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June 27, 2007

conta-corrente

[Arquivado em: Geral, Livros]

Sem mais delongas (é primeira vez escrevo delongas; olha, agora foi a segunda), e reconhecendo que o assunto tem tanto interesse como as outras coisas que escrevo por aqui, respondo aqui ao amável convite do cbs (não voltes a repeti-lo, caro amigo), confrade prandial na companhia de hereges e meu camarada em Cristo no Trento na Língua, aqui deixo as minhas leituras recentes e presentes.

Neste momento, e ao contrário do habitual, em que não vou além de dois, estou a ler três livros em sinfonia: História do Cristianismo, de Paul Johnson (ed. Imago; ISBN: 853120755X); Ismael – Como o Mundo Veio a Ser O Que É, de Daniel Quinn (ed. Via Óptima, ISBN 972-9360-07-3); e Diagnóstico Psicanalítico – Compreender a Estrutura da Personalidade no Processo Crítico, de Nancy McWilliams (ed. Climepsi; ISBN: 972-8449-99-2).

O primeiro é uma brilhante história do cristianismo, como, aliás o título dá a entender. Segundo os meus amigos protestantes, trata-se apenas de uma história da cristandade (conceito corrompido de uma vivência adulterada do cristianismo), e não do cristianismo em si (coisa imaculada, apenas ao alcance dos mortais desde Lutero, mas prática corrente até ao ano 300). Este livro ajuda a compreender que as coisas são um bocadinho mais complexas e humanas. O segundo, dizem, é um fascinante exercício criativo, que nos dá uma nova mundivisão, uma cosmogonia moral revelada, uma mitologia moderna. Comecei-o ontem, mas já estou agarrado. Quando tiver avançado mais na leitura, faço-te saber, cbs. O terceiro é um manual do diagnóstio dos diversos tipos de carácter (perturbado ou não) e da sua organização, como as operações adaptativas e defensivas do ego, as experiências e as representações internas do self, etc. É um pouco técnico para a minha ignara formação no que-quer-que-seja, mas vai-se lendo. Também, com a má memória que tenho, é indiferente que me custe ou não a ler. No final, não retenho nada.

Ultimamente li alguns livros que merecem referência nesta espécie de corrente: Straw Dogs – Thoughts on Humans and Other Animals, de John Gray (ed. Granta Books). Há edição portuguesa, pela Lua de Papel, mas eu armei-me em parvo e li em inglês. Assim, parece mais profundo. Mas que é cáustico, é. Mesmo em português. Seguindo a moda, também li o histriónico Slavoj Žižek (sempre quis escrever os chapelinhos nos zês) e o seu A Marioneta e o Anão – O Cristianismo entre Perversão e Subversão (ed. Relógio de Água): Outro, O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati (ed. Cavalo de Ferro), uma descoberta tardia deste escritor maior do século XX; A Leste do Paraíso, do grande John Steinbeck (ed. Livros do Brasil, em dois tomos – obrigado, Timshel); e um livro que é toda uma vida, daquelas obras que tiram a vontade de escrever aos medíocres com algum sentido crítico, como eu, O Leopardo, de Tomasi de Lampedusa (biblioteca Visão, a 1,50 € em qualquer alfarrabista ou ainda nalguns quiosques).

Recomendo, por fim, ainda um escritor. Raduan Nassar, graças a quem ultrapassei o meu preconceito para com a literatura brasileira e que me abriu o olhar para um universo literário que, injustamente, ignorava. A inteligente escrita de Nassar é uma bomba de poesia em forma de prosa. Uma revelação. Para quem não saiba, Raduan Nassar abandonou a escrita depois da criação de três obras ímpares na literatura lusófona. Apenas publicou dois romances, Lavoura Arcaica, em 1975, e Um Copo de Cólera, em 1978; e um livro de contos, Menina A Caminho, em 1997 (publicados em Portugal pela Relógio d’Água). Depois de ler Raduan Nassar, resignei-me à minha condição de leitor e caíram por terra quaisquer aspirações, por mais humildes que fossem, de vir a escrever algo que considerasse ser literatura.
Ficam aqui dois contos para incentivar a leitura dos romances e para subverter o conceito de "literatura de férias": Hoje de Madrugada; e O Ventre Seco.

Agora que já demonstrei a pessoa fascinante e interessante que sou (arranjem-me uma vida, por favor!), transmito esta corrente, sem esperança e num passe curto, em jeito de futebol apoiado, aos meus companheiros de blogue Afonso Cruz e Bruno Santos (que me perdoem).

Boas leituras.

February 1, 2007

mais escritos corsários

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«Não existe uma boa razão prática que justifique a supressão de um ser humano, mesmo nos primeiros estádios da sua evolução. Sei que em nenhum outro fenómeno da existência se encontra uma tão furiosa, total e essencial vontade de vida como no feto. A sua vontade de actualizar a potencialidade que é, percorrendo com uma rapidez fulminante a história do género humano, tem qualquer coisa de irresistível e por isso de absoluto e jubilatório. Mesmo se é um imbecil que vai nascer.»

«Os partidários extremistas do aborto (quer dizer, quase todos os intelectuais "esclarecidos" e as feministas) falam deste como de uma tragédia feminina, na qual a mulher está sozinha com o seu terrível problema, como se, nesse momento, todo o mundo a tivesse abandonado. Compreendo. Mas poderia acrescentar que, quando a mulher estava na cama, não estava sozinha. Por outro lado, pergunto-me como é que os extremistas recusam a retórica especiosa da "maternidade" com uma repulsa tão ostentatória, quando aceitam de forma totalmente acrítica a retórica apocalíptica do aborto.»

«Para o macho, o aborto tem uma significação simbólica de libertação: ser incondicionalmente a favor do aborto parece-lhe constituir um brevet de inteligência esclarecida, de progressismo, de ausência de preconceitos e de capacidade de provocação. É, em suma, uma bela chalaça (dá prazer).»

Pier Paolo Pasolini, Escritos Corsários.

January 16, 2007

escritos corsários

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«O aborto legal de facto - sobre isto não há dúvidas - é uma enorme comodidade para a maioria. Sobretudo porque tornaria ainda mais fácil o coito - a cópula heterossexual - para a qual praticamente deixaria de haver obstáculos. Mas esta liberdade do coito para o «casal» tal como é concebido pela maioria - esta maravilhosa permissividade a seu respeito - por quem foi tacitamente desejada, tacitamente promulgada e tacitamente introduzida de maneira irreversível, nos hábitos? Pelo poder do consumo, pelo novo fascismo. Ele apoderou-se das exigências de liberdade, digamos o chavão, liberais e progressistas, e, ao apropriar-se delas, esvaziou-as de consumo, e alterou a sua natureza.»

Pier Paolo Pasolini, Escritos Corsários.

September 5, 2006

Gostei de um livro que este (Sr.) gajo escreveu

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Chamava-se "Outono na Sertã" (capa amarela, igual à do Martin Amis) e tinha piada. Tinha mesmo muita piada. Encontrei-o, o  autor do livro,  num blog - papagaio morto-  e gosto dele, do blog,  porque aflora (manteiga?) alguns momentos geniais. E além disso é do Sporting, que só fica bem. É de direita (daquela direita direita, não a direita PS), que, a nós, até nos fica bem.

August 28, 2006

Filosofia segundo Pepe Carvalho

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«-Porqué quemas [los libros]?

- No he nacido para crítico literario. Digamos que los quemo porque me gustó en su tiempo y porque a medida que me hago viejo me da medo sentir algún día la tentación de volver a leerlo.

Fuster selecciona un parráfaro de La Ultima Cinta [Becket] y lee con grandiloquencia cómica:

- Quizá mis mejores años han pasado. Cuando tenía alguma probabilidad de ser feliz. Pero ya no deseo más probabilidades. Y menos ahora que tengo ese fuego en mí. No, no deseo más probabilidades

 Los pájaros de Bangkok, Manuel Vásquez Moltabán

A Filosofia do Pepe Carvalho passa por citar clássicos mas queimar livros porque se quer desprender deles, percorrer as ruas de Barcelona, principalmente as Ramblas, lembrar-se de bons restaurantes à medida que as percorre, alongar-se em descrições do que será uma boa ensaimada ou qualquer outro tipo de enchido e ter páginas e páginas a descrever receitas dos petiscos que faz enquanto resolve casos exóticos ( com uma dose saudável de  mulheres fatais que inevitavelmente o acham mono, o mono que não é um macaco ou gordo - e isto apesar de metada da acção ser passada a comer -  que acabam na cama dele). Esse desdém pela cultura também já o atinjo. Todos os Cds minimantente significativos en su tiempo, estão riscados ou nas caixas erradas. Só me falta cozinhar com aprumo de gourmet, arranjar uma Charo ( a prostituta apaixonada) para as horas de solidão,  ser ex-agente da CIA, um sacana que no fundo é tender loving hooligan. Gosto destes policiais do Moltabán. Quando os começo tudo o resto fica para trás, vejo-me a levar o livro para ler na hora do almoço. São tão bons assim.

 

 

July 3, 2006

Prosequare

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No livro que estou a ler o mordomo chama-se Love e não matou ninguém. O Love serve dois remy reserve. O Love põe a mesa e abre a cama. O Love aparece subitamente a meio das frases, ocupado com tarefas domésticas. É um lugar como outro qualquer e o Love não parece tão deslocado como isso.

Também aparece neste livro  uma amante chinesa de nome He que se confunde com o real amante The King - o patrão do Love -  cujo  mote dá título ao post.

"He touched him. He touched He. He was hard. He was soft. He touched him and he touched He".

Amor, que lugar estranho.