que talvez a instalação tivesse sido feita sem necessidade de ele se encontrar em casa – ao contrário do que lhe tinham dito por carta, sms e por e-mail. Que esperasse 5 dias úteis por um contacto dos "colaboradores" da Clix (nos nosso tempo, da Novilíngua, já ninguém é trabalhador, somos todos colaboradores; também ninguém é despedido – há é recursos dispensados; e o povo, perdão, a sociedade civil, pouco conta), para terminar a intervenção. Foi o que fez, então. Em vão, contudo. Ninguém apareceu.
Entretanto, recebeu um telefonema de um funcionário (ou “colaborador”, não sei bem) da PT a perguntar por que razão não estava em casa: sem aviso prévio, encontravam-se à sua porta para instalar a linha telefónica.  Ah! ah! Afinal era preciso lá estar… Mas como ninguém avisou o cidadão do novo dia em que lá se deslocavam (nem a PT nem a Clix) e o belo génio, apesar da sua superior inteligência (e sensibilidade e humildade e beleza) não tem premonições desde os onze anos, foi trabalhar para o emprego e não estava em casa. Erro. Deveria ter tirado uma licença sem vencimento e nunca se ausentar de casa, para não o apanharem desprevenido.
Reclamei Reclamou novamente para o mesmo nº de apoio ao cliente. Disseram que, afinal, a PT não tinha ido a sua casa na data combinada e triplamente anunciada pela Clix (coisa que o belo génio já tinha descoberto) e que iriam noutro dia e que , com toda a certeza, o avisariam da nova data ainda nessa semana. Que aguardasse. Foi o que fez, então. Em vão, contudo. Ninguém o contactou.
Reclamou então, mais uma vez para o mesmo nº 808102030. Pediram desculpa. Iam marcar com a PT novo dia e diziam-melhe qualquer coisa nos próximos dias. Que aguardasse novamente. Foi o que fez. Em vão, contudo. Ninguém o contactou.
Contactou este vosso amigo uns dias depois, para o tal nº de apoio ao cliente. Parece que já tinham pedido à PT para vir a sua casa proceder à prometida instalação da linha telefónica. O pedido fora remetido à PT em 17/Julho/2006 (progresso: era a primeira vez, desde a mentirosa informação em triplicado, que havia uma informação concreta).
Passou mais de um mês e não sabemos ainda se e quando alguém irá instalar a linha telefónica na habitação desta vítima do capitalismo. Ninguém lhe diz nada. Nem a PT nem a Clix. Nem o Sócrates, que, afinal, aumentou o IVA. Provavelmente este processo de activação do Serviço Clix ADSL tem sofrido muitas evoluções, mas a política da empresa é manter os clientes ignorantes sobre os meandros do seu não funcionamento.

Se a Clix fosse um serviço público, prestava-se bem à cassete do mau funcionamento da Administração Pública, à gritante ineficiência dos serviços do Estado (face às maravilhas dos privados), à mais que provada incompetência de todos os funcionários públicos (o que não acontece nos privados), às cunhas (que os privados não têm), aos compadrios (que os privados não têm) ou às listas de espera (que os privados não têm), às preguiças do funcionário (o que não acontece no privado) que, em vez de fingir que é um super-homem, dá atenção ao que lhe diz o colega que faz uma pausa, porque tem o dele certo ao fim do mês, à falta de respeito para com quem paga impostos (o que não acontece nos privados), em suma, à inépcia do sistema público, para onde só quem arranja emprego são os indolentes ou os mal educados.
Mas a Clix é uma empresa privada, pertencente ao maior (e moderno e eficiente e eficaz e sei lá que mais) grupo empresarial privado português, onde tudo é repleto da qualidade e «profissionalismo, transparência, credibilidade,  eficiência, confiança, liderança, humanidade», que os privados sempre oferecem, no melhor dos mundos que só o mercado totalmente livre das obtusas regras do Estado pode garantir, neste paraíso de virtudes que são todos os serviços privados.

July 10, 2006

ex facto oritur jus

[Arquivado em: Geral, IC 19]

Não há mal que não acabe e, assim, com um alívio profundo, acabou o torneio de futebol que transformou o país num carnaval histérico. Toda a gente ficou feliz com o regresso dos heróis portugueses e com a sua partida para férias, de onde partirão novamente para os lugares civilizados onde jogam à bola.
Agora (quase) toda a gente continua feliz, mas por uma triste e invejosa razão: a França não ganhou a Taça. Isto porque a França teve o desplante de, jogando a passo, ser superior aos nossos “heróis” e ganhar à selecção de todos vós sempre na maior das calmas - coisa que a Itália não fez, mas apenas por falta de oportunidade. E ganhar aos nossos heróis não é coisa que se admita. Como é possível não reconhecer a humilde excelência da selecção portuguesa e… vencer-lhe um jogo?
Como se sabe, a histeria é uma neurose complexa, caracterizada pela instabilidade emocional (conversão, dissociação), com repercussões físicas (somáticas) nos seus portadores, que se manifestam em sintomas vários, como a cegueira, a surdez, a paralisia, etc. É possível, assim, perante os mesmos factos, não ver o que lá está e ser-se dominado pela romântica subjectividade emocional que tolhe o entendimento. O histérico, por ser muito sugestionável, idealiza sintomas de acordo com aquilo que representa de verdadeiro. Significa isto que a doença é simultaneamente involuntária e intencional.
Dos factos, conclui-se que a maravilhosa selecção nacional cumpriu os serviços mínimos na fase de grupos: ganhou às emergentes potências do futebol mundial (Angola e Irão) e a um colosso da América Latina (o México). Seguiu em frente, nos caminhos da glória anunciada.  
E mesmo se nenhum facto é tão puro que seja definitivo, como escreve Gonçalo M. Tavares, parece haver alguns dados mais ou menos objectivos, que um não-histérico pode comprovar. E, dos quatro jogos que “Portugal” fez depois da fase de grupos, apenas ganhou um, pela diferença mínima (à Holanda), empatou outro (Inglaterra) e perdeu os últimos dois (França e Alemanha).
Uma vitória, um empate e duas derrotas. Somos ou não somos campeões?

May 8, 2006

Ugarit

[Arquivado em: Geral, Filosofia]

Em Ugarit, uma localidade da costa mediterrânica do Médio Oriente, actualmente integrada na Síria (um pouco a norte de Latakia, não sei se estão a ver), foram descobertas em 1948 várias tábuas escritas com o mais antigo alfabeto do mundo. Já não se tratava de hieróglifos, mas sim de letras, cada uma das quais forma um som, à semelhança de qualquer outro alfabeto. As tabuinhas com a escrita mais antiga de sempre (datadas de 1400 a 1300 anos antes de Cristo) não apenas contêm textos religiosos e mitológicos, como também contas comerciais, testamentos, textos de músicas (com ritmos e notas musicais) e pequenas histórias. Foi mesmo encontrada uma tábua com todo o alfabeto de 30 letras, ordenado com vista ao seu ensino.

Não faltam também os aforismos, reflexos da sabedoria ancestral da humanidade - perenes porque fundados na natureza humana. Mais clássico que os clássicos, mais fiéis que as revelações divinas (que são sempre um pouco manhosas, como as alegações dos advogados no final das audiências), as frases mais antigas escritas pela humanidade avisam todos os coevos e descendentes sobre as verdades que só a sageza pode manifestar. Diz um que «uma vida sem luz não merece mais que a morte».

Diz outro, ainda mais trágico: «Não contes à tua mulher onde escondes o teu dinheiro».

March 20, 2006

sic transit

[Arquivado em: Filosofia, IC 19]

IC 19Continua a não haver sítio mais apropriado para alcançar a plena redenção da liberdade a que fomos condenados do que a 2ª Circular e o IC 19. Além do contacto demasiado humano com os nossos companheiros de cela, da estóica ginástica das virtudes morais da prudência e da fortaleza, das lições práticas de tanatologia e entomologia e da reflexão sobre a pouca relatividade do espaço e do tempo, ganha-se músculo existencialista para a arte de suportar esta noite escura.

Prometo, no entanto, não voltar a este assunto.

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