Era uma vez um humilde génio que queria ter acesso à Internet em sua casa. Depois de comprar uma casa tão modesta e bela quanto ele, e após o calvário das pequenas obras no interior da casa (e dele próprio, mas para o caso não interessa), chegou à graça de uma habitação condigna, sem com isso ofender ninguém. Em duas das duas divisões previu a imprescindível ligação para as tomadas de telefone.
Para efeitos de activação do Serviço Clix ADSL, que oscila entre a “oferta” de 16 ou 20 megas, consoante a publicidade seja mais ou menos séria, eu o génio belo e humilde recebeu em 8 de Junho de 2006 um e-mail da Clix, informando-meo que «no dia 2006/07/04 de manhã será efectuada a instalação da sua linha telefónica», pelo que solicitavam o acesso à sua residência, «assegurando a sua presença». Já no dia anterior (no dia 7 de Junho), este filho de Deus havia recebido um telefonema, uma carta e um sms a dizer o mesmo, todos remetidos pela Clix.
Foi o que fez, então. Tirou à Nação meio dia de férias e esteve em casa toda a manhã. Em vão, contudo. Não só ninguém apareceu, como ninguém (da PT ou da Clix) se dignou informá-lo que a tripla comunicação anterior tinha o mesmo efeito de uma promessa eleitoral do Engº Sócrates. Ou seja, afinal não era bem assim.
Reclamou para o número de apoio ao cliente (808102030), onde lhe disseram que talvez a instalação tivesse sido feita sem necessidade de ele se encontrar em casa – ao contrário do que lhe tinham dito por carta, sms e por e-mail. Que esperasse 5 dias úteis por um contacto dos "colaboradores" da Clix (nos nosso tempo, da Novilíngua, já ninguém é trabalhador, somos todos colaboradores; também ninguém é despedido – há é recursos dispensados; e o povo, perdão, a sociedade civil, pouco conta), para terminar a intervenção. Foi o que fez, então. Em vão, contudo. Ninguém apareceu.
Entretanto, recebeu um telefonema de um funcionário (ou “colaborador”, não sei bem) da PT a perguntar por que razão não estava em casa: sem aviso prévio, encontravam-se à sua porta para instalar a linha telefónica. Ah! ah! Afinal era preciso lá estar… Mas como ninguém avisou o cidadão do novo dia em que lá se deslocavam (nem a PT nem a Clix) e o belo génio, apesar da sua superior inteligência (e sensibilidade e humildade e beleza) não tem premonições desde os onze anos, foi trabalhar para o emprego e não estava em casa. Erro. Deveria ter tirado uma licença sem vencimento e nunca se ausentar de casa, para não o apanharem desprevenido.
Reclamei Reclamou novamente para o mesmo nº de apoio ao cliente. Disseram que, afinal, a PT não tinha ido a sua casa na data combinada e triplamente anunciada pela Clix (coisa que o belo génio já tinha descoberto) e que iriam noutro dia e que , com toda a certeza, o avisariam da nova data ainda nessa semana. Que aguardasse. Foi o que fez, então. Em vão, contudo. Ninguém o contactou.
Reclamou então, mais uma vez para o mesmo nº 808102030. Pediram desculpa. Iam marcar com a PT novo dia e diziam-melhe qualquer coisa nos próximos dias. Que aguardasse novamente. Foi o que fez. Em vão, contudo. Ninguém o contactou.
Contactou este vosso amigo uns dias depois, para o tal nº de apoio ao cliente. Parece que já tinham pedido à PT para vir a sua casa proceder à prometida instalação da linha telefónica. O pedido fora remetido à PT em 17/Julho/2006 (progresso: era a primeira vez, desde a mentirosa informação em triplicado, que havia uma informação concreta).
Passou mais de um mês e não sabemos ainda se e quando alguém irá instalar a linha telefónica na habitação desta vítima do capitalismo. Ninguém lhe diz nada. Nem a PT nem a Clix. Nem o Sócrates, que, afinal, aumentou o IVA. Provavelmente este processo de activação do Serviço Clix ADSL tem sofrido muitas evoluções, mas a política da empresa é manter os clientes ignorantes sobre os meandros do seu não funcionamento.
Se a Clix fosse um serviço público, prestava-se bem à cassete do mau funcionamento da Administração Pública, à gritante ineficiência dos serviços do Estado (face às maravilhas dos privados), à mais que provada incompetência de todos os funcionários públicos (o que não acontece nos privados), às cunhas (que os privados não têm), aos compadrios (que os privados não têm) ou às listas de espera (que os privados não têm), às preguiças do funcionário (o que não acontece no privado) que, em vez de fingir que é um super-homem, dá atenção ao que lhe diz o colega que faz uma pausa, porque tem o dele certo ao fim do mês, à falta de respeito para com quem paga impostos (o que não acontece nos privados), em suma, à inépcia do sistema público, para onde só quem arranja emprego são os indolentes ou os mal educados.
Mas a Clix é uma empresa privada, pertencente ao maior (e moderno e eficiente e eficaz e sei lá que mais) grupo empresarial privado português, onde tudo é repleto da qualidade e «profissionalismo, transparência, credibilidade, eficiência, confiança, liderança, humanidade», que os privados sempre oferecem, no melhor dos mundos que só o mercado totalmente livre das obtusas regras do Estado pode garantir, neste paraíso de virtudes que são todos os serviços privados.