Método II
A razão de não contar o nosso segredo, amigo, é que ele está escrito em todas as paredes da cidade.
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Quando um dos 20 mil milhões de poetas que há em Portugal se lembra de escrever num papel “o vento acariciava-lhe o cabelo”, os outros 19 mil milhões e tal são imediatamente tentados a pensar que se trata de um cantante medíocre, um demiurgo pimba, com bigode. Mas a realidade pode bem ser outra e o verso barroco ser a sua verdade oculta. Pensemos nisso durante este curto intervalo.
Eu já deixei de escrever, mas Hermes, o carteiro do Cosmos, tarda em trazer-me o aviso.
Todos os dias matamos e escondemos a mão. Comemos o bife de forma radicalmente ingrata, sem ponta de agradecimento ou respeito pela Vitela oculta nos olhos do homem do talho. No bife não sobra rasto algum da Vitela, vestígio algum da infinita bondade com que nos ofereceu vida. A sua. A que exibimos vaidosamente como se fosse nossa.
Matemos. Saibamos que é imperativo que matemos para que possamos continuar vivos. Mas mostremos as mãos em sinal de gratidão.
Podemos ver o nosso reflexo, a nossa família, os nossos amigos. Podemos ver as árvores, as outras pessoas que as mais das vezes nos são indiferentes. Podemos ver os países e ouvir falar deles e saber os seus nomes. Espanha, Malta, Rússia, Alemanha, China, Estados Unidos da América e por aí fora.
Mas o Global ou o Multinacional tornaram-se termos que designam o que não está acessível à visão nem a nenhum dos outros sentidos. E como entidade intangível torna-se numa força à qual todas essas coisas que podemos ver estão expostas.
O Global ou o Multinacional designam um poder que se situa acima de todos os outros que fomos habituados a reconhecer, um poder que se não mostra aos nossos olhos excessivamente mortais, pelo menos enquanto esses olhos insistirem em olhar sem ver.
Tudo o que se esconde é dentro de nós que se esconde. E muito embora o dentro de nós seja desde o início dos tempos, desde esse estranho e irreparável instante a que alguns chamam Queda, um labirinto escuro e aparentemente inextrincável, será pela visão que reencontraremos o sinal que Ariadne deixou aos seus filhos perdidos. Uma visão outra, decerto. Não aquela ocupada na centelha exterior que fascina e nos faz errar por um breu que se multiplica pelo infinito labirinto, mas a Visão que se vê e se elege como fonte de todo o conhecimento.
Essa forma de Visão pertence a um sentido entretanto perdido na teia do tempo, a tal a que chamaram Queda, mas permanece onde sempre esteve e aguarda serenamente o beijo do orvalho ou o sussurro mágico. Pouco mais haverá por dizer sobre a Globalização e a Utopia.
A Ordem do Discurso é o tema da aula inaugural de Michel Foucault no Colégio de França. Um texto muito difícil e muitíssimo inteligente, aliás como a obra do filósofo francês. Mas se razoavelmente compreendido, lavar-nos-à a ler de outra maneira o que o ministro Vieira da Silva quis realmente dizer quando confessou a dificuldade em cumprir a promessa dos 150 mil novos empregados: ele quis, de facto, anunciar que há 150 mil portugueses por quem o desemprego espera ansiosamente no próximo ano. E quando ele diz 150 mil quer dizer, pelo menos, o dobro.
Oxalá eu esteja enganado, mas nesta altura vive-se um ambiente absolutamente histérico nas repartições deste país (centros de emprego, segurança social, inspecção do trabalho) com os desempregados aos milhares e aos trambolhões em busca da tábua de salvação. E, além de ninguém falar disso, continua a valer uma estatística completamente manipulada que mente com quantos dentes tem sobre a verdade da rua. A denunciá-lo está a medida prevista no orçamento para 2009, na qual o Estado se propõe como senhorio dos que deixarem de pagar a prestação da casa ao banco. Porque só o Apocalipse justificaria tal magnanimidade.
Sempre que abro uma certa gaveta em busca de um par de peúgas acontece, quase sempre, encontrar lá as peúgas que buscava. Uma vez que, se bem me lembro, jamais lá coloquei peúgas ou o que quer que fosse, pensei hoje, ao abrir a gaveta, que talvez deva ao Deus que provê tal magia um pequeno altar e um pau de incenso. Depois pensei melhor e lembrei-me que, sem prejuízo da oração que se deve ao Deus do nosso coração, talvez não fosse mau passar a lembrar-me mais das gavetas onde os outros buscam mistérios como meias pretas e eu próprio lá depositar essa magia, como um Deus abscôndito, um milagre quotidiano, enfim, esse mistério que ordena e movimenta o cosmos.
A famosa e tão controversa mão invisível pode afinal não ser a do mago negro que manipula e desorienta o nosso caminhar pelo mundo mas, pelo contrário, a dos magos brancos que, sem sequer neles repararmos, vão alimentando as nossas gavetas de peúgas dobradas com cheiro a fresco e outros mistérios da criação. É a esses que eu hoje devo o meu respeito e a mais funda gratidão.
Desde há algumas décadas a esta parte a Ciência vem realizando o extraordinário feito de descobrir o que uma certa parte da humanidade sabe há milhares de anos. Parecendo absurda, e mesmo sendo absurda, esta forma de cegueira tem origem no paradigma sob o qual essa Ciência trabalha. Suspeito que a fonte desse paradigma radica no momento “histórico” em que na Consciência da Ciência se deu uma ruptura fundamental entre os conceitos de Physis e de Natureza, vindo este último a dominar, até aos dias de hoje, o paradigma de que falei.
Infelizmente, tendo eu que estar daqui a 45 minutos na Póvoa do Varzim, isto à hora a que comecei a escrever este texto, ou seja, há 8 ou 9 horas atrás, não posso desenvolver a ideia. Até porque acabei de travar uma luta titânica com a máquina de lavar a loiça.
Obrigado, portanto, ao meu único leitor, pela tenaz paciência.
Pessoas aplaudindo cães vestidos de marinheiro.
A televisão portuguesa, através das telenovelas, destila Monty Python por todos os poros. O problema é que o tele visor já não ri. Especa-se como um prumo sem parede, vertical mas inerte num deserto sem sentido.
Paradoxalmente é esta a forma do V Império, mas não digam isso a ninguém.
É possível verificar empiricamente o crescimento do círculo da Consciência, tal como Carl Jung o caracterizou, nomeadamente, nos “Estudos Alquímicos” ou na “Psicologia e Alquimia”.
A Consciência, a Luz de que falam os homens livres, cresce conquistando terreno ao Inconsciente. A liberdade desses homens é, portanto, a liberdade de se lançarem às Trevas, de as conquistarem como fazia muito antigamente o seu irmão nómada em busca de alimento para o seu rebanho.
Essa matriz geométrica que define o movimento cósmico, o movimento da ordem, intimamente ligada à nossa concepção de Consciência, implica, por outro lado, que reconheçamos que o Inconsciente se funda exactamente na mesma matriz reflectida e que avança sobre a Consciência em busca do mesmo alimento, do outro pólo energético.
Não podemos viver lutando eternamente contra os instintos. Devemos fazer por integrá-los no círculo da Consciência, cientes que essa integração resultará na transformação de conteúdos conscientes arcaicos em novos instintos. A eternidade pode ser isso.